(…) O Katczinsky é um homem precioso por ser dotado de um sexto sentido. Há destas pessoas por toda a parte aqui, mas à primeira vista ninguém as nota. Há uma ou duas em cada companhia. O Katczinsky é o mais afortunado que conheço. A sua profissão creio eu, é sapateiro, mas isso pouco importa, pois que conhece todos os ofícios. É bom ser seu amigo. O Kropp e eu somo-lo, e o Haie Westhus também, numa certa medida. A dizer a verdade, este é mais um orgão executivo, pois trabalha à ordem de Kat quando é preciso músculo para realizar uma empresa. Em recompensa disto são-lhe concedidos favores.
Por exemplo chegamos de noite a um sítio completamente desconhecido, um miserável buraco ,onde nos apercebemos de que foi tudo levado, restando apenas as paredes. A pousada que acaba de nos ser distribuída é uma pequena fábrica escura. Há camas, ou melhor, simples ripas de madeira onde estenderam arame.
O arame é duro. Não tínhamos coisa alguma para pôr em cima, pois do cobertor precisamos para nos cobrirmos. O pano de tenda é delgado de mais.
O Kat contempla a situação e diz ao Haie Westhus:
– Segue-me.
Vão dar uma vota pela localidade, completamente desconhecida deles. Voltam meia hora depois com os braços cheios de palha. O Kat encontrou uma cavalariça e, também palha. Podíamos agora dormir no quente senão tivéssemos uma fome dos diabos..
O Kropp inquire a um artilheiro que está há muito neste sítio:
– Há por aqui alguma cantina?
O outro ri.
Falas bem,. Aqui não há coisa alguma. Nem mesmo uma côdea de pão.
– Já não há habitantes?
O outro cospe.
– Sim, sim, há alguns, mas esses mesmos andam à roda dos caldeiros como mendigos.
Era uma situação sem graça alguma. Íamos ser obrigados a  apertar mais um pouco o cinto e esperar que a pitança chegasse no dia seguinte.
Vejo entretanto, o Kat pôr o barrete e pergunto-lhe:
– Onde vais Kat?
– Examinar um pouco a situação.
E foi-se com uns ares indolentes. O artilheiro chacoteia:
– Podes examinar. Mas não venhas muito carregado.
Desiludidos  estendemo-nos e perguntámos se não iríamos encetar os víveres de reserva, mas isto era muito arriscado.
Por isso procurámos dormir um bocado.
O Kropp parte um cigarro e dá-me metade. O Tjaden fala do seu prato nacional, feijões grandes, com toucinho.
É preciso deitar-lhe verdura, mas, principalmente, é necessário que tudo coza  juntamente e não (Deus nos livre!) as batatas, os feijões e o toucinho separadamente. . Alguém grunhe que se o Tjaden não se cala imediatamente vai ele reduzi-lo a verdura para adubar os seus feijões.. Com isto faz-se silêncio no vasto dormitório improvisado. Só algumas velas vacilam nos gargalos das garrafas, e de vez em quando o artilheiro cospe.
Estamos já meio a dormir quando a porta se abre e o Kat aparece. Julgo sonhar; traz dois pães debaixo do braço e na mão um saco de terra, manchado de sangue, contendo carne de cavalo.
de puro espanto, o cachimbo cai da boca do artilheiro.
Apalpa o pão.
–É verdade é pão e ainda está quente!
O Kat não perde tempo com palavras. Há pão o resto pouco importa. Estou convencido de que se o pusessem no meio do deserto ele encontraria, ao fim de uma hora, com que arranjar um jantar composto de carne assada, tâmaras e vinho.
Num tom breve diz para o Haie:
– Parte lenha.
Depois tira do interior do fato uma assadeira e da algibeira um punhado de sal e uma rodela de gordura. Pensou em tudo. O Haie acende o lume mesmo no chão, o qual crepita através da nudez da fábrica. À força do pulso descemos das camas.
O artilheiro hesita; pergunta lá para consigo se deve apresentar felicitações. Talvez haja qualquer coisa para ele,, mas o Katczinsky não lhes presta atenção alguma, considerando-o como inexistente. Então o artilheiro sai a rosnar injúrias.
O Kat conhece a maneira de assar a carne de cavalo de modo a ficar tenra. Não se deve meter imediatamente na assadeira, pois assim endureceria.
É preciso, primeiro que tudo, aquecê-la num pouco de água. Acocoramo-nos todos em redor, com as nossas facas, e atulhamos o estômago.
Eis como é o Kat. Se num lugar qualquer não houvesse de comer, senão a uma determinada hora durante um ano, o Kat, precisamente a essa hora, como tomado de uma inspiração, poria o seu barrete, sairia e iria direito ao sítio.
Descobre tudo. Quando faz frio são os pequenos fogões a lenha, feno e palha, mesas e cadeiras, mas principalmente com que soprar. Isto é um enigma. Dir-se-ia que as coisas lhe caiem, magicamente, do céu. O seu feito principal foram quatro latas de lagosta. para dizer a verdade, teríamos preferido banha. (…)
In, “A Oeste Nada de Novo”, Erich Maria Remarque