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“Alargando os braços na mesura coniforme do orate fratres, contou padre Jesuíno da sua grande decepção. Tinham estoirado muito coelho, muita lebre, alguns raposos, dois ou três lobatos, mas do Bicho-Mau nem pelinho lobrigaram.
– Estou em crer com a minha criada que anda aqui o Mafarrico!
– Rematou num gesto burlesco de credulidade.
–  E melhor seria trazer o hissope da água benta que espingardas! – obtemperou Teodoro, arremedando-lhe o gatimanho.
– O que lá vai, lá vai! Ocupemo-nos da santa trincadeira, que o meu estômago está a gritar contra a cabeça que o governa! – proferiu o abade, ajeitando o corpanzil à margem da mesa opípara.
Bandearam-se em ágape amigos e conhecidos, e abriram-se para o monte merendeiros de folha e alforges bem aparelhados. Nas mãos brancas, nas mãos finas, nas mãos papudas apareceu o pernil de cabrito, a asa de galo, o bolinho de bacalhau; nas mãos negras e calosas – queijo, pêro e pão, comer de vilão. Breve, acima do rumor dos queixais, uma gracinha de menina, uma graçola de abade, passavam mais futigivas e ligeiras que o canto das cigarras quando os segadores vão trolhos fora, de foice em punho, ceifando. E homens e mulheres em cacho, estendidos ao comprido, de cócoras ou joelhos, sobre pedras e morouços de lenha, com cães à volta, os cavalos ao largo a pastar, lembrava aquilo, mais que fecho de grande romagem ou feira de ano, a ala de uma horda em sua aventura nómada.
O Baltasar doidinho andou rodando as comezainas, colhendo aqui uma bocado, disputando além um osso aos rafeiros. A troco de dois tonilhos lá ia abichando ora um trago, ora tanto como quodore, a pontos de fugir-lhe o chão debaixo dos pés quando os fidalgos começaram a alargar a carcela e a arrotar. Disseram-lhe, então, que pregasse um sermão, daqueles, de grande cerimonial, que ora faziam rir, ora chorar as pedras. Não se fazendo rogado, trepou o maluco para um penedo que, pela linha majestosa, podia muito bem ser a rocha em que já ignorados e primitivos Moisés, condutores de tribos, viessem bater com a ludibriante vara de bronze. E, brandindo as mãos em espadela, agitando a cabeçorra guedelhuda, rompeu:
– Ouvi, ouvi, almas de Barzabu, tanto faz correr como saltar, ao Papa-Moças não chegais!…
– Porquê Baltasar? Porquê? – bradaram muitas vozes a um tempo.
– Não lhe chegais… Tem vista de águia e não é águia; a força do leão e não é leão; a malícia da raposa e não é raposa; o discernimento do homem e não é homem…
– Então o que é? – gritou um ferreiro com a voz colérica e o gesto descomposto de bêbado ou desvairado.
– É o que é. Só vos digo que padres, legisladores, santarrões e velhos tartufos andam desde que o mundo é mundo para o empandeirar e nicles.
– Tem sete fôlegos!…”

In “Andam Faunos Pelos Bosques”, Aquilino Ribeiro, Bertrand Editora

Mao Dang Lao, bronze (2002) – Zhang Hongtu


(…)
Salvatella tocou à campainha com a mesma educação com que entregou o seu obséquio a Carvalho, dizendo ser modesto mas interessante, da reprodução fac-símile dos primeiros números da Horitzons, uma revista cultural editada clandestinamente durante o franquismo. Carvalho prometeu a si mesmo que a queimaria antes de 1984, juntamente com a obra de Orwell. Ao aproximarem-se da porta sobre o cascalho do jardim, avisou-o da presença de Fuster.
– Não se preocupe. É meu sócio. Não tenho segredos para ele. Segredos profissionais entenda-se.
Sublinhou a palavra sócio quando fez as apresentações, e as sobrancelhas loiras de Fuster franziram-se mefistofélicamente atrás dos óculos a escorregar do nariz que lhe permitiam manter o ar de estudante da Sorbonne maltratado por uma calvície de frade. Ignorou a conversa entre Fuster e Salvatella enquanto aquecia o arroz refogado na cebola, lhe juntava o caldo deixado pelas amêijoas e caldo de peixe suficiente suficiente para que a massa do arroz ficasse com um dedo de líquido por cima. esperou que levantasse fervura, conservou o lume forte durante dez minutos, depois diminui-o e a seguir espalhou as amêijoas pela superfície do arroz para lhes fazer finalmente a oferenda floral do picado de alho e salsa. Entretanto, Fuster fazia as honras a Salvatella à base de xerez frio e azeitonas recheadas com amêndoas. A conversa entrava nas profundidades da fronteira entre Castellón e Aragão, rincão do mundo privilegiado onde Fuster tinha nascido e de onda saíra para estudar em Barcelona, Paris e Londres, numa viagem que desejava que fosse de ida e volta.  Salvatella fazia perguntas muito interessadas sobre o valencianismo anticatalanista. Dir-se-ia que tomaria notas se não tivesse as mãos ocupadas com o copo que Fuster alimentava com o zelo de um criado presunçoso e a caçar as fugidias azeitonas com dente de amêndoa. depois elogiou a escolha de Viña Esmeralda, revelando erudição ao mencionar o livro sobre vinhos escrito pelo fabricante e ficou extasiado depois de levar à boca o terceiro garfo carregado com o arroz aromatizado pelas amêijoas e o picado de alho e salsa.
É a antítese do arroz á valenciana. A simplicidade perante o barroco – concluiu Salvatella, e o movimento que Fuster fez com a cabeça indicou que elevava aquelas considerações a definitivas.

