(…) Kazu falava muitas vezes da «forma de proceder da jovem geração». «As roupas mudaram, mas o gosto continua a ser o mesmo desde os tempos de outrora. Os jovens enganam-se crendo que a experiência que fazem pela primeira vez é uma experiência nova para o mundo. Os desregramentos são semelhantes aos do passado, mas como hoje são olhados com olhos menos severos do que antigamente, os jovens precisam de se entregar as excentricidades cada vez maiores para chamarem a  atenção.» Tratava-se de banais lugares-comuns, mas que ganhavam toda a sua força quando saíam da boca de Kazu.
Quando se sentava no banco, gostava de tirar um cigarro da manga e fumar. O fumo flutuava na luz da manhã e, como não havia vento, ficava suspenso no ar, pesado como um véu de tafetá. Este era um prazer que uma mulher com família seguramente não conheceria, mas que Kazu, vivendo só, na sua existência tranquila, se podia permitir. Mesmo que tivesse bebido muito na véspera, Kazu, se uma saúde robusta, não se lembrava de alguma vez ter achado mau gosto no tabaco.
Sem que, do seu banco, o apercebesse, todo o panorama do parque estava profundamente gravado no seu espírito; conhecia-lhe de cor os mínimos recantos, as grandes árvores viscosas no centro do parque, de um verde-escuro como tinta, com as suas pequenas folhas espessas e brilhantes, a vinha selvagem que se entrelaçava com as árvores atrás da casa, a vista ampla que se tinha do relvado defronte do salão, as humildes lanternas de pedra frente à casa, os bambús-anões apertados em torno da ilha onde se erguia o pagode de cinco andares… No parque, nada fora deixado ao acaso; nem os mais delicados arbustos, nem as mais pequenas flores. Enquanto fumava, os pormenores requintados do parque envolviam no espírito de Kazu todas as espécies de recordações. Olhava este parque como olhava o mundo; além disso era dona dele. (…)

In, “Depois do Banquete” Yukio Mishima, Relógio D’Agua, Tradução: Inês Pedrosa

Pintura: “Dama con Abanico”, Francisco Masriera y Manovens (1842-1902)