(…) A graça desse recipiente chato e redondo chamado “marmita” consiste acima de tudo em ser enroscado. Já o movimento de desenroscar a tampa faz crescer água na boca, especialmente se ainda não se sabe o que está lá dentro, por exemplo, por ser a mulher de um indivíduo a arranjar-lhe a marmita todas as manhãs. Ao destapar a marmita, vê-se a comida que já lá está: lentilhas com chouriço, ou ovos cozidos e beterraba, ou ainda bacalhau com papas de milho, tudo bem arrumado naquela área circular como os continentes e os mares nos planisférios, e mesmo que a comida seja escassa faz sempre o efeito de uma coisa substancial e compacta. A tampa depois de tirada faz de prato, e assim se obtêm dois recipientes, podendo-se separar o conteúdo.
O servente Marcovaldo, após ter desenroscado a marmita e aspirado velozmente o aroma, saca dos talheres que traz sempre consigo, no bolso, embrulhados num papel, todos os dias desde que em vez de ir comer a casa ao meio-dia, passou a levar a marmita. As primeiras garfadas servem para despertar um pouco aquelas comidas meio entorpecidas, e para dar o relevo e o atractivo de um prato acabado de servir à mesa àquela comida ali apertada há já tantas horas. Então começa-se a ver que não é muita coisa e pensa-se: «Convém começar, lentamente, mas entretanto já se levaram à boca, esfomeadas e rapidíssimas, as primeiras garfadas.
O primeiro sabor que se têm é a tristeza do comer frio, mas logo a seguir retorna o gosto por se reencontrar os paladares das refeições familiares transferidos para um cenário diferente. (…)

In, “Marcovaldo”, Italo Calvino, Teorema, Tradução: José Colaço Barreiros