– Vocês os comunistas, são sempre comunistas? Agora, por exemplo, em plena digestão de um jantar suponho que agradável, o senhor é comunista? (…)

In  “Assassinato no comité central (Série Pepe Carvalho)” Manuel Vazquez Montalbán – 1981 ASA Editores SA/2007

Estão convencidos de que sabem fazê-la, de tal modo ela parece simples, e muitas vezes não lhe dão a devida importância. É preciso que coza entre quinze e vinte minutos e não durante duas horas — todas as mulheres francesas deixam cozer demasiado os legumes e as sopas. E depois, mais vale deitar os alhos porros na panela quando as batatas começam a ferver: a sopa fica com um tom esverdeado e ganha um aroma mais vivo. Alem disso, é preciso dosear bem os alhos porros: dois alhos porros médios são suficientes para um quilo de batatas. Nos restaurantes esta sopa nunca fica em condições: fica sempre cozida demais, demasiado «retardada», triste, morna, e acaba por incluir-se na lista comum das sopas de legumes — de que há falta — dos restaurantes franceses de província. Não, devemos querer fazê-la e fazê-la com cuidado, evitar esquecermo-nos dela ao «lume», para que não perca o sabor. É servida sem nada, ou com manteiga ou natas frescas. Também podemos juntar-lhe uns pedacinhos de pão torrado no momento de servi-la: dar-lhe-emos então um outro nome ou inventaremos um qualquer — deste modo as crianças comê-la-ão com mais vontade que se lhe dermos o nome ridículo de sopa de alhos porros com batatas. É preciso tempo, são precisos anos para reencontrarmos o sabor desta sopa, imposta às crianças sob diversos pretextos (a sopa faz crescer, faz os meninos bonitos, etc.). Não há nada na cozinha francesa que se possa igualar à simplicidade e à necessidade da sopa de alhos porros. Deve ter sido inventada numa região ocidental, numa noite de Inverno, por uma mulher ainda jovem, pertencendo à burguesia local, que, nessa noite, sentiu aversão aos molhos gordos — e a outras coisas mais, sem dúvida — mas sabia-o ela? O organismo absorve esta sopa com satisfação. Digamo-lo sem ambiguidades: não tem a suculência do toucinho, não é sopa para alimentar ou aquecer, não é a sopa magra para refrescar, o corpo sorve-a em grandes tragos, purifica-se, depura-se, embebendo os músculos nesta verdura primitiva. O seu aroma espalha-se nas casas muito rapidamente, é muito activo, vulgar como a comida do pobre, o trabalho das mulheres, o vomitado dos recém-nascidos. Pode não nos apetecer fazer nada e depois, fazer isso, sim, fazer essa sopa: entre estas duas vontades, uma margem muito estreita, sempre a mesma – o suicídio.

Marguerite Duras, “Outside – notas à margem” , trad. Maria Filomena Duarte, Difel.

Visto aqui Malone meurt

LIVRO I

Aqui Mecenas, dou início ao canto
que nos ensina a ter fartas colheitas,
a como lavrar terra em astro certo,
a como vides ajuntar aos olmos
e que cuidados tem de haver com bois
ou como se tratar gado miúdo,
como levar saber à parca abelha.
E dos céus vos invoco, luminares,
que guias sois do percorrer dos anos.
E te venero, Baco, a Ceres honro,
a Ceres criadora, se é verdade
que foi por vós que nos trocou a terra
as landes da Caónia pelo trigo
e juntou à bebida de Aqueloo
o sumo de uva só por vós trazido.
E a vós também cuja divina ajuda
vale aos homens do campo, eu vos invoco
para que venham, Faunos, vossos passos
como os vossos também, Dríades jovens,
por vossos dons invoco. E tu, Neptuno,
a quem a Terra, por tridente lesa,
deu fremente a cavalo; e tu também
dos bosques habitante, a quem devemos
os três vezes cem touros que da neve
a brancura revestem e que pastam
as abundantes moitas de ilha Ceia;
e tu, deus Pã, o guarda das ovelhas,
deixa o bosque e gargantas do Liceu
que tua pátria são; e vem Tegeeu,
me dá a tua ajuda, se é que ainda
o Ménalo te importa; e tu Minerva,
que oliveira inventaste; e tu menino,
que arado adunco nos mostraste em obra;
e tu, Silvano, que desde a raíz
arrancado cipreste tens contigo;
deuses e deusas todas que cuidais
de defender os campos e que aos frutos
que da terra brotarem sem semente
sustentais quando nascem e do céu
tanta chuva fazeis logo descer;
…”

In, “Geórgicas”, Virgílio, Temas & Debates – Tradução do latim, Agostinho da Silva

“O período de devoção religiosa de Tolstoi teria um término tão abrupto quanto o seu início. Na Quaresma, quando a família estava à mesa, perante um jantar vegetariano, Tolstoi pediu as costeletas reservadas ao tutor ateísta dos filhos. Quando Sofia lhe recordou que era dia de jejum, Tolstoi respondeu-lhe: “Não tenciono fazer mais jejum e, por favor, não volteis a encomendar-me refeições de Quaresma.” Foi com deleite que comeu as costeletas perante o olhar dos filhos. Vários deles não teriam qualquer religião na idade adulta, o que não surpreenderia Sofia: estavam normalmente confusos. Sofia sabia que o marido tinha uma grande necessidade da religião, mas que a sua fé tradicional o deixava insatisfeito. A sua busca espiritual era complexa, mas as suas conversões foram súbitas.”

In “Sofia Tolstoi – Uma Biografia”, Alexandra Popoff, Civilização Editora

Retrato de Leo Tolstoi por Ivan Nikolaevich Kramskoy

Parnaso (Apolo, Venus, Mercúrio e as Musas), de Andrea Mantegna

Estou a rasgar um trilho pelos domínios sem caminhos do reino pieriano das Musas, onde nenhum pé deixou antes a sua marca. Que alegria é aproximar-nos de fontes virgens e beber as suas águas. Que alegria colher novas flores e juntá-las numa gloriosa grinalda, arrancadas a campos cujas flores ainda nunca foram entrelaçados pelas Musas à volta de qualquer cabeça. Esta é a minha recompensa por ensinar esses temas majestosos, por me esforçar por libertar os espíritos dos homens dos apertados nós da superstição, e por derramar nos escuros cantos os raios brilhantes da minha canção que irradia tudo com o fulgor das Musas.

