(…) Quem está acostumado a escaldadelas, não faz caso da mordidela de um piolho. Passa-se uma vida bela na cabeça de um cozinheiro. Deus me livre de um vadio! Quanto mais a cabeça em que a gente anda tem que parafusar e em que se ocupe, tanto mais seguro vive o pobre piolho. Esse, creio que nem sabia que havia piolhos no mundo. Uma só vez o não vi coçar, nem tinha tempo.
Ele era cozinheiro de uma casa abundante e a sua vida era trabalhosa. Era obrigado a ir para a cozinha meia hora antes que os criados se levantassem, para poder aparar os comestíveis sem barulho. Aparava a carne para trazer a fêvera para casa e deixar a gordura e os ossos para o amo, para poder fazer uma boa sopa. A fêvera da vaca é desenxabida, não dá gosto nenhum. Aparava o presunto para o mesmo fim, o toucinho, a couve, o carvão, a manteiga, numa palavra, aparava tudo que havia em casa. A única coisa que o não vi aparar foi umas pancadas que lhe quiseram dar. Fugiu-lhe com o corpo e não as aparou. Ah, sim, também me esquecia: não aparava penas, nem aparava chuva. Enganei-me. Havia muita coisa que ele não aparava. Sustentava com estas aparas a sua casa, e a do sogro, e vendia para uma taberna. A sua ração dava-a por esmola a um brasileiro que lhe dava seis mil e quatrocentos por mês. Tinha o seu par de vinténs juntos e bem adquiridos. O amo estava contentíssimo com ele e dizia que o seu Brás não o deixava por coisa nenhuma. É certo que ele pagava-lhe muito bem, porque não tendo nunca recebido nem real, já se lhe deviam dois anos de ordenado e ele não abria a boca e, muitas vezes, emprestava as suas dez moedas para o vexame da casa. Onde se encontram destes criados presentemente? Está brincando! O que ele andava nas diligências, era de ser também mordomo e se o conseguisse, dizia ele:  — Em quatro anos há-de ser meu amo meu criado, se quiser passar. E havia de ser, porque em ele proferindo uma palavra era um axioma.
Mas que paladar que tinha o bêbado! Não havia ninguém que o não gabasse! Afogava um repolho sem lhe apertar o pescoço, que o podiam comer os Anjinhos! Fazia pudins de caroços de azeitonas que lhe deram muito caroço! Burriés de molho à pantana, só ele os fazia. O que ele não sabia fazer, eram espargos, e mais deixou muitas vezes os criados, ao jantar, como o espargo do monte, sem lhe chegar nada. Pois morcelas azedas! Isso era comer e gritar por mais! E salada! Fazia tudo em salada.
Uma noite me lembra a mim que ele fez uma ceia que todos andavam a gritar pela ceia. E apesar de andar de amores com a tal rapariga não se descuidava de nada, que há pessoas que em andando desencabrestadas, não lhes lembra senão o tal namoro. Cá este, não senhor; todo o tempo que eu morei nele, sempre o vi erguer de madrugada para ir cuidar nas aparas, e nunca o vi uma só manhã beber uma xícara de café ou chá. O seu almoço era umas sopas de panela com o seu bocado de presunto, duas rodas de paio, quatro ovos e três quartilhos de vinho. E andava magro, era doente do peito! O que é a constituição! A tal rapariga, com quem ele estava para casar, também tinha convulsões e febre contínua. Mas diziam os Médicos que não era nada, que em casando talvez que logo morresse. (..)

In “O Piolho Viajante” (1821) – Atribuído a António Manuel Policarpo da Silva

Pintura: O Cozinheiro e o GatoThéodhule-Augustin Ribot (1823–1891)