(…) Assim aconteceu, e, como os outros lhe pedissem que o fizesse já, falou assim. Um banquete, em si e por si, é uma coisa difícil, porque ainda que seja preparado com o máximo gosto e com talento há ainda algo mais que faz falta – a saber, sorte. Não me refiro àquilo em que uma cuidadosa dona de casa decerto pensará, mas a algo diferente de que ninguém pode assegurar-se em absoluto.: uma feliz convergência da disposição dos presentes e das circunstâncias envolventes do banquete, aquela consonância delicada, etérea, aquela música interior que não pode antecipadamente pedir-se a um músico profissional.
Eis porque motivo é arriscado começar, pois que, se algo correr mal, porventura logo no início, então, no que toca à disposição, um banquete pode orientar-se num direcção de tal modo desadequada que seja preciso muito tempo para resolver a situação. Somente o hábito e a falta de cuidados são, na maior parte dos banquetes, o pai e os padrinhos, e a culpa de não se descobrir a ausência de ideias é da ausência de sentido crítico. Em primeiro lugar, num banquete nunca devia haver mulheres. Seja dito in parenthesi que uso a palavra «mulheres» porque nunca gostei da palavra «senhoras», e agora que Grundtvig no seu grundtviguiano Brage-Snak usa grundtviguianamente esta palavra, então – mas isto de facto nada tem a ver com o assunto. Só ao estilo grego poderão admitir-se mulheres, como coro de dançarinas. Uma vez que num banquete se trata essencialmente de comer e beber, a mulher não deve tomar parte; porque nesse aspecto a sua presença não consegue ser satisfatória ou, se chega a sê-lo, é de maneira sumamente indecorosa. Logo que uma mulher está presente, comer e beber passam a ser, quando muito, algo como uma pequena ocupação feminina, algo para manter as mãos ocupadas. Sobretudo no campo, , uma refeição ligeira deste género, que aliás será melhor deslocar para momento diferente das horas próprias das refeições, pode ser extremamente encantadora, e quando assim é, tal fica a dever-se sempre ao outro sexo. Fazer como os ingleses, que mandam embora o sexo oposto quando se começa propriamente a beber, não é uma coisa nem a outra, pois que qualquer projecto  tem que ser uma totalidade, e a simples maneira como me sento à mesa e pego na faca e no garfo está em relação com o todo. Um banquete político é também uma ambiguidade indecorosa. Aí pretende-se que os elementos próprios do banquete sejam reduzidos à insignificância e que os discursos, por seu turno, não obtenham a sua importância do facto de serem proferidos inter pocula. Quanto a tudo isto estamos de acordo, e o nosso número, se o nosso banquete chegasse a ser alguma coisa, havia de ser também escolhido adequadamente segundo aquela bela regra: não mais que as musas, não menos que as Graças. pois bem, exijo o mais abundante excesso de tudo aquilo em que possa pensar-se. Mesmo que não esteja tudo em presença, a respectiva possibilidade tem que estar prontamente à mão, tem que pairar tentadora por sobre a mesa, mais sedutora do que uma visão.(…)

In, In Vino Veritas, Kierkegaard – Antígona, Tradução: José Miranda Justo

Pintura: “O Almoço de Ostras”, Jean Françoise de Troy (1734)