5 de Junho
Dia em que a Raynha comeu em publico

Ao domingo comeo a Raynha em publico desta maneira: pôs-se a meza em estrado alto debaixo de bum docel de brocado: sentou-se na cabecera e tres Damas em pé nas tres partes da meza; as das ilhargas poem e descobrem os pratos, a outra trincha na mesma meza; trazem os meninos da raynha os platos desde a porta athe los darem a ellas.
As mais Damas estão encostadas á parede em pé entre outros Senhores, que têm lugar com ells, os quais lugares pedem antes, ou ellas, ou elles, havendo licença para estar com a Snra. etc.; e ordinario he dous para cada huma.
Quando pede agua, a trás huma Dama, que se põem de joelhos e beija a salva e dá o pucaro e logo se torna a seu logar; de trás da Raynha está hum mordomo.
estiveram prezentes muitos inglezes, a quem sempre poem diante; e com isso, eles são, benza-os Deus, tão crescidinhos, não vi mais que trazer muitos pratos.
A Raynha devia vir farta, porque comeo pouco; e assim ella como El-Rey, dizem que são de boa boca, porque almoça El-Rey hum Capão de leite, como quem tem boa vontade, janta como qualquer filho de vizinho, merenda como Rey e cea como hum Papa; de maneyra que pudera dizer Platão sem se espantar de Dionizio: Vide hominen bis saturum in di.
Agua era de canella, alguns diziam que o era na côr somente, e assim parecia vinho; mas, como he alemãa, não se póde crer senão que seria agua.
Lembra-me que li em Frey Hieronimo Romão, na vida do Infante D. Fernando, que os Reys Portugueses nunca beberam vinho; mas El-Rey D. João; deve ser que se entenderá quando comem em publico ou athe áquelle tempo; ainda que o frade mente a mais dezabalada mentira que nunca ouvi e preverteo a relação verdadeira, que andava impressa, com acrescentar mil louvores falsos que desacreditem a verdade da historia. (…)

In, “Fastigimia”, Thomé Pinheiro da Veiga, Imprensa Nacional-Casa da Moeda

Pintura: “O Banquete de Cleopatra”, Giovanni Battista Tiepolo, 1743-1744