Gunter Grass é um daqueles escritores que dispensa grandes apresentações. De nacionalidade alemã, foi Prémio Nobel em 1999 e só por isso muita gente ouviu falar dele. Como é habitual, são mais os que o conhecem pela fama do que aqueles que na realidade leram algumas páginas por si escritas. Para os que o desconhecem completamente ou querem saber um pouco mais sobre a sua vida, bastará pesquisar a web, onde a informação a seu respeito não falta.

Para além de escritor e artista plástico, representado em Portugal pelo Centro Cultural de S. Lourenço, em Almancil, no Algarve, região onde tem casa e passa largos períodos, Gunter Grass é também um apaixonado pela cozinha. Há quatro anos, a CCSL publicou um livro intitulado “Na cozinha dos artistas”, no qual o escritor foi convidado a participar. Na curta prosa escrita a propósito, Gunter Grass sublinha o seu apreço pelo peixe e desvenda parte do seu processo criativo no que ao desenho concerne: “Depois da refeição, quando os convidados, já acalmados após uma breve disputa, partirem elogiando o meu peixe, seja um ou outro, desenho aquilo que sobrou: com lápis, sanguínea, carvão ou mesmo com uma pena, desenho a espinha com restos de carne, a cabeça desfeita, de olhos brancos. E enquanto desenho, imagino outros jantares de peixe com convidados que chamo de longe, dos séculos passados. Ou convido para a minha mesa amigos, já há muito tempo desaparecidos, dos quais sinto a falta há muitos anos, para disputar e discutir com eles e, no momento da despedida, ouvi-los elogiar o meu peixe, seja peixe galo ou pregado.”

Ora, é precisamente o Pregado (Der Butt), que dá nome a uma das suas obras mais importantes, agora novamente publicada em Portugal pela Casa das Letras. Ao longo de pouco menos de 650 páginas e nove capítulos, que têm como ponto de partida um conto  dos irmãos Grimm, “O pescador e a sua esposa”, Gunter percorre a história da cultura alemã desde o período neolítico até à década de 70 e ao mesmo tempo traça uma elaborada história da alimentação que torna “O pregado” uma obra incontornável para os apreciadores da literatura gastronómica de que deixo aqui um excerto, uma poema, onde é bem patente  relação entre o texto da CCSL e “O Pregado”.

De que escrevo eu

Da comida, do sabor que fica.
Se seguida, dos convidados, que aparecem ser o ter sido
ou que chegaram com quase um século de atraso.
Do desejo da cavala por limão espremido.
Mais do que qualquer outro peixe escrevo do pregado.
 
Escrevo da abundância.
Do jejum e da razão por que os comilões a inventaram.
Do valor nutritivo das côdeas vindas da mesa dos ricos.
Da gordura e dos excrementos e do sal e da escassez.
de como o espírito se tornou amargo que nem bílis
e a barriga ficou demente,
irei eu — no meio de um monte coberto de milho-miúdo —
descrever de modo instrutivo.
 
Escrevo do seio
É da gravidez de Ilsebill (os desejos de pepinos em conserva)
que vou escrever enquanto esta durar.
Da última dentadinha com ela partilhada,
da hora passada com um amigo
entre fatias de pão, queijo, nozes e vinho.
(Guturalmente, conversámos de deus e do mundo
e sobre o empanturrar-se, que mais não é senão medo.)
 
Escrevo da fome, de como esta foi descrita
e dissiminada por escrito.
É de especiarias (quando Vasco da Gaa e eu
tornámos a pimenta mais barata)
que eu, de viagem rumo a Calcutá, quero escrever.
 
Carne crua e cozinhada, que amolece, se desfia, atrofia e se desfaz.
As papas quotidianas,
seja o que for que já antes foi mastigado: história datada,
as chacinas de Tannenberg Wittstock Kolin,
o que resta, é disso que tomo nota:
ossos, cascas, entranhas e chouriços.
 
Da repugnância diante de um prato cheio,
daquilo que sabe bem,
do leite (como este coalha),
da beterraba, da couve; da vitória da batata
escreverei amanhã,
ou depois dos restos de ontem
se tornarem os de hoje petrificados
 
De que escrevo eu: do ovo.
Dos desgostos e da gordura que por eles se ganha,
do amor que consome, do prego e da corda,
das brigas a propósito do cabelo e da palavra a mais na sopa.
das arcas congeladoras, do que lhes sucedeu
quando a corrente deixou de passar.
De nós todos, sentados á mesa vazia após a refeição,
irei eu escrever;
e também de ti e de mim e da espinha na garganta.
 

in, “O Pregado”, Gunter Grass, Casa das Letras, Tradução Paulo Rêgo.