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Parnaso (Apolo, Venus, Mercúrio e as Musas), de Andrea Mantegna

Estou a rasgar um trilho pelos domínios sem caminhos do reino pieriano das Musas, onde nenhum pé deixou antes a sua marca. Que alegria é aproximar-nos de fontes virgens e beber as suas águas. Que alegria colher novas flores e juntá-las numa gloriosa grinalda, arrancadas a campos cujas flores ainda nunca foram entrelaçados pelas Musas à volta de qualquer cabeça. Esta é a minha recompensa por ensinar esses temas majestosos, por me esforçar por libertar os espíritos dos homens dos apertados nós da superstição, e por derramar nos escuros cantos os raios brilhantes da minha canção que irradia tudo com o fulgor das Musas.

In, “Sensações e Sexo”, Lucrécio, Tradução de José Pinheiro, Coisas de Ler, Edições, Lda.

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Um projecto documental de autoria da fotógrafa espanhola Greta Alfaro

http://www.gretaalfaro.com/index.html

Prato de peixe em faiança de Gaia, Sec. XIX

A raia, para ser boa, deve ser comida de caldeirada de pitai (Mira) menos em Maio, porque «raia em Maio, tumba à porta», e à faneca com três fff – fresca, fria e frita. Cada peixe têm a sua época: « a solha,. no tempo do milho, come-a com o teu amigo», a sardinha antes da desova e o próprio caranguejo só lá para Agosto é que, assado na casca, atinge a perfeição. Mas todo o peixe regala quando sai da rede para o lume: tem um sabor único a mar, e até a reluzente savelha e o horrível cação, lavados e amanhados na maré, se tornam toleráveis. Quanto ao linguado, ao goraz, à corvina, à gordíssima sarda, à pescada e à saborosa sardinha, para não falar dos peixes hoje quase desaparecidos, do rodovalho, do peixe-rei, ignora-lhe o sabor e o delicado perfume quem não os trouxe do barco para casa, ainda a escorrer dentro do cabaz, sobre uma cama de algas e de limos. São então esplêndidos assados, fritos, de caldeirada, com um fio de azeite, ou preparados pelo próprio pescador sobre umas brasas.

Quando a maré vaza, os pescadores procuram a serrada para iscar os espinheis, e a praia fica a descoberto: as poças de água são jóias cheias de reflexos entre o lodo, e cada penedo com a sua cabeleira escura de sargaço — verde húmido e translúcido – é um ser vivo. Em todas as poças faíscam as enguias que se metem nos aboques, o caranguejo traiçoeiro voraz, que espera a presa na sua clausura de pedra, as mantas de pequenos peixes por criar, reluzindo quando, num movimento brusco, mostram ao mesmo tempo o ventre esbranquiçado, e um bicho mole como lesma que se arrasta pelo limo. Há fragas enormes, roídas veneráveis, cobertas de lapas aderentes, de mexilhões aos cachos que, sentindo gente, fecham logo a casa, e onde o azul empoça em buracos que reflectem o universo: cabem lá dentro o céu, a luz e as estrelas.

In, “Os Pescadores”, Raul Brandão

Capa de Vik Muniz para  para a New York Times Magazine.

http://thislittlepiggiestayedathome.org/

Alice B. Toklas e Gertude Stein são um dos mais famosos casais femininos do panorama literário norte-americano. Stein conheceu Toklas em 1907, na Europa onde ambas residiram durante várias décadas e conviveram com gente como Picasso, Matisse, Braque, Ernst Hemingway ou Paul Bowles.  Na década de 30, Stein publicou as suas memórias sob o curioso título “The Autobiography of Alice B. Toklas” que se tornaria o seu bestseller. Viveram juntas até à morte de Stein em 1946. Em 1954, Alice publicou as suas próprias memórias: “The Alice B. Toklas Cookbook”. No livro, um misto de recordações e receitas de culinária, figura a célebre “Haschich Fudge” que ficaria conhecida  como “Alice B. Tokles Fudgies” e cujo ingrediente diferenciador é cannabis sativa: Os bolinhos cuja inclusão no receituário terá sido sugerida pelo multi-facetado Brion Gysin, tornou-se bastante popular junto dos então emergentes beatnicks, por razões óbvias.

Eis a receita:

“Junte uma colher de chá de pimenta preta, uma noz-moscada, 4 paus de canela, uma colher de chá de sementes de coentro e pulverize num almofariz.

Junte um punhado de tâmaras, igual medida de figos secos e amêndoas sem pele e amendoins, pulverize e misture.

Um molho de canabis deverá também ser pulverizado no almofariz e adicionado aos restantes ingredientes e bem misturado.

Acrescente uma chávena de açúcar misturado com manteiga. Enrole como uma torta e corte aos bocados ou, se preferir, molde a mistura em bolas do tamanho de uma noz.

Deve ser comido com cuidado. Duas unidades serão suficientes. Obter a cannabis poderá ser difícil… esta deverá ser apanhada e secada na altura em que a planta acabou de desenvolver as sementes, enquanto a planta se encontra verde.”

No extracto do filme “I Love You Alice B. Toklas”  de 1968, dirigido por Hy Averback e protagonizado por Peter Sellers, que anexo, os bolos são confeccionados de forma diferente mas julgo que o efeito será o mesmo.

 

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