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David Chang no Paul Holdengraber Show sobre o medo de falhar, Lucky Peach, Thomas Bernhard, David Thoreau etc.

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Parnaso (Apolo, Venus, Mercúrio e as Musas), de Andrea Mantegna

Estou a rasgar um trilho pelos domínios sem caminhos do reino pieriano das Musas, onde nenhum pé deixou antes a sua marca. Que alegria é aproximar-nos de fontes virgens e beber as suas águas. Que alegria colher novas flores e juntá-las numa gloriosa grinalda, arrancadas a campos cujas flores ainda nunca foram entrelaçados pelas Musas à volta de qualquer cabeça. Esta é a minha recompensa por ensinar esses temas majestosos, por me esforçar por libertar os espíritos dos homens dos apertados nós da superstição, e por derramar nos escuros cantos os raios brilhantes da minha canção que irradia tudo com o fulgor das Musas.

In, “Sensações e Sexo”, Lucrécio, Tradução de José Pinheiro, Coisas de Ler, Edições, Lda.

 

Um projecto documental de autoria da fotógrafa espanhola Greta Alfaro

http://www.gretaalfaro.com/index.html

Gravura: Canibalismo, Theodor de Bry

 

(…) Irei agora portanto, propor humildemente as minhas próprias reflexões, que espero não sejam susceptíveis de menor oposição.

Tendo-me sido assegurado, por um americano muito sábio, em Londres, que uma criança saudável e bem alimentada é, com um ano de idade, uma comida deliciosa, nutriente e completa, seja estufada, grelhada, assada ou cozida; e não tenho dúvidas de que poderá ser igualmente servida em fricassé ou guisada.

Assim ofereço humildemente à consideração pública que, das cento e vinte mil crianças já contadas, vinte mil podem ser reservadas para procriação, das quais apenas uma quarta parte serão machos; o que é mais do que permitimos às ovelhas, gado bovino ou suínos; e a minha justificação é que estas crianças raramente são fruto do casamento, uma circunstância não muito observada pelos nossos selvagens; portanto um macho será suficiente para cobrir quatro fêmeas. Que as restantes cem mil, com um ano de idade, sejam oferecidas para venda a pessoas de qualidade e fortuna por todo o reino; sempre advertindo a mãe para que as deixe mamar profusamente no último mês, de modo a torná-las rechonchudas e gordas para uma boa mesa. Uma criança comporá dois pratos para uma refeição de amigos; e quando a família jantar sozinha, os quartos anteriores ou posteriores fornecerão um prato razoável e, temperado com um pouco de pimenta ou sal, ainda fará um bom cozido ao quarto dia, especialmente no Inverno.

Fiz as contas e, em média, um recém-nascido pesará umas 12 libras e, dentro de um ano, se convenientemente nutrido, aumentará para 28 libras. (…)

in,  “Uma Proposta Modesta”, Jonathan Swift, Alfabeto, Tradução: Pedro Ventura.


Matsukage Hiroyuki – Pony, 1999

Foto: “La Grande Bouffe”, Deniz Saylan


(…) No início, não era apenas o desejo de comer, beber e estar juntos que nos unia. Havia a ostentação, sim. Depois que trocamos o picadinho do Alberi por coisas mais finas, nossos jantares passaram a ser rituais de poder, mesmo que não soubéssemos então. Podíamos comer e beber bem, por isso comíamos e bebíamos do melhor e fazíamos questão de ser vistos e ouvidos no exercício do nosso privilégio. Mas também não era só isso. Não éramos só filhos da puta. Éramos diferentes, e festejávamos a nossa amizade e a nossa singularidade naquelas celebrações barulhentas de um gosto comum. Tínhamos um discernimento superior da vida e dos seus sabores, o que nos unia mesmo era a certeza de que nossa fome representava todos os apetites que um dia nos dariam o mundo. Éramos tão vorazes, no começo, que qualquer coisa menos que o mundo equivaleria a um coito interrompido. Queríamos o mundo e acabamos como fracassados municipais, cada um na sua merda particular. (…)