In, “Sensações e Sexo”, Lucrécio, Tradução de José Pinheiro, Coisas de Ler, Edições, Lda.

Prato de peixe em faiança de Gaia, Sec. XIX

A raia, para ser boa, deve ser comida de caldeirada de pitai (Mira) menos em Maio, porque «raia em Maio, tumba à porta», e à faneca com três fff – fresca, fria e frita. Cada peixe têm a sua época: « a solha,. no tempo do milho, come-a com o teu amigo», a sardinha antes da desova e o próprio caranguejo só lá para Agosto é que, assado na casca, atinge a perfeição. Mas todo o peixe regala quando sai da rede para o lume: tem um sabor único a mar, e até a reluzente savelha e o horrível cação, lavados e amanhados na maré, se tornam toleráveis. Quanto ao linguado, ao goraz, à corvina, à gordíssima sarda, à pescada e à saborosa sardinha, para não falar dos peixes hoje quase desaparecidos, do rodovalho, do peixe-rei, ignora-lhe o sabor e o delicado perfume quem não os trouxe do barco para casa, ainda a escorrer dentro do cabaz, sobre uma cama de algas e de limos. São então esplêndidos assados, fritos, de caldeirada, com um fio de azeite, ou preparados pelo próprio pescador sobre umas brasas.

Quando a maré vaza, os pescadores procuram a serrada para iscar os espinheis, e a praia fica a descoberto: as poças de água são jóias cheias de reflexos entre o lodo, e cada penedo com a sua cabeleira escura de sargaço — verde húmido e translúcido – é um ser vivo. Em todas as poças faíscam as enguias que se metem nos aboques, o caranguejo traiçoeiro voraz, que espera a presa na sua clausura de pedra, as mantas de pequenos peixes por criar, reluzindo quando, num movimento brusco, mostram ao mesmo tempo o ventre esbranquiçado, e um bicho mole como lesma que se arrasta pelo limo. Há fragas enormes, roídas veneráveis, cobertas de lapas aderentes, de mexilhões aos cachos que, sentindo gente, fecham logo a casa, e onde o azul empoça em buracos que reflectem o universo: cabem lá dentro o céu, a luz e as estrelas.

In, “Os Pescadores”, Raul Brandão

(…) Depois de preparar o ponche divertimo-nos a comer ostras, passando-as um ao outro quando já as tínhamos na boca. Ela oferecia-me a sua sobre a sua língua ao mesmo tempo que eu lhe metia na boca a minha. Não há jogo mais lascivo, mais voluptuoso entre dois apaixonados. Até é cómico, e a sua comicidade não desgasta, porque o riso só está feito para os que são felizes. Que bom está o molho de uma ostra que chupo da boca da pessoa que adoro! É a sua saliva. A intensidade do amor não pode deixar de aumentar quando a mastigo, quando a engulo! (…)

in,  “História da minha vida”, Giacomo Casanova, Tradução de Nuno Castro e Paulo Azeredo

Foto: “The Banquet” , Mark Daughhetee

(…) It was, indeed, a wonderful achievement that today, in Berlin, 1,000 state cookshops, each one capable of accommodating 1,000 persons, should have been opened at one stroke. True, those persons who had imagined that it would be like the table d’hôte of the great hotels of the past days, where a pampered upper class continually reveled in every refinement of culinary art — such persons, I say, must feel some little disappointment. As a matter of course, we have here likewise no trim, swallow-tailed waiters, no bills of fare a yard long, and no such paraphernalia.

In the state cookshops everything, even to the smallest details, has been anticipated and settled beforehand. No one person obtains the smallest preference over others. The picking and choosing amongst the various state cookshops cannot, of course, be tolerated. Each person has the right to dine at the cookshop of the district in which his dwelling is situated. The chief meal of the day is taken between 12 o’clock and 6 in the evening. Everyone has to report himself at the cookshop of his district, either during the midday rest or at the close of the day.

I am sorry to say that I can now no longer take my meals with my wife except on Sundays, as I have been accustomed to do for the last 25 years, inasmuch as our hours of labor are now entirely different.

Upon entering the dining room an official detaches the dinner coupon from your book of money certificates, and hands you a number that indicates your turn. In the course of time others get up and go away, and your turn comes, and you fetch your plate of victuals from the serving tables. The strictest order is maintained by a strong body of police present. The police today — their number has now been augmented here to 12,000 — rather gave themselves airs of importance in the state cookshops, but the fact is, the crowd was a very big one. It seems to me that Berlin proves itself to be on too small a scale for the vast undertakings of Socialism.

As each one takes his place, just as he comes from his work, the groups sometimes have a somewhat motley appearance. Opposite to me today sat a miller, and his neighbor was a sweep. The sweep laughed at this more heartily than the miller. The room at the tables is very cramped, and the elbows at each side hinder one much. However, it is not for long, the minutes allowed for eating being very stingily measured. At the expiration of the meagerly apportioned minutes — and a policeman with a watch in his hand stands at the head of each table to see that time is strictly kept — you are remorselessly required to make room for the next.

It is an inspiring thought to reflect that in every state cookshop in Berlin, on one-and-the-same day exactly the same dishes are served. As each establishment knows how many visitors it has to count upon, and as these visitors are saved all the embarrassment of having to choose from a lengthy bill of fare, it is clear that no time is lost; whilst there is also none of that waste and loss consequent upon a lot of stuff being left, which circumstance used so much to enhance the price of dining at the restaurants of the upper classes. Indeed, this saving may well be reckoned amongst the most signal triumphs of the socialistic organization.

From what a neighbor of ours, who is a cook, tells us, it had originally been intended to serve up various dishes on the same day. It soon appeared, however, that there would be a manifest want of equality in such an arrangement; inasmuch as those persons who, from any reason, were prevented from coming in good time would not have the chance of dining off such dishes as were “off,” but would have to take whatever was left.

