Prato de peixe em faiança de Gaia, Sec. XIX

A raia, para ser boa, deve ser comida de caldeirada de pitai (Mira) menos em Maio, porque «raia em Maio, tumba à porta», e à faneca com três fff – fresca, fria e frita. Cada peixe têm a sua época: « a solha,. no tempo do milho, come-a com o teu amigo», a sardinha antes da desova e o próprio caranguejo só lá para Agosto é que, assado na casca, atinge a perfeição. Mas todo o peixe regala quando sai da rede para o lume: tem um sabor único a mar, e até a reluzente savelha e o horrível cação, lavados e amanhados na maré, se tornam toleráveis. Quanto ao linguado, ao goraz, à corvina, à gordíssima sarda, à pescada e à saborosa sardinha, para não falar dos peixes hoje quase desaparecidos, do rodovalho, do peixe-rei, ignora-lhe o sabor e o delicado perfume quem não os trouxe do barco para casa, ainda a escorrer dentro do cabaz, sobre uma cama de algas e de limos. São então esplêndidos assados, fritos, de caldeirada, com um fio de azeite, ou preparados pelo próprio pescador sobre umas brasas.

Quando a maré vaza, os pescadores procuram a serrada para iscar os espinheis, e a praia fica a descoberto: as poças de água são jóias cheias de reflexos entre o lodo, e cada penedo com a sua cabeleira escura de sargaço — verde húmido e translúcido – é um ser vivo. Em todas as poças faíscam as enguias que se metem nos aboques, o caranguejo traiçoeiro voraz, que espera a presa na sua clausura de pedra, as mantas de pequenos peixes por criar, reluzindo quando, num movimento brusco, mostram ao mesmo tempo o ventre esbranquiçado, e um bicho mole como lesma que se arrasta pelo limo. Há fragas enormes, roídas veneráveis, cobertas de lapas aderentes, de mexilhões aos cachos que, sentindo gente, fecham logo a casa, e onde o azul empoça em buracos que reflectem o universo: cabem lá dentro o céu, a luz e as estrelas.

In, “Os Pescadores”, Raul Brandão