In, “O Clube dos Anjos”, Luís Fernando Veríssimo, Publicações D. Quixote, 2000

(…) Quem está acostumado a escaldadelas, não faz caso da mordidela de um piolho. Passa-se uma vida bela na cabeça de um cozinheiro. Deus me livre de um vadio! Quanto mais a cabeça em que a gente anda tem que parafusar e em que se ocupe, tanto mais seguro vive o pobre piolho. Esse, creio que nem sabia que havia piolhos no mundo. Uma só vez o não vi coçar, nem tinha tempo.
Ele era cozinheiro de uma casa abundante e a sua vida era trabalhosa. Era obrigado a ir para a cozinha meia hora antes que os criados se levantassem, para poder aparar os comestíveis sem barulho. Aparava a carne para trazer a fêvera para casa e deixar a gordura e os ossos para o amo, para poder fazer uma boa sopa. A fêvera da vaca é desenxabida, não dá gosto nenhum. Aparava o presunto para o mesmo fim, o toucinho, a couve, o carvão, a manteiga, numa palavra, aparava tudo que havia em casa. A única coisa que o não vi aparar foi umas pancadas que lhe quiseram dar. Fugiu-lhe com o corpo e não as aparou. Ah, sim, também me esquecia: não aparava penas, nem aparava chuva. Enganei-me. Havia muita coisa que ele não aparava. Sustentava com estas aparas a sua casa, e a do sogro, e vendia para uma taberna. A sua ração dava-a por esmola a um brasileiro que lhe dava seis mil e quatrocentos por mês. Tinha o seu par de vinténs juntos e bem adquiridos. O amo estava contentíssimo com ele e dizia que o seu Brás não o deixava por coisa nenhuma. É certo que ele pagava-lhe muito bem, porque não tendo nunca recebido nem real, já se lhe deviam dois anos de ordenado e ele não abria a boca e, muitas vezes, emprestava as suas dez moedas para o vexame da casa. Onde se encontram destes criados presentemente? Está brincando! O que ele andava nas diligências, era de ser também mordomo e se o conseguisse, dizia ele:  — Em quatro anos há-de ser meu amo meu criado, se quiser passar. E havia de ser, porque em ele proferindo uma palavra era um axioma.
Mas que paladar que tinha o bêbado! Não havia ninguém que o não gabasse! Afogava um repolho sem lhe apertar o pescoço, que o podiam comer os Anjinhos! Fazia pudins de caroços de azeitonas que lhe deram muito caroço! Burriés de molho à pantana, só ele os fazia. O que ele não sabia fazer, eram espargos, e mais deixou muitas vezes os criados, ao jantar, como o espargo do monte, sem lhe chegar nada. Pois morcelas azedas! Isso era comer e gritar por mais! E salada! Fazia tudo em salada.
Uma noite me lembra a mim que ele fez uma ceia que todos andavam a gritar pela ceia. E apesar de andar de amores com a tal rapariga não se descuidava de nada, que há pessoas que em andando desencabrestadas, não lhes lembra senão o tal namoro. Cá este, não senhor; todo o tempo que eu morei nele, sempre o vi erguer de madrugada para ir cuidar nas aparas, e nunca o vi uma só manhã beber uma xícara de café ou chá. O seu almoço era umas sopas de panela com o seu bocado de presunto, duas rodas de paio, quatro ovos e três quartilhos de vinho. E andava magro, era doente do peito! O que é a constituição! A tal rapariga, com quem ele estava para casar, também tinha convulsões e febre contínua. Mas diziam os Médicos que não era nada, que em casando talvez que logo morresse. (..)

