Mao Dang Lao, bronze (2002) – Zhang Hongtu


(…)
Salvatella tocou à campainha com a mesma educação com que entregou o seu obséquio a Carvalho, dizendo ser modesto mas interessante, da reprodução fac-símile dos primeiros números da Horitzons, uma revista cultural editada clandestinamente durante o franquismo. Carvalho prometeu a si mesmo que a queimaria antes de 1984, juntamente com a obra de Orwell. Ao aproximarem-se da porta sobre o cascalho do jardim, avisou-o da presença de Fuster.
– Não se preocupe. É meu sócio. Não tenho segredos para ele. Segredos profissionais entenda-se.
Sublinhou a palavra sócio quando fez as apresentações, e as sobrancelhas loiras de Fuster franziram-se mefistofélicamente atrás dos óculos a escorregar do nariz que lhe permitiam manter o ar de estudante da Sorbonne maltratado por uma calvície de frade. Ignorou a conversa entre Fuster e Salvatella enquanto aquecia o arroz refogado na cebola, lhe juntava o caldo deixado pelas amêijoas e caldo de peixe suficiente suficiente para que a massa do arroz ficasse com um dedo de líquido por cima. esperou que levantasse fervura, conservou o lume forte durante dez minutos, depois diminui-o e a seguir espalhou as amêijoas pela superfície do arroz para lhes fazer finalmente a oferenda floral do picado de alho e salsa. Entretanto, Fuster fazia as honras a Salvatella à base de xerez frio e azeitonas recheadas com amêndoas. A conversa entrava nas profundidades da fronteira entre Castellón e Aragão, rincão do mundo privilegiado onde Fuster tinha nascido e de onda saíra para estudar em Barcelona, Paris e Londres, numa viagem que desejava que fosse de ida e volta.  Salvatella fazia perguntas muito interessadas sobre o valencianismo anticatalanista. Dir-se-ia que tomaria notas se não tivesse as mãos ocupadas com o copo que Fuster alimentava com o zelo de um criado presunçoso e a caçar as fugidias azeitonas com dente de amêndoa. depois elogiou a escolha de Viña Esmeralda, revelando erudição ao mencionar o livro sobre vinhos escrito pelo fabricante e ficou extasiado depois de levar à boca o terceiro garfo carregado com o arroz aromatizado pelas amêijoas e o picado de alho e salsa.
É a antítese do arroz á valenciana. A simplicidade perante o barroco – concluiu Salvatella, e o movimento que Fuster fez com a cabeça indicou que elevava aquelas considerações a definitivas.

– Vocês os comunistas, são sempre comunistas? Agora, por exemplo, em plena digestão de um jantar suponho que agradável, o senhor é comunista? (…)

In  “Assassinato no comité central (Série Pepe Carvalho)” Manuel Vazquez Montalbán – 1981 ASA Editores SA/2007