Arte de Bem Beber

Há quem beba às refeições
e quem beba a toda a hora
os que bebem para esquecer
escolha tipo colheita
ou apenas a marca

Há quem seja connoaisseur
como diz a minha prima
e saiba da boa casta
quem tenha língua apurada
para ácidos málicos láticos
claretes generosos adamados
e requintados bouquets

quem beba sem distinção
beba verde por maduro
e até branco por tinto
há quem viva pra beber
e quem não possa beber
ou beba vinagre azeite

Há velhas que bebem chá
outras só bebem garotos
garotas que bebem leite
bebem sumo de tomate
quem se mate por beber

uns que bebem só do fino
e alguns que bebem tudo
vampiros que bebem sangue
os que bem ódio e fel
ou mel vichy caracola

Há quem beba por remédio
quem não tenha outro remédio
quem sugue o suor dos outros
quem beba muito em segredo
afogue a tristeza em vinho
afogados bebem água

Há quem mame em várias tetas
quem fique a chuchar no dedo
também quem chupe nas ventas

quem beba por taça d’oiro
beba na concha da mão
quem beba tédio melancolia
morfina sicuta cocaína
cannabis sativa lindei

(quem beba o ar que respiras)

quem beba a vida
e morra de sede

in “Poemas de Ponta & Mola”, Mendes de Carvalho, Editorial Futura, 1975

Virgem com Menino, Cleve, Joos van (1485.1540)