In “O Piolho Viajante” (1821) – Atribuído a António Manuel Policarpo da Silva

Pintura: O Cozinheiro e o GatoThéodhule-Augustin Ribot (1823–1891)

Still Life with Mouse for House & Garden, 1947

Frozen Foods with String Beans for Vogue, 1977

Tofu, Fig, osteoporosis prevention foods for Vogue, 1998

Bouillabaisse for Vogue, 1948


Cholesterol’s Revenge for Vogue, 1994

Guinea Fowl for Vogue, 1993

Poulet de Bresse for Vogue, 1993


Pizza, for Vogue, 2000

New York Still Life (Elements of a Party) for Vogue, 1947

FOTOS DE IRVING PENN (1917–2009)

A minha mais recente aquisição. Ideal para quem quer conhecer os fundamentos da cozinha japonesa, folclores “sushísticos” à parte.  “If much of Western cooking is an attempt to improve on nature through addition, then Japanese cooking is an attempt to bring out the best in nature through subtraction”. Esta frase demonstra o espírito da obra: clara e concisa mas nem por isso menos elucidativa e interessante, ou seja, muito japonesa. Uma coisa leva a outra e, quem gosta do tema, deve ler uma excelente entrevista no blog ediblegeography a propósito da exposição It’s A Tasty World – Food Science Now! patente no National Museum of Emerging Science and Innovation (Miraikan) em Tokyo. Pelo caminho cheguei a este blog que também merece uma olhada por parte dos apreciadores, ou potenciais apreciadores, das delícias gastronómicas do país do sol nascente

Ainda não li mas vou ler. “A Poesia é para Comer” de Ana Vidal, foi distinguido pela Academia Portuguesa Gastronomia com o Prémio Anual de Literatura Gastronómica/2009.  O comunicado justifica assim a atribuição:

“Pretende assim esta Academia exprimir o seu apreço pela intenção da obra, na subtil relação que estabelece entre o alimento do corpo e o do espírito.

Sob um título que repete um verso de Natália Correia, o livro “A Poesia é para Comer” reúne uma colecção de poemas, seleccionados a partir das suas referências, explícitas e implícitas, a temas gastronómicos. Assinados por diferentes poetas que povoam o universo da Lusofonia, cada um deles dá origem e fica associado a uma receita culinária original, criada expressamente para o efeito.

O livro está dividido em seis capítulos temáticos:

Prelúdios Inspirados (entradas)

Boas Companhias (acompanhamentos)

Presentes do Mar (peixes)

Prazeres da Carne (carnes)

Finais Felizes (sobremesas)

Néctares dos Deuses (bebidas)

É ainda de sublinhar o critério e o conhecimento com o que o assunto escolhido foi tratado, de maneira a poder captar, de forma original, um público variado com interesse crescente pela cultura gastronómica.”.

Fotografia de Kevin Best: http://bestshots.com.au/flash/home_splash.html

Os snobs que oferecem jantares ocupam um lugar muito importante na sociedade inglesa e é extremamente árdua a tarefa de os descrever. Houve uma época da minha vida em que a consciência de ter consumido a comida de alguém me tornava opaco aos seus defeitos e falar mal dessa pessoa era, para mim, um acto de maldade e uma quebra do dever de hospitalidade.
Mas, por que razão havia uma perna de carneiro de nos cegar ou um pregado com molho de lagosta de nos fechar para sempre a boca? À medida que envelhecem, os homens vêm com mais nitidez os seus deveres. Recuso-me a continuar a ser ludibriado por uma fatia de carne de veado, por mais apetitosa que seja; e quanto a ficar mudo com o pregado e o molho de lagosta, claro que fico: as boas maneiras ordenam-me que assim seja até ter engolido a comida – mas não depois. Logo que as vitualhas começam a ser discutidas e John me retira o prato, a minha língua desata-se. Não acontece o mesmo convosco, se tiverdes um vizinho de mesa agradável? (…)

