Jantáramos entre amigos para festejar o regresso do «homem que viajou». À sobremesa, todos dissertaram sobre arte e amor. Então o «homem que viajou» disse: Não são talvez nem as impressões estéticas, nem as eróticas, aquelas que a memória retém com mais cuidado. A todas sobrepuja a lembrança das necessidades meramente físicas, satisfeitas após a crise do perigo que nos pôs a vida em risco, ou na plenitude do gozo material: um sono bem dormido quando fechamos um período de vigílias obrigadas e sinistras; a sede que se mata em dias de caçada, se a poeira nos obstrui os gorgomilos, e o líquido ingerido aos borbotões parece correr-nos o corpo todo e nos empapa o organismo, acudindo com igual solicitude a refrescar o cérebro e as plantas dos pés, como a água solta do tanque, em tarde de Estio, se espalha pela terra abrasada e fofa do hortejo.
Matar a sede!, e matá-la com vinho, que eu aprecio, sendo puro, em todas as regiões e com todos os flavores, sem mitologia – o néctar! – como aprecio o amor despido de sintaxe. Ah! agora recordo uns cangirões de vinho verde, bebidos na volta de uma excursão pelos areais fatigantes do Mindelo – excursão turista bem entendido, porque eu não fui dos mil e quinhentos – nos ardores de Agosto, o corpo requeimado pela travessia de um pinhal que o sol incendiava, e o cérebro encandeado, pela reverbação da luz crua, os grandes cangirões do leve líquido esgotados lentamente à sombra das altas paredes de uma igreja, com o espelho do mar em frente a referver de reflexos quebrados…
E o bom vinho negro e espesso, tocado longinquamente de maduro, bebido a caminho do mosteiro de Poblet, em La Espluga de Francoli – nome baquicamente sagrado –, vinho que as mães ministram por copos de água a seus tenros filhos – sem por isso a forte raça catalã desperecer; – o vinho bebido a escape, numa taberna lôbrega do Transtevere, após brava luta com rufias; e a sede que me matou um vinho espumante de Vicenza, servido pela manhã em cristais esplêndidos, no profundo e amplo tálamo de uma esposa de acaso, hetaira exaustiva…Ah! não, não… Nada que se compare à cena que eu agora reconstituo na mente e teve realidade junto ao cabo Miseno. Eu andava com outra criatura também casual, que tinha a pele, macia como o arminho, toda semeada de pequeninos lunares ruivos, a designarem precisamente os sítios onde os beijos são mais gostosos; criatura doce, indolente e decorativa, que trazia fios de pérolas grossas e falsíssimas metidas nos cabelos, a cujos reflexos adamascados elas misturavam o seu brilho húmido.
Fôramos passar o dia a Puzzuoli e antes do almoço, demos uma volta em carruagem pelos campos Flegrei.
O calor era horrível, e tanto apertava que o nosso cicerone – um rapazito tostado, que em Puzzuoli se encarrapitara ao lado do cocheiro e nunca mais nos abandonara, esquecido já do sonho eterno de todo o napolitano autêntico: a prometida pançada de macarroni al burro – a cada momento volvia o olhar suplicante para a minha companheira e clamava: «A senhora quer água; a senhora quer água…»
– Água não, mas vinho – disse ela por fim, negligentemente.
E fomos abancar debaixo de uma parreira que enfeitava a entrada da próxima taberna. Trouxeram-nos um alguidar transbordando vinho tinto, e quatro tigelas de barro com que nós o tirávamos e bebíamos. Que delicioso banho interior de fresquidão e alegria!
Daí a nada já todos tínhamos os beiços e a cara lambuzados de púrpura; luziam-nos os olhos, e ríamos sem saber do quê, espalhando suavemente a vista pelas harmoniosas da «Baía das Baías»…
– Basta atalhou um dos convivas, ironista encartado. – Você não é o «homem que viajou», é o «homem que bebeu»…
– Mas certamente… – obtemperou ele com uma expressão de singular dignidade…

In, «Obras Completas, Vol. I», Manuel Teixeira–Gomes, Imprensa Nacional Casa da Moeda.

Piazza d’Italia, Giorgio de Chirico