All the portions served out are of the same size. One insatiable fellow today who asked for more was rightly served by being heartily laughed at. For what more deadly blow could be leveled at one of the fundamental principles of equality? For the same reason the suggestion to serve out smaller portions to women was at once indignantly rejected. Big, bulky men have to put up with the same-sized portions, and to do as best they can. But, then, for such amongst them who, in their former easy circumstances, used to stuff themselves, this drawing in of their belt is quite a good and wholesome thing. For the rest, people can bring with them from their homes as much bread as they like, and eat it with their meals. Furthermore, any persons who find their portions larger than they care for are not prohibited from giving a part to their neighbors. (…)

in, Pictures of the Socialistic Future, Eugen Richter (1838–1906)

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(…) Pues ¿qué os pudiera contar, Señora, de los secretos naturales que he descubierto estando guisando? Veo que un huevo se une y fríe en la manteca o aceite y, por contrario, se despedaza en el almíbar; ver que para que el azúcar se conserve fluida basta echarle una muy mínima parte de agua en que haya estado membrillo u otra fruta agria; ver que la yema y clara de un mismo huevo son tan contrarias, que en los unos, que sirven para el azúcar, sirve cada una de por sí y juntos no. Por no cansaros con tales frialdades, que sólo refiero por daros entera noticia de mi natural y creo que os causará risa; pero, señora, ¿qué podemos saber las mujeres sino filosofías de cocina? Bien dijo Lupercio Leonardo, que bien se puede filosofar y aderezar la cena. Y yo suelo decir viendo estas cosillas: Si Aristóteles hubiera guisado, mucho más hubiera escrito. (…)

In, Respuesta de la poetisa a la muy ilustre Sor Filotea de la Cruz”, Sor Juana Inés de la Cruz


Gunter Grass é um daqueles escritores que dispensa grandes apresentações. De nacionalidade alemã, foi Prémio Nobel em 1999 e só por isso muita gente ouviu falar dele. Como é habitual, são mais os que o conhecem pela fama do que aqueles que na realidade leram algumas páginas por si escritas. Para os que o desconhecem completamente ou querem saber um pouco mais sobre a sua vida, bastará pesquisar a web, onde a informação a seu respeito não falta.

Para além de escritor e artista plástico, representado em Portugal pelo Centro Cultural de S. Lourenço, em Almancil, no Algarve, região onde tem casa e passa largos períodos, Gunter Grass é também um apaixonado pela cozinha. Há quatro anos, a CCSL publicou um livro intitulado “Na cozinha dos artistas”, no qual o escritor foi convidado a participar. Na curta prosa escrita a propósito, Gunter Grass sublinha o seu apreço pelo peixe e desvenda parte do seu processo criativo no que ao desenho concerne: “Depois da refeição, quando os convidados, já acalmados após uma breve disputa, partirem elogiando o meu peixe, seja um ou outro, desenho aquilo que sobrou: com lápis, sanguínea, carvão ou mesmo com uma pena, desenho a espinha com restos de carne, a cabeça desfeita, de olhos brancos. E enquanto desenho, imagino outros jantares de peixe com convidados que chamo de longe, dos séculos passados. Ou convido para a minha mesa amigos, já há muito tempo desaparecidos, dos quais sinto a falta há muitos anos, para disputar e discutir com eles e, no momento da despedida, ouvi-los elogiar o meu peixe, seja peixe galo ou pregado.”

Ora, é precisamente o Pregado (Der Butt), que dá nome a uma das suas obras mais importantes, agora novamente publicada em Portugal pela Casa das Letras. Ao longo de pouco menos de 650 páginas e nove capítulos, que têm como ponto de partida um conto  dos irmãos Grimm, “O pescador e a sua esposa”, Gunter percorre a história da cultura alemã desde o período neolítico até à década de 70 e ao mesmo tempo traça uma elaborada história da alimentação que torna “O pregado” uma obra incontornável para os apreciadores da literatura gastronómica de que deixo aqui um excerto, uma poema, onde é bem patente  relação entre o texto da CCSL e “O Pregado”.

De que escrevo eu

Da comida, do sabor que fica.
Se seguida, dos convidados, que aparecem ser o ter sido
ou que chegaram com quase um século de atraso.
Do desejo da cavala por limão espremido.
Mais do que qualquer outro peixe escrevo do pregado.
 
Escrevo da abundância.
Do jejum e da razão por que os comilões a inventaram.
Do valor nutritivo das côdeas vindas da mesa dos ricos.
Da gordura e dos excrementos e do sal e da escassez.
de como o espírito se tornou amargo que nem bílis
e a barriga ficou demente,
irei eu — no meio de um monte coberto de milho-miúdo —
descrever de modo instrutivo.
 
Escrevo do seio
É da gravidez de Ilsebill (os desejos de pepinos em conserva)
que vou escrever enquanto esta durar.
Da última dentadinha com ela partilhada,
da hora passada com um amigo
entre fatias de pão, queijo, nozes e vinho.
(Guturalmente, conversámos de deus e do mundo
e sobre o empanturrar-se, que mais não é senão medo.)
 
Escrevo da fome, de como esta foi descrita
e dissiminada por escrito.
É de especiarias (quando Vasco da Gaa e eu
tornámos a pimenta mais barata)
que eu, de viagem rumo a Calcutá, quero escrever.
 
Carne crua e cozinhada, que amolece, se desfia, atrofia e se desfaz.
As papas quotidianas,
seja o que for que já antes foi mastigado: história datada,
as chacinas de Tannenberg Wittstock Kolin,
o que resta, é disso que tomo nota:
ossos, cascas, entranhas e chouriços.
 