(…) Mas o que é, afinal, a verdadeira hospitalidade? Infelizmente, meus queridos amigos e irmãos snobs, como é raro a encontrarmos! Quando um dos nossos amigos nos convida para jantar, serão os seus amigos desinteressados? Pergunto isto porque é algo com que me cruzei muitas vezes. Quererá o vosso anfitrião algo de vós? Eu, por exemplo, não tenho um feitio desconfiado, mas o facto é que, quando Hookey está prestes a publicar uma nova obra, convida os críticos todos para jantar; que quando Walker tem os quadros prontos para a exposição, fica, de repente, extremamente hospitaleiro e convida os amigos que tem na imprensa para comer um costeleta e beber um copo de Sillery. O velho Hunks, esse sovina que morreu recentemente (deixando o dinheiro à governanta) viveu muitos anos à grande e à francesa limitando-se a anotar, na casa de todos os seus amigos, os nomes de família e os nomes de baptismo de todos os seus filhos. Mas embora possamos ter a nossa opinião pessoal sobre a hospitalidade dos nossos conhecidos, e embora aqueles que nos convidam por motivos sórdidos sejam definitivamente snobs que nos oferecem jantares, o melhor é nunca investigarmos muito profundamente os motivos por que o fazem. A cavalo dado não se olha o dente. Afinal de contas, a intenção de quem nos convida para jantar não é, com certeza, insultar-nos.
Devo, no entanto, confessar que conheço alguns tipos nesta cidade que se consideram realmente ofendidos e insultados se o jantar ou os convivas não forem do seu agrado. Há o caso de Guttleton, que janta um casa um xelim de carne de vaca da loja do cozinheiro mas que, se for convidado para uma casa onde não haja ervilhas no fim de maio, ou pepinos em Março, juntamente com o pregado, acha que o convite foi um insulto. “Deus dos céus!”, diz, “qual é a intenção dos Forker ao convidarem-me a mim, para um jantar familiar? Carneiro posso eu comer em casa”; ou ” Que impertinência mais infernal é esta dos Spooner comprarem entrées na pastelaria, sabendo bem que vou ficar desiludido com as histórias que contam sobre o seu cozinheiro francês?” Depois, temos o caso de Jack Puddington – um dia destes vi esse tipo honesto verdadeiramente furioso, porque quis a sorte que Sir John Cover o convidasse para reunir-se ao mesmo grupo com quem já tinha estado na casa do coronel Cramley, no dia anterior, e não tinha ainda preparado novas histórias com que entreter essas pessoas. pobres snobs que oferecem jantares!… Nem sabeis o pouco agradecimento que recebeis por todos os vossos esforços e pelo dinheiro que gastais! Nem vos passa pela cabeça como nós, os snobs que jantam fora, troçamos dos vossos cozinhados e desprezamos o vosso pobre vinho branco e ficamos perplexos com o vosso champanhe de tuta-e-meia. Sabemos que os pratos de hoje são réchauffées do jantar de ontem e reparamos que alguns pratos são levantados da mesa intactos para que possam fazer parte do banquete de amanhã. Pela minha parte, sempre que vejo o chefe dos criados particularmente ansioso por escamoter um fricandó ou um manjar branco, chamo-o e faço questão de o massacrar com uma colher. Todos estes comportamentos fazem com que sejamos populares junto dos snobs que oferecem jantares. Sei que um amigo meu fez uma sensação prodigiosa na boa sociedade anunciando, à propos de certos pratos que lhe eram oferecidos, que nunca come geleia de carnes frias excepto em casa de Lord Tittup e que o chef de Lady Jiminy é o único homem de Londres que sabe preparar um parto com os devidos acompanhamentos – filet en serpenteau ou suprême de volaille aux truffes.

