LIVRO I

Aqui Mecenas, dou início ao canto
que nos ensina a ter fartas colheitas,
a como lavrar terra em astro certo,
a como vides ajuntar aos olmos
e que cuidados tem de haver com bois
ou como se tratar gado miúdo,
como levar saber à parca abelha.
E dos céus vos invoco, luminares,
que guias sois do percorrer dos anos.
E te venero, Baco, a Ceres honro,
a Ceres criadora, se é verdade
que foi por vós que nos trocou a terra
as landes da Caónia pelo trigo
e juntou à bebida de Aqueloo
o sumo de uva só por vós trazido.
E a vós também cuja divina ajuda
vale aos homens do campo, eu vos invoco
para que venham, Faunos, vossos passos
como os vossos também, Dríades jovens,
por vossos dons invoco. E tu, Neptuno,
a quem a Terra, por tridente lesa,
deu fremente a cavalo; e tu também
dos bosques habitante, a quem devemos
os três vezes cem touros que da neve
a brancura revestem e que pastam
as abundantes moitas de ilha Ceia;
e tu, deus Pã, o guarda das ovelhas,
deixa o bosque e gargantas do Liceu
que tua pátria são; e vem Tegeeu,
me dá a tua ajuda, se é que ainda
o Ménalo te importa; e tu Minerva,
que oliveira inventaste; e tu menino,
que arado adunco nos mostraste em obra;
e tu, Silvano, que desde a raíz
arrancado cipreste tens contigo;
deuses e deusas todas que cuidais
de defender os campos e que aos frutos
que da terra brotarem sem semente
sustentais quando nascem e do céu
tanta chuva fazeis logo descer;
…”

In, “Geórgicas”, Virgílio, Temas & Debates – Tradução do latim, Agostinho da Silva