Da repugnância diante de um prato cheio,
daquilo que sabe bem,
do leite (como este coalha),
da beterraba, da couve; da vitória da batata
escreverei amanhã,
ou depois dos restos de ontem
se tornarem os de hoje petrificados
 
De que escrevo eu: do ovo.
Dos desgostos e da gordura que por eles se ganha,
do amor que consome, do prego e da corda,
das brigas a propósito do cabelo e da palavra a mais na sopa.
das arcas congeladoras, do que lhes sucedeu
quando a corrente deixou de passar.
De nós todos, sentados á mesa vazia após a refeição,
irei eu escrever;
e também de ti e de mim e da espinha na garganta.
 

in, “O Pregado”, Gunter Grass, Casa das Letras, Tradução Paulo Rêgo.

 


Gravura: Canibalismo, Theodor de Bry

 

(…) Irei agora portanto, propor humildemente as minhas próprias reflexões, que espero não sejam susceptíveis de menor oposição.

Tendo-me sido assegurado, por um americano muito sábio, em Londres, que uma criança saudável e bem alimentada é, com um ano de idade, uma comida deliciosa, nutriente e completa, seja estufada, grelhada, assada ou cozida; e não tenho dúvidas de que poderá ser igualmente servida em fricassé ou guisada.

Assim ofereço humildemente à consideração pública que, das cento e vinte mil crianças já contadas, vinte mil podem ser reservadas para procriação, das quais apenas uma quarta parte serão machos; o que é mais do que permitimos às ovelhas, gado bovino ou suínos; e a minha justificação é que estas crianças raramente são fruto do casamento, uma circunstância não muito observada pelos nossos selvagens; portanto um macho será suficiente para cobrir quatro fêmeas. Que as restantes cem mil, com um ano de idade, sejam oferecidas para venda a pessoas de qualidade e fortuna por todo o reino; sempre advertindo a mãe para que as deixe mamar profusamente no último mês, de modo a torná-las rechonchudas e gordas para uma boa mesa. Uma criança comporá dois pratos para uma refeição de amigos; e quando a família jantar sozinha, os quartos anteriores ou posteriores fornecerão um prato razoável e, temperado com um pouco de pimenta ou sal, ainda fará um bom cozido ao quarto dia, especialmente no Inverno.

Fiz as contas e, em média, um recém-nascido pesará umas 12 libras e, dentro de um ano, se convenientemente nutrido, aumentará para 28 libras. (…)

in,  “Uma Proposta Modesta”, Jonathan Swift, Alfabeto, Tradução: Pedro Ventura.

Foto: “La Grande Bouffe”, Deniz Saylan


(…) No início, não era apenas o desejo de comer, beber e estar juntos que nos unia. Havia a ostentação, sim. Depois que trocamos o picadinho do Alberi por coisas mais finas, nossos jantares passaram a ser rituais de poder, mesmo que não soubéssemos então. Podíamos comer e beber bem, por isso comíamos e bebíamos do melhor e fazíamos questão de ser vistos e ouvidos no exercício do nosso privilégio. Mas também não era só isso. Não éramos só filhos da puta. Éramos diferentes, e festejávamos a nossa amizade e a nossa singularidade naquelas celebrações barulhentas de um gosto comum. Tínhamos um discernimento superior da vida e dos seus sabores, o que nos unia mesmo era a certeza de que nossa fome representava todos os apetites que um dia nos dariam o mundo. Éramos tão vorazes, no começo, que qualquer coisa menos que o mundo equivaleria a um coito interrompido. Queríamos o mundo e acabamos como fracassados municipais, cada um na sua merda particular. (…)

In, “O Clube dos Anjos”, Luís Fernando Veríssimo, Publicações D. Quixote, 2000

(…) Assistira, um dia, Gertrudes ao meu jantar e viu que eu me confrangia enjoado pelo espectaculo repulsivo de meia franga recozida e um caldo branco em que boiavam uns olhos amarellos da enxundia do oveiro da ave. Ella cheirou de longe o caldo fumegante, e disse com engulho:—Captiva! isto nem com fome de cão se podia tragar!Que o medico me não deixava comer outra coisa,—balbuciei tão extenuado e offegante que me parecia despegar-se o ultimo colchete da existencia n’um esvahir de desmaio.
—Sinto-me morrer…—murmurei flebilmente.
—E morre decerto!—confirmou ella com sinistra solemnidade—morre, se não mudar de comida. Quer que eu o ponha rijo? Diga á dona da hospedaria que a sua enfermeira e cozinheira sou eu.
Não esperou resposta e sahiu. Pouco depois, voltou muito afreimada, tirou a mantilha de sarja, mudou de calçado para não fazer bulha com os tacões das botinhas, cingiu um lenço na fronte recolhendo os bandós, atou um avental de riscadinho na cintura e foi para a cozinha. Quando entrou com uma caçoula coberta, o perfume vaporado do rebordo da tampa abriu subitamente no meu olfacto uma fonte de vida, uma sensação entre espiritual e nazal, um quasi extasis, como a evidencia da immortalidade do eu. Arranjou a meza de leito com o talher, afofou-me as travesseirinhas nas costas angulosas, escadeadas como um [58] pedaço de velho cancêllo desengonçado, a cahir das dobradiças despregadas,—e passou para uma travessa o acepipe fumegante. Eram duas mãos de boi guizadas, loiras, de uma unctuosidade oleosa que punha caricias ferozes nos dentes, e aguçava na abobada palatina as cobiças dantescas do faminto Ugolino e de um professor portuguez de instrucção primaria. Devorei uma das mãos, sopeteando no molho pedaços de pão que engulia inteiros, soffregamente, n’uma intallação.
—Poderei comer a outra mão, snr.ª Gertrudinhas? perguntei esperando em anciosa incerteza a resposta duvidosa.
—Se tem vontade, coma. Que sente lá por dentro?
—Fome, snr.ª Gertrudes, fome!
—Então coma; a natureza que lh’o pede, é por que não lhe faz mal.
E não fez. Fumei um charuto que até [59] áquelle momento me nauzeára. Pedi café e cana de Paraty. Estive quasi a pedir as calças para me levantar.
—Nada de boticadas! intimou ella; e, pegando em dous frascos de pilulas de ferro de Blaud e de Vallet, e de meia garrafa de vinho quinado despejou tudo na primeira vasilha concava que se offereceu á sua indignação.—Fóra com a porcaria!—bradava gesticulando, com a cólera scientifica e a justiça indefectivel de um medico homeopata. (…)

 
in “O vinho do Porto: processo de uma bestialidade inglesa, exposição a Thomaz Ribeiro”, Camilo Castelo Branco

Pintura: “La Madeleine chez le pharisien”, Jean Beraud, (1849-1935).