in, O Livro dos Snobs, W. M. Thackeray

O Canto da Mesa, Paul Chabas

(…) A caracterização psicológica da família Schuster é essencialmente construída à volta do casal Schuster e do filósofo Robert Schuster, embora o Prof. Joseph seja o protagonista da tragédia, a qual, no entanto, Bernhard faz aproximar da forma mais moderna do drama de crítica social. É essencial saber que Joseph Schuster é possuidor de uma boa fortuna, de proveniência industrial, e que por isso não exerce o seu trabalho na universidade com fins lucrativos e que, na sociedade de Viena, ocupa aquele lugar no topo que era comum durante a Monarquia e até 1938, entre a alta burguesia judaica. Assim pela fortuna, pela educação e pelo estilo, Joseph é um dandy da sociedade dos anos 30: os seus fatos são exclusivamente comprados em Londres, onde, para ele, existem os melhores alfaiates da Europa; os seus sapatos são exclusivamente comprados em Itália onde, para ele, existem os melhores botiers da Europa, e de tal maneira que, como nos diz a governante, ele possui uma colecção de mais de cem pares; as suas camisas são exclusivamente compradas em Lisboa, para o tratamento das quais Schuster, como fanático da precisão, desenvolveu um conjunto de regras que a governante tem invariavelmente de seguir quando as engoma e quando as dobra. Longe de mim, no entanto, querer dar a ideia de que Schuster é frívolo e mundano. A meta de um dandy é, como se vê por Swann, o refinamento global de toda a personalidade, física e moral: não é só a toilette que deve ser sublime, é a alma acima de tudo que deve estar permanentemente em contacto com o sublime. (…)

In “Os Degraus do Parnaso” – Angústia em Viena num Andar com Vista,  crónica de M.S. Lourenço sobre o poema dramático de Thomas Bernhard “A Praça dos Heróis”, publicada originalmente n’ O Independente.

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Foto: August Sander

ILSUM09-161x210-1Para uns, um título ousado a roçar o presunçoso, para outros, aquilo que é: uma revista escrita por gente inteligente para gente inteligente.

Editada pela The Economist, a Inteligent Life é uma das mais interessantes revistas da actualidade que apresenta um conteúdo abrangente e de qualidade homogénea que por isso merece ser lida com atenção.

Neste número salta-nos à vista um artigo sobre a nova vaga de alfaiates sediados na improvável Windmill Street.  Posicionando-se como uma alternativa menos convencional à prestigiada Savile Row não hesitam no entanto em declarar-se como continuadores da grande herança do “Made to Measure” britânico.

Num quiosque perto de si ou, lido online aqui: SAVILE ROGUES: LONDON’S RAKISH TAILORS.

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Ilustração: Aubrey Beardsley


O criado, ou empregado de mesa, para não ferir susceptibilidades, é um dos pilares essenciais de qualquer restaurante. É através dele que se processa o contacto directo com o cliente e do seu desempenho depende, em grande parte, o juízo definitivo do comensal. Não há excelência gastronómica que resista à incompetência de quem serve: o trabalho meticuloso de um chef pode muito facilmente ser arruinado num ápice pelo desprimor no serviço.

Hoje em dia, do empregado de mesa espera-se eficiência, disponibilidade, asseio, cadência, simpatia, correcção e, em virtude da sofisticação da oferta, conhecimento: não o simples papaguear da ementa e seus ingredientes, mas um razoável domínio das diversas componentes da actividade em que se inclui, que lhe permita responder, segura e prontamente, a qualquer questão pertinente por parte do cliente.

Atrevo-me a dizer que não é a isto que assistimos na maior parte dos casos em Portugal e não me refiro aos estabelecimentos mais corriqueiros, onde o entredentes “não queres esperar, vai dar uma volta” é comum, mas antes às casas apregoadas como “de luxo”, onde a qualidade do serviço, no mínimo, deveria ser proporcional ao valor da factura trazida à mesa.

Haveria muito para dizer sobre o assunto: todos aqueles que, com alguma assiduidade, frequentam restaurantes e hotéis têm um vasto anedotário, do caricato ao boçal, que preencheria inúmeras páginas de irritante gozo. Vou, antes, deixar-vos o, hoje banal, conjunto de regras que o bon-vivant Sir Wilfred Gowers-Round (1855-1945) criou de tão indignado que estava com a fraca qualidade e insolência dos empregados de mesa em terras de Sua Majestade.

