“Alargando os braços na mesura coniforme do orate fratres, contou padre Jesuíno da sua grande decepção. Tinham estoirado muito coelho, muita lebre, alguns raposos, dois ou três lobatos, mas do Bicho-Mau nem pelinho lobrigaram.
– Estou em crer com a minha criada que anda aqui o Mafarrico!
– Rematou num gesto burlesco de credulidade.
–  E melhor seria trazer o hissope da água benta que espingardas! – obtemperou Teodoro, arremedando-lhe o gatimanho.
– O que lá vai, lá vai! Ocupemo-nos da santa trincadeira, que o meu estômago está a gritar contra a cabeça que o governa! – proferiu o abade, ajeitando o corpanzil à margem da mesa opípara.
Bandearam-se em ágape amigos e conhecidos, e abriram-se para o monte merendeiros de folha e alforges bem aparelhados. Nas mãos brancas, nas mãos finas, nas mãos papudas apareceu o pernil de cabrito, a asa de galo, o bolinho de bacalhau; nas mãos negras e calosas – queijo, pêro e pão, comer de vilão. Breve, acima do rumor dos queixais, uma gracinha de menina, uma graçola de abade, passavam mais futigivas e ligeiras que o canto das cigarras quando os segadores vão trolhos fora, de foice em punho, ceifando. E homens e mulheres em cacho, estendidos ao comprido, de cócoras ou joelhos, sobre pedras e morouços de lenha, com cães à volta, os cavalos ao largo a pastar, lembrava aquilo, mais que fecho de grande romagem ou feira de ano, a ala de uma horda em sua aventura nómada.
O Baltasar doidinho andou rodando as comezainas, colhendo aqui uma bocado, disputando além um osso aos rafeiros. A troco de dois tonilhos lá ia abichando ora um trago, ora tanto como quodore, a pontos de fugir-lhe o chão debaixo dos pés quando os fidalgos começaram a alargar a carcela e a arrotar. Disseram-lhe, então, que pregasse um sermão, daqueles, de grande cerimonial, que ora faziam rir, ora chorar as pedras. Não se fazendo rogado, trepou o maluco para um penedo que, pela linha majestosa, podia muito bem ser a rocha em que já ignorados e primitivos Moisés, condutores de tribos, viessem bater com a ludibriante vara de bronze. E, brandindo as mãos em espadela, agitando a cabeçorra guedelhuda, rompeu:
– Ouvi, ouvi, almas de Barzabu, tanto faz correr como saltar, ao Papa-Moças não chegais!…
– Porquê Baltasar? Porquê? – bradaram muitas vozes a um tempo.
– Não lhe chegais… Tem vista de águia e não é águia; a força do leão e não é leão; a malícia da raposa e não é raposa; o discernimento do homem e não é homem…
– Então o que é? – gritou um ferreiro com a voz colérica e o gesto descomposto de bêbado ou desvairado.
– É o que é. Só vos digo que padres, legisladores, santarrões e velhos tartufos andam desde que o mundo é mundo para o empandeirar e nicles.
– Tem sete fôlegos!…”

In “Andam Faunos Pelos Bosques”, Aquilino Ribeiro, Bertrand Editora