(…) Of all the delicacies in the whole mundus edibilis, I will mantain it to be the most delicate – princeps obsoniorum.
I speake not of your grown porkers – things between pig and pork – those hobbydehoys – but a young and tender suckling – under a moon old – guiltless as yet of the sty – with no original speck of the amor immunditiae, the hereditary failing of the first parent, yet manifest – his voice as yet not broken, but something between a childish treble, and a grumble – the mild forerunner, or praeludium,of a grunt.
He must be roasted. I am not ignorant that our ancestors ate them seethed, or boilde – but what a sacrifice of the exterior tegument!
There is no flavour comparable, I will conted, to that of the crisp, tawny, well-watched, not over-roasted, crackling, as it is well called – the very teeth are invited to their share of the pleasure at this banquet in overcoming the coy, brittle resistance – with the adhesive oleaginous –O call it not fat – but an indifinibla sweeteness growing up to it – the tender blossoming of fat – fat cropped in the bud – taken in the shoot – in the first innocense – the cream and quintessence of the child- pig’s yet pure food – the lean, no lean, but a kind of animal manna – or, rather fat and lean (if it must be so) so blended and running into each other, that both together make but one ambrosian result, or common substance.
Behold him, while he is doing – it seemeth rather a refreshing warmth, then a scorching heat, that he is so passive to. How equably he twirleth round the string! – Now he is just done. To see the extreme sensibility of that tender ge, he hath wept out this pretty eyes – radiant jellies – shooting stars–
See him in the dish, his second cradle, how meek he lieth¡ – wouldst thou have had this innocenyt grow up to grossness and indocility which too often accompany maturer swinehood? Ten to one he would have proved a glutton, a sloven, an obstinate, disagreable animal – wallowing in all manner of filthy conversation – from these sins he happily snatched away –

Ere sin could blight, or sorrow fade,
Death came with timely care –

his memory is odoriferous – no clown curseth, while his stomach half rejecteth, the rank bacon – no coalheaver bolteth him in reeking sausages – he hath a fair sepulchre in the grateful stomach of the judicious epicure – and for such a tomb might be content to die. (…)

In, “A Dissertation Upon Roast Pig”, Charles Lamb


Lúculo, o anfitrião romano cujos jantares são ainda célebres pelas suas elaboradas ementas e custos fabulosos, cansou-se um dia de jantar com os seus semelhantes.
Mandou fazer uma refeição só para uma pessoa. Quando lhe foi servida, apercebeu-se de um certo desleixo: o vinho estava talvez um pouco frio de mais e  o molho da carpa, certamente menos suculento do que de costume, não tinha aquele picante, que dava, com justiça, fama ao seu chefe.
Lúculo franziu o sobrolho e mandou chamar o mordomo.
«Talvez, talvez» concordou o servidor, por entre uma torrente de saudações respeitosas. «Achámos que não era necessário preparar um banquete requintado só para o meu senhor…»
«É precisamente quando me encontro só», respondeu o grande gourmet, num tom gelado, «que é necessário terem um cuidado especial com o jantar. Nessas ocasiões, devem lembrar-se que Lúculo janta com Lúculo».
Nessas ocasiões, são raras as pessoas que se apercebem que jantam consigo próprias. Com efeito, tentam esquecer essa realidade bastante assustadora. Se estão em casa lêem o jornal ou ligam a rádio. É ainda mais habitual, fugirem de sí próprios para clubes cheios de amigos ou para o mais barulhento dos restaurantes vizinhos, onde outros seres humanos solitários se amontoam juntos, formando uma multidão ignóbil e esfomeada, que absorve pílulas digestivas entre os pratos comidos à pressa. É pena. De vez em quando uma refeição tomada consigo próprio é excelente para qualquer um. Dá-lhe tempo para olhar em volta, sossego para saborear cada dentada; ocasião para grelhar o bife de uma nova maneira ou provar mais uma vez aqueles pratos que a minha mulher detesta.
Não precisa, porém, de o levar muito a sério. O velho Thomas Walker, esse original, cujas preocupações com os aspectos requintados das refeições, chegam por vezes, a ser pomposas, , tem a seguinte opinião sobre o problema:

Quando é necessário jantar sozinho, deve-se dispor a mente ao contentamento, através de um intervalo prévio de repouso, longe de tudo o que tenha ocupado seriamente a atenção, e orientando-o para algum objecto agradável.

O «o intervalo de repouso» pode muito bem ser dedicado a grelhar uma peça tenra de lombo de vaca, embora duvide que fosse a isso que Walker se referia; e não haverá melhor «objecto agradável» para o qual orientar a atenção do que uma bela garrafinha de vinho tinto da Côte d’Or. Com uma folha ou duas de alface e um pedaço de pão estaladiço Lúculo teria uma refeição, com que mesmo Lúculo ficaria bem servido.