Desde lá para cá, muito mudou. Algumas regras teriam de ser acrescentadas, outras, talvez, adequadas à realidade presente. Não serve de consolo mas fica demonstrado que o mal não é de agora nem exclusivo nosso.

1. A função de um criado de mesa é servir e nunca se impor.

2. O objectivo do criado de mesa é servir com a máxima discrição.

3. O criado de mesa deve estar bem apresentado, asseado e nunca usar colónia.

4. Em nenhuma circunstância deverá tocar nos alimentos.

5. Os copos de vinho nunca deverão estar demasiado cheios.

6. Nunca deverá dar opinião a não ser que lhe seja solicitada.

7. Se os comensais quiserem-se servir do vinho, deixá-los.

8. A não ser que seja pedido, os pratos só deverão ser levantados depois de todos terem terminado.

9. Às senhoras é devido o mesmo respeito que aos homens.

10. A conta deverá ser colocada na mesa de forma discreta.

(…)
A. What is the number of the guests invited
To this fine marriadge feast? And are they all
Athenian citizens, or there are some
Foreigners and merchants?
B. What is that to you,
Since you are but the cook to dress the dinner?
A. It is the first part of my art, O father
To know the taste of those who are to eat.
For instance, if you ask a Rhodian,
Set a fine shad or lebias before him,
Well boil’d and hot, the moment that he enters,
That’s what he likes; he’ll like it better so
Than if you add a cup of myrine wine.
B. Well that idea of dhads is not a bad one.
A. Then, if a Byzantine should be your guest,
Steep all your offer such a man in wormwood.
And let your dishes taste of salt and garlic..
For fish are all so plenty in their country,
That the men all are full of rheum and phlegm
´
And Menander says, in his Trophonius –

A. This feast is for a guest’s reception.
B. What guest? Whence comes he? For those points, believe me,
Do make a mighty difference to the cook.
For instance, if some guests from the islands come
Who always feed on fish of every sort
Fresh from the sea, such man like not salt dishes,
But think them make-shifts. Give such men their food
Well-season’d, forced, and stuff’d with choicest spyces
But if you ask a guest from Arcady
He is a stranger to the sea, and loves
Limpets and shell-fish; – but the rich Ionian
Will look at nough but Lydian luxuries,
Rich stimulating, amatory meats
(…)

In The Deipnosophists or Banquet of the Learned – Vol. I. – Book IV, Athenaeus

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Banquete, Alessandro Allori

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Foto: Cornell Capa


(…) A sujidade no Hotel X, logo que entrávamos nas secções de serviço era revoltante. A cafetaria albergava em todos os recantos escusos uma camada de porcaria com mais de um ano de idade e as caixas do pão encontravam-se infestadas de baratas. Uma vez sugeri a Mário que déssemos cabo daquela bichanada. “Mas para que queres matar os pobres dos bichos?” respondeu-me ele, com reprovação. Os outros riram-se quando pretendi noutra altura lavar as mãos antes de mexer na manteiga. Porém éramos asseados onde considerássemos que a limpeza fazia parte do boulot. Limpávamos as mesas e areávamos os cobres regularmente porque tínhamos ordens para o fazer; mas não havia ordens para sermos realmente asseados nem, de qualquer modo, tempo para tal. Cumpríamos simplesmente a nossa obrigação, e a nossa primeira obrigação era a pontualidade; era assim que ganhávamos tempo com a sujidade reinante.
Na cozinha a porcaria era ainda pior. Não se trata de uma figura de estilo, mas de uma verificação de facto dizer que um cozinheiro francês cospe na sopa – isto é, contanto que não esteja a cozinhar o que ele próprio vai comer. Por outro lado, o cozinheiro é, sem dúvida, um artista, só que a sua arte não é a higiene. Em certa mediada, pode dizer-se até que é sujo por ser artista, uma vez que a comida, para ser bonita, exige um tratamento pouco asseado. Quando trazem, por exemplo, um bife para que o chefe de cozinha o inspeccione, este não o manipula com um garfo. Aperta-o entre os dedos e faz força, passa o polegar pela travessa e depois lambe-o para provar o tempero, repete a operação e, em seguida, recua para contemplar o pedaço de carne como se fosse um artista a examinar um quadro; finalmente, arranja-o amorosamente no prato, com os seus dedos vermelhos e gordos, cada um dos quais foi lambido já uma centena de vezes ao longo da manhã. Quando se sente satisfeito, pega num pano de cozinha, apaga com ele as marcas deixadas pelos dedos , e estende o prato ao empregado de mesa. E o empregado de mesa, é claro, mergulha por sua vez os dedos no molho – os seus dedos engordurados que, para mais, tem o costume de passar pelo cabelo cheio de brilhantina. Quando alguém paga, digamos, mais de dez francos por um prato de carne em paris, pode ter a certeza de que o bife foi arranjado de maneira semelhante à que descrevi. Nos restaurantes mais baratos, aí é diferente; aí a comida não é objecto de tantos cuidados; tiram-na simplesmente com o garfo da frigideira para o prato, sem toques de dedos suplementares. De um modo geral, quanto mais caro se paga pela comida, mais suor e saliva se come como acompanhamento. (…)
In “Na Penúria em Paris e em Londres”, George Orwell (1933)

