You are currently browsing the monthly archive for Junho 2011.

(…) Assistira, um dia, Gertrudes ao meu jantar e viu que eu me confrangia enjoado pelo espectaculo repulsivo de meia franga recozida e um caldo branco em que boiavam uns olhos amarellos da enxundia do oveiro da ave. Ella cheirou de longe o caldo fumegante, e disse com engulho:—Captiva! isto nem com fome de cão se podia tragar!Que o medico me não deixava comer outra coisa,—balbuciei tão extenuado e offegante que me parecia despegar-se o ultimo colchete da existencia n’um esvahir de desmaio.
—Sinto-me morrer…—murmurei flebilmente.
—E morre decerto!—confirmou ella com sinistra solemnidade—morre, se não mudar de comida. Quer que eu o ponha rijo? Diga á dona da hospedaria que a sua enfermeira e cozinheira sou eu.
Não esperou resposta e sahiu. Pouco depois, voltou muito afreimada, tirou a mantilha de sarja, mudou de calçado para não fazer bulha com os tacões das botinhas, cingiu um lenço na fronte recolhendo os bandós, atou um avental de riscadinho na cintura e foi para a cozinha. Quando entrou com uma caçoula coberta, o perfume vaporado do rebordo da tampa abriu subitamente no meu olfacto uma fonte de vida, uma sensação entre espiritual e nazal, um quasi extasis, como a evidencia da immortalidade do eu. Arranjou a meza de leito com o talher, afofou-me as travesseirinhas nas costas angulosas, escadeadas como um [58] pedaço de velho cancêllo desengonçado, a cahir das dobradiças despregadas,—e passou para uma travessa o acepipe fumegante. Eram duas mãos de boi guizadas, loiras, de uma unctuosidade oleosa que punha caricias ferozes nos dentes, e aguçava na abobada palatina as cobiças dantescas do faminto Ugolino e de um professor portuguez de instrucção primaria. Devorei uma das mãos, sopeteando no molho pedaços de pão que engulia inteiros, soffregamente, n’uma intallação.
—Poderei comer a outra mão, snr.ª Gertrudinhas? perguntei esperando em anciosa incerteza a resposta duvidosa.
—Se tem vontade, coma. Que sente lá por dentro?
—Fome, snr.ª Gertrudes, fome!
—Então coma; a natureza que lh’o pede, é por que não lhe faz mal.
E não fez. Fumei um charuto que até [59] áquelle momento me nauzeára. Pedi café e cana de Paraty. Estive quasi a pedir as calças para me levantar.
—Nada de boticadas! intimou ella; e, pegando em dous frascos de pilulas de ferro de Blaud e de Vallet, e de meia garrafa de vinho quinado despejou tudo na primeira vasilha concava que se offereceu á sua indignação.—Fóra com a porcaria!—bradava gesticulando, com a cólera scientifica e a justiça indefectivel de um medico homeopata. (…)

 
in “O vinho do Porto: processo de uma bestialidade inglesa, exposição a Thomaz Ribeiro”, Camilo Castelo Branco

Pintura: “La Madeleine chez le pharisien”, Jean Beraud, (1849-1935).