In, «A Arte de Bem Servir» M.F.K. Fisher, Relógio D’Água

Jantáramos entre amigos para festejar o regresso do «homem que viajou». À sobremesa, todos dissertaram sobre arte e amor. Então o «homem que viajou» disse: Não são talvez nem as impressões estéticas, nem as eróticas, aquelas que a memória retém com mais cuidado. A todas sobrepuja a lembrança das necessidades meramente físicas, satisfeitas após a crise do perigo que nos pôs a vida em risco, ou na plenitude do gozo material: um sono bem dormido quando fechamos um período de vigílias obrigadas e sinistras; a sede que se mata em dias de caçada, se a poeira nos obstrui os gorgomilos, e o líquido ingerido aos borbotões parece correr-nos o corpo todo e nos empapa o organismo, acudindo com igual solicitude a refrescar o cérebro e as plantas dos pés, como a água solta do tanque, em tarde de Estio, se espalha pela terra abrasada e fofa do hortejo.
Matar a sede!, e matá-la com vinho, que eu aprecio, sendo puro, em todas as regiões e com todos os flavores, sem mitologia – o néctar! – como aprecio o amor despido de sintaxe. Ah! agora recordo uns cangirões de vinho verde, bebidos na volta de uma excursão pelos areais fatigantes do Mindelo – excursão turista bem entendido, porque eu não fui dos mil e quinhentos – nos ardores de Agosto, o corpo requeimado pela travessia de um pinhal que o sol incendiava, e o cérebro encandeado, pela reverbação da luz crua, os grandes cangirões do leve líquido esgotados lentamente à sombra das altas paredes de uma igreja, com o espelho do mar em frente a referver de reflexos quebrados…
E o bom vinho negro e espesso, tocado longinquamente de maduro, bebido a caminho do mosteiro de Poblet, em La Espluga de Francoli – nome baquicamente sagrado –, vinho que as mães ministram por copos de água a seus tenros filhos – sem por isso a forte raça catalã desperecer; – o vinho bebido a escape, numa taberna lôbrega do Transtevere, após brava luta com rufias; e a sede que me matou um vinho espumante de Vicenza, servido pela manhã em cristais esplêndidos, no profundo e amplo tálamo de uma esposa de acaso, hetaira exaustiva…Ah! não, não… Nada que se compare à cena que eu agora reconstituo na mente e teve realidade junto ao cabo Miseno. Eu andava com outra criatura também casual, que tinha a pele, macia como o arminho, toda semeada de pequeninos lunares ruivos, a designarem precisamente os sítios onde os beijos são mais gostosos; criatura doce, indolente e decorativa, que trazia fios de pérolas grossas e falsíssimas metidas nos cabelos, a cujos reflexos adamascados elas misturavam o seu brilho húmido.
Fôramos passar o dia a Puzzuoli e antes do almoço, demos uma volta em carruagem pelos campos Flegrei.
O calor era horrível, e tanto apertava que o nosso cicerone – um rapazito tostado, que em Puzzuoli se encarrapitara ao lado do cocheiro e nunca mais nos abandonara, esquecido já do sonho eterno de todo o napolitano autêntico: a prometida pançada de macarroni al burro – a cada momento volvia o olhar suplicante para a minha companheira e clamava: «A senhora quer água; a senhora quer água…»
– Água não, mas vinho – disse ela por fim, negligentemente.
E fomos abancar debaixo de uma parreira que enfeitava a entrada da próxima taberna. Trouxeram-nos um alguidar transbordando vinho tinto, e quatro tigelas de barro com que nós o tirávamos e bebíamos. Que delicioso banho interior de fresquidão e alegria!
Daí a nada já todos tínhamos os beiços e a cara lambuzados de púrpura; luziam-nos os olhos, e ríamos sem saber do quê, espalhando suavemente a vista pelas harmoniosas da «Baía das Baías»…
– Basta atalhou um dos convivas, ironista encartado. – Você não é o «homem que viajou», é o «homem que bebeu»…
– Mas certamente… – obtemperou ele com uma expressão de singular dignidade…

In, «Obras Completas, Vol. I», Manuel Teixeira–Gomes, Imprensa Nacional Casa da Moeda.

Piazza d’Italia, Giorgio de Chirico

(…) Assim aconteceu, e, como os outros lhe pedissem que o fizesse já, falou assim. Um banquete, em si e por si, é uma coisa difícil, porque ainda que seja preparado com o máximo gosto e com talento há ainda algo mais que faz falta – a saber, sorte. Não me refiro àquilo em que uma cuidadosa dona de casa decerto pensará, mas a algo diferente de que ninguém pode assegurar-se em absoluto.: uma feliz convergência da disposição dos presentes e das circunstâncias envolventes do banquete, aquela consonância delicada, etérea, aquela música interior que não pode antecipadamente pedir-se a um músico profissional.
Eis porque motivo é arriscado começar, pois que, se algo correr mal, porventura logo no início, então, no que toca à disposição, um banquete pode orientar-se num direcção de tal modo desadequada que seja preciso muito tempo para resolver a situação. Somente o hábito e a falta de cuidados são, na maior parte dos banquetes, o pai e os padrinhos, e a culpa de não se descobrir a ausência de ideias é da ausência de sentido crítico. Em primeiro lugar, num banquete nunca devia haver mulheres. Seja dito in parenthesi que uso a palavra «mulheres» porque nunca gostei da palavra «senhoras», e agora que Grundtvig no seu grundtviguiano Brage-Snak usa grundtviguianamente esta palavra, então – mas isto de facto nada tem a ver com o assunto. Só ao estilo grego poderão admitir-se mulheres, como coro de dançarinas. Uma vez que num banquete se trata essencialmente de comer e beber, a mulher não deve tomar parte; porque nesse aspecto a sua presença não consegue ser satisfatória ou, se chega a sê-lo, é de maneira sumamente indecorosa. Logo que uma mulher está presente, comer e beber passam a ser, quando muito, algo como uma pequena ocupação feminina, algo para manter as mãos ocupadas. Sobretudo no campo, , uma refeição ligeira deste género, que aliás será melhor deslocar para momento diferente das horas próprias das refeições, pode ser extremamente encantadora, e quando assim é, tal fica a dever-se sempre ao outro sexo. Fazer como os ingleses, que mandam embora o sexo oposto quando se começa propriamente a beber, não é uma coisa nem a outra, pois que qualquer projecto  tem que ser uma totalidade, e a simples maneira como me sento à mesa e pego na faca e no garfo está em relação com o todo. Um banquete político é também uma ambiguidade indecorosa. Aí pretende-se que os elementos próprios do banquete sejam reduzidos à insignificância e que os discursos, por seu turno, não obtenham a sua importância do facto de serem proferidos inter pocula. Quanto a tudo isto estamos de acordo, e o nosso número, se o nosso banquete chegasse a ser alguma coisa, havia de ser também escolhido adequadamente segundo aquela bela regra: não mais que as musas, não menos que as Graças. pois bem, exijo o mais abundante excesso de tudo aquilo em que possa pensar-se. Mesmo que não esteja tudo em presença, a respectiva possibilidade tem que estar prontamente à mão, tem que pairar tentadora por sobre a mesa, mais sedutora do que uma visão.(…)