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TO MAKE AN AMBLONGUS PIE

Take 4 pounds (say 4 1/2 pounds) of fresh Amblongusses, and put them in a small pipkin.

Cover them with water and boil them for 8 hours incessantly, after which add 2 pints of new milk, and proceed to boil for 4 hours more.

When you have ascertained that the Amblongusses are quite soft, take them out and place them in a wide pan, taking care to shake them well previously.

Grate some nutmeg over the surface, and cover them carefully with powdered gingerbread, curry-powder, and a sufficient quantity of Cayenne pepper.

Remove the pan into the next room, and place it on the floor. Bring it back again, and let it simmer for three-quarters of an hour. Shake the pan violently till all the Amblongusses have become a pale purple colour.

Then, having prepared a paste, insert the whole carefully, adding at the same time a small pigeon, 2 slices of beef, 4 cauliflowers, and any number of oysters.

Watch patiently till the crust begins to rise, and add a pinch of salt from time to time.

Serve up in a clean dish, and throw the whole out of the window as fast as possible.

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TO MAKE CRUMBOBBLIOUS CUTLETS

Procure some strips of beef, and having cut them into the smallest possible slices, proceed to cut them still smaller, eight or perhaps nine times.

When the whole is thus minced, brush it up hastily with a new clothes-brush, and stir round rapidly and capriciously with a salt-spoon or a soup ladel.

Place the whole in a saucepan, and remove it to a sunny place, — say the roof of the house if free from sparrows or other birds, — and leave it there for about a week.

At the end of that time add a little lavender, some oil of almonds, and a few herring-bones; and cover the whole with 4 gallons of clarified crumbobblious sauce, when it will be ready for use.

Cut it into the shape of ordinary cutlets, and serve it up in a clean tablecloth or dinner-napkin.

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TO MAKE GOSKY PATTIES

Take a pig, three or four years of age, and tie him by the off-hind leg to a post. Place 5 pounds of currants, 5 of sugar, 2 pecks of peas, 18 roast chestnuts, a candle, and six bushels of turnips, within his reach; if he eats these, constantly provide him with more.

Then, procure some cream, some slices of Cheshire cheese, four quinces of foolscap paper, and a packet of black pins. Work the whole into a paste, and spread it out to dry on a sheet of clean brown waterproof linen.

When the paste is perfectly dry, but not before, proceed to beat the Pig violently, with the handle of a large broom. If he squeals, beat him again.

Visit the paste and beat the pig alternately for some days, and ascertain that if at the end of that period the whole is about to turn into Gosky Patties.

If it does not then, it never will; and in that case the Pig may be let loose, and the whole process may be considered as finished.

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Receitas de Edward Lear publicadas na Nonsense Gazette em Agosto de 1870

Fotos: Chema Madoz

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