(…) Quem está acostumado a escaldadelas, não faz caso da mordidela de um piolho. Passa-se uma vida bela na cabeça de um cozinheiro. Deus me livre de um vadio! Quanto mais a cabeça em que a gente anda tem que parafusar e em que se ocupe, tanto mais seguro vive o pobre piolho. Esse, creio que nem sabia que havia piolhos no mundo. Uma só vez o não vi coçar, nem tinha tempo.
Ele era cozinheiro de uma casa abundante e a sua vida era trabalhosa. Era obrigado a ir para a cozinha meia hora antes que os criados se levantassem, para poder aparar os comestíveis sem barulho. Aparava a carne para trazer a fêvera para casa e deixar a gordura e os ossos para o amo, para poder fazer uma boa sopa. A fêvera da vaca é desenxabida, não dá gosto nenhum. Aparava o presunto para o mesmo fim, o toucinho, a couve, o carvão, a manteiga, numa palavra, aparava tudo que havia em casa. A única coisa que o não vi aparar foi umas pancadas que lhe quiseram dar. Fugiu-lhe com o corpo e não as aparou. Ah, sim, também me esquecia: não aparava penas, nem aparava chuva. Enganei-me. Havia muita coisa que ele não aparava. Sustentava com estas aparas a sua casa, e a do sogro, e vendia para uma taberna. A sua ração dava-a por esmola a um brasileiro que lhe dava seis mil e quatrocentos por mês. Tinha o seu par de vinténs juntos e bem adquiridos. O amo estava contentíssimo com ele e dizia que o seu Brás não o deixava por coisa nenhuma. É certo que ele pagava-lhe muito bem, porque não tendo nunca recebido nem real, já se lhe deviam dois anos de ordenado e ele não abria a boca e, muitas vezes, emprestava as suas dez moedas para o vexame da casa. Onde se encontram destes criados presentemente? Está brincando! O que ele andava nas diligências, era de ser também mordomo e se o conseguisse, dizia ele:  — Em quatro anos há-de ser meu amo meu criado, se quiser passar. E havia de ser, porque em ele proferindo uma palavra era um axioma.
Mas que paladar que tinha o bêbado! Não havia ninguém que o não gabasse! Afogava um repolho sem lhe apertar o pescoço, que o podiam comer os Anjinhos! Fazia pudins de caroços de azeitonas que lhe deram muito caroço! Burriés de molho à pantana, só ele os fazia. O que ele não sabia fazer, eram espargos, e mais deixou muitas vezes os criados, ao jantar, como o espargo do monte, sem lhe chegar nada. Pois morcelas azedas! Isso era comer e gritar por mais! E salada! Fazia tudo em salada.
Uma noite me lembra a mim que ele fez uma ceia que todos andavam a gritar pela ceia. E apesar de andar de amores com a tal rapariga não se descuidava de nada, que há pessoas que em andando desencabrestadas, não lhes lembra senão o tal namoro. Cá este, não senhor; todo o tempo que eu morei nele, sempre o vi erguer de madrugada para ir cuidar nas aparas, e nunca o vi uma só manhã beber uma xícara de café ou chá. O seu almoço era umas sopas de panela com o seu bocado de presunto, duas rodas de paio, quatro ovos e três quartilhos de vinho. E andava magro, era doente do peito! O que é a constituição! A tal rapariga, com quem ele estava para casar, também tinha convulsões e febre contínua. Mas diziam os Médicos que não era nada, que em casando talvez que logo morresse. (..)

In “O Piolho Viajante” (1821) – Atribuído a António Manuel Policarpo da Silva

Pintura: O Cozinheiro e o GatoThéodhule-Augustin Ribot (1823–1891)

Merece uma visita. Apenas imagens, nem uma palavra. Eu gosto assim, mais seria excessivo.

http://table-for-1.tumblr.com/

Arte de Bem Beber

Há quem beba às refeições
e quem beba a toda a hora
os que bebem para esquecer
escolha tipo colheita
ou apenas a marca

Há quem seja connoaisseur
como diz a minha prima
e saiba da boa casta
quem tenha língua apurada
para ácidos málicos láticos
claretes generosos adamados
e requintados bouquets

quem beba sem distinção
beba verde por maduro
e até branco por tinto
há quem viva pra beber
e quem não possa beber
ou beba vinagre azeite

Há velhas que bebem chá
outras só bebem garotos
garotas que bebem leite
bebem sumo de tomate
quem se mate por beber

uns que bebem só do fino
e alguns que bebem tudo
vampiros que bebem sangue
os que bem ódio e fel
ou mel vichy caracola

Há quem beba por remédio
quem não tenha outro remédio
quem sugue o suor dos outros
quem beba muito em segredo
afogue a tristeza em vinho
afogados bebem água

Há quem mame em várias tetas
quem fique a chuchar no dedo
também quem chupe nas ventas

quem beba por taça d’oiro
beba na concha da mão
quem beba tédio melancolia
morfina sicuta cocaína
cannabis sativa lindei

(quem beba o ar que respiras)

quem beba a vida
e morra de sede

in “Poemas de Ponta & Mola”, Mendes de Carvalho, Editorial Futura, 1975

Virgem com Menino, Cleve, Joos van (1485.1540)