In, In Vino Veritas, Kierkegaard – Antígona, Tradução: José Miranda Justo

Pintura: “O Almoço de Ostras”, Jean Françoise de Troy (1734)

5 de Junho
Dia em que a Raynha comeu em publico

Ao domingo comeo a Raynha em publico desta maneira: pôs-se a meza em estrado alto debaixo de bum docel de brocado: sentou-se na cabecera e tres Damas em pé nas tres partes da meza; as das ilhargas poem e descobrem os pratos, a outra trincha na mesma meza; trazem os meninos da raynha os platos desde a porta athe los darem a ellas.
As mais Damas estão encostadas á parede em pé entre outros Senhores, que têm lugar com ells, os quais lugares pedem antes, ou ellas, ou elles, havendo licença para estar com a Snra. etc.; e ordinario he dous para cada huma.
Quando pede agua, a trás huma Dama, que se põem de joelhos e beija a salva e dá o pucaro e logo se torna a seu logar; de trás da Raynha está hum mordomo.
estiveram prezentes muitos inglezes, a quem sempre poem diante; e com isso, eles são, benza-os Deus, tão crescidinhos, não vi mais que trazer muitos pratos.
A Raynha devia vir farta, porque comeo pouco; e assim ella como El-Rey, dizem que são de boa boca, porque almoça El-Rey hum Capão de leite, como quem tem boa vontade, janta como qualquer filho de vizinho, merenda como Rey e cea como hum Papa; de maneyra que pudera dizer Platão sem se espantar de Dionizio: Vide hominen bis saturum in di.
Agua era de canella, alguns diziam que o era na côr somente, e assim parecia vinho; mas, como he alemãa, não se póde crer senão que seria agua.
Lembra-me que li em Frey Hieronimo Romão, na vida do Infante D. Fernando, que os Reys Portugueses nunca beberam vinho; mas El-Rey D. João; deve ser que se entenderá quando comem em publico ou athe áquelle tempo; ainda que o frade mente a mais dezabalada mentira que nunca ouvi e preverteo a relação verdadeira, que andava impressa, com acrescentar mil louvores falsos que desacreditem a verdade da historia. (…)

In, “Fastigimia”, Thomé Pinheiro da Veiga, Imprensa Nacional-Casa da Moeda

Pintura: “O Banquete de Cleopatra”, Giovanni Battista Tiepolo, 1743-1744

7 de Junho
Banquete que deo o Duque

Este dia, deu o Duque hum banquete esplendedissimo aos Inglezes, que se affirma foy dos mais notaveis e mais ostentação que ha muitos tempos se deu: e para mais aparato mandou de fazer de comer em humas cosinhas fóra do seu páteo grande e se fês hum passadiço com quatro colunas de madeira de cada parte, cubertas de brocados com toldo por sima, para que passaram as iguarias por baixo, e a praça e terreiro se armou todo de muy ricas colgaduras para esta procição.
Fizeram-se três copas em treze cazas, huma que tomava toda a parede de alto a baixo, de degráos e da mesma maneira a parede fronteira para a prata, em que havia como 400 vazos, todos de invenção fermozissima, alem da plata ordinaria.
Na outra caza estava a baixella de ouro e esmaltes, tudo pessas notaveis, que ocupava meza e degráos de huma parede athe sima, cousa admiravel de ver: e na outra havia somente vidros e cristaes engastados em ouros, com pés, azas e coberturas de ouro e lavores por todo o corpo e os vidros de cores, couza nobilissima: de maneira que não sei que Rey da Christandade possa ter mais fermoza e mais rica baixella, a quem convem o que diz Ariosto:

Qual mensa tronfante, e sontuosa
Di qual si voglia successor di Nino,
O qual mui tanto celebre, e famosa
Di Cleopatra al vincitor latino,
Potria a esser questa par, che l’amorosa
Fata avea posta innanzi al Paladino?
Tal non cred’io, che s’apparechi dove
Ministra Ganimede al sommo Giove.

O Banquete se deu em huma galeria grande, armada de brocados, como as mais das cazas, onde puzeram 24 bofetes pelo meyo da caza para 80 peçoas, que comeram à meza com o Almirante, e com elle estando na sala muytos Senhores e titulares e muytas Damas e senhoras rebuçadas, que todos entraram com assás trabalho.
Estavam as mezas com guardanapos de figuras e o pão cortado de invençoens e os saleyros com toalhas de varias maneiras de flores e animaes, e os antes com flores, como selladas com castellos e lavores dourados e prateados.
Serviram á meza 24 pages do Duque, de libré para aquelle dia de negro, couras brancas e cadeas de ouro e Mestre salla, copeiro e mordomo e outros criados da mesma sorte.
Estiveram El-Rey e a Raynha vendo tudo por uma gelozia, que ficava defronte do topo da meza, escondidos e affirmam que serviram á meza 2:200 pratos de cozinha: o que mais foy para ver, os doces secos, os vidros de conservas, e, sobre tudo, a invenção de empadas de mil figuras, de castellos e navios, tudo dourado e prateado. (…)

In, “Fastigimia”, Thomé Pinheiro da Veiga, Imprensa Nacional-Casa da Moeda

Gravura: Abraham Bosse (c. 1602-1604 – Fevereiro 14, 1676)

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