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5 de Junho
Dia em que a Raynha comeu em publico

Ao domingo comeo a Raynha em publico desta maneira: pôs-se a meza em estrado alto debaixo de bum docel de brocado: sentou-se na cabecera e tres Damas em pé nas tres partes da meza; as das ilhargas poem e descobrem os pratos, a outra trincha na mesma meza; trazem os meninos da raynha os platos desde a porta athe los darem a ellas.
As mais Damas estão encostadas á parede em pé entre outros Senhores, que têm lugar com ells, os quais lugares pedem antes, ou ellas, ou elles, havendo licença para estar com a Snra. etc.; e ordinario he dous para cada huma.
Quando pede agua, a trás huma Dama, que se põem de joelhos e beija a salva e dá o pucaro e logo se torna a seu logar; de trás da Raynha está hum mordomo.
estiveram prezentes muitos inglezes, a quem sempre poem diante; e com isso, eles são, benza-os Deus, tão crescidinhos, não vi mais que trazer muitos pratos.
A Raynha devia vir farta, porque comeo pouco; e assim ella como El-Rey, dizem que são de boa boca, porque almoça El-Rey hum Capão de leite, como quem tem boa vontade, janta como qualquer filho de vizinho, merenda como Rey e cea como hum Papa; de maneyra que pudera dizer Platão sem se espantar de Dionizio: Vide hominen bis saturum in di.
Agua era de canella, alguns diziam que o era na côr somente, e assim parecia vinho; mas, como he alemãa, não se póde crer senão que seria agua.
Lembra-me que li em Frey Hieronimo Romão, na vida do Infante D. Fernando, que os Reys Portugueses nunca beberam vinho; mas El-Rey D. João; deve ser que se entenderá quando comem em publico ou athe áquelle tempo; ainda que o frade mente a mais dezabalada mentira que nunca ouvi e preverteo a relação verdadeira, que andava impressa, com acrescentar mil louvores falsos que desacreditem a verdade da historia. (…)

In, “Fastigimia”, Thomé Pinheiro da Veiga, Imprensa Nacional-Casa da Moeda

Pintura: “O Banquete de Cleopatra”, Giovanni Battista Tiepolo, 1743-1744

7 de Junho
Banquete que deo o Duque

Este dia, deu o Duque hum banquete esplendedissimo aos Inglezes, que se affirma foy dos mais notaveis e mais ostentação que ha muitos tempos se deu: e para mais aparato mandou de fazer de comer em humas cosinhas fóra do seu páteo grande e se fês hum passadiço com quatro colunas de madeira de cada parte, cubertas de brocados com toldo por sima, para que passaram as iguarias por baixo, e a praça e terreiro se armou todo de muy ricas colgaduras para esta procição.
Fizeram-se três copas em treze cazas, huma que tomava toda a parede de alto a baixo, de degráos e da mesma maneira a parede fronteira para a prata, em que havia como 400 vazos, todos de invenção fermozissima, alem da plata ordinaria.
Na outra caza estava a baixella de ouro e esmaltes, tudo pessas notaveis, que ocupava meza e degráos de huma parede athe sima, cousa admiravel de ver: e na outra havia somente vidros e cristaes engastados em ouros, com pés, azas e coberturas de ouro e lavores por todo o corpo e os vidros de cores, couza nobilissima: de maneira que não sei que Rey da Christandade possa ter mais fermoza e mais rica baixella, a quem convem o que diz Ariosto:

Qual mensa tronfante, e sontuosa
Di qual si voglia successor di Nino,
O qual mui tanto celebre, e famosa
Di Cleopatra al vincitor latino,
Potria a esser questa par, che l’amorosa
Fata avea posta innanzi al Paladino?
Tal non cred’io, che s’apparechi dove
Ministra Ganimede al sommo Giove.

O Banquete se deu em huma galeria grande, armada de brocados, como as mais das cazas, onde puzeram 24 bofetes pelo meyo da caza para 80 peçoas, que comeram à meza com o Almirante, e com elle estando na sala muytos Senhores e titulares e muytas Damas e senhoras rebuçadas, que todos entraram com assás trabalho.
Estavam as mezas com guardanapos de figuras e o pão cortado de invençoens e os saleyros com toalhas de varias maneiras de flores e animaes, e os antes com flores, como selladas com castellos e lavores dourados e prateados.
Serviram á meza 24 pages do Duque, de libré para aquelle dia de negro, couras brancas e cadeas de ouro e Mestre salla, copeiro e mordomo e outros criados da mesma sorte.
Estiveram El-Rey e a Raynha vendo tudo por uma gelozia, que ficava defronte do topo da meza, escondidos e affirmam que serviram á meza 2:200 pratos de cozinha: o que mais foy para ver, os doces secos, os vidros de conservas, e, sobre tudo, a invenção de empadas de mil figuras, de castellos e navios, tudo dourado e prateado. (…)

In, “Fastigimia”, Thomé Pinheiro da Veiga, Imprensa Nacional-Casa da Moeda

Gravura: Abraham Bosse (c. 1602-1604 – Fevereiro 14, 1676)

Já quase tudo foi escrito sobre  “O Couraçado de Pontemkine” de Sergei Eisenstein, essa obra-prima do cinema e da propaganda soviética, rodada em 1925.
É um filme incontornável na história da sétima arte, quer  do ponto de vista formal, quer pela ajuda que deu na propagação dos ideais soviéticos.
Aqui interessam-nos os 13 primeiros minutos rodados em torno da alimentação.
É, efectivamente, a má qualidade da comida a bordo, particularmente a peça de carne infestada de vermes que irá parar à sopa servida aos marinheiros, que será o  catalisador da insurreição que culmina no minuto treze da película, quando o marinheiro quebra com raiva o prato onde se lê gravado no bordo: “dai-nos hoje o pão nosso de cada dia”.  O eloquente gesto de revolta a que nenhuma cozinha da Rússia imperial tinha assistido até então, é mais um daqueles momentos de génio de Eisenstein, que vai muito para além da ideologia a quem serviu.

CAIO CALÍGULA

(…) Num sumptuoso banquete, pôs-se, de súbito, às gargalhadas; os cônsules sentados ao lado dele perguntaram-lhe, mansamente, porque ria: «Porquê? disse ele, porque estou a pensar que basta um aceno de cabeça para mandá-los degolar a todos neste mesmo instante». (…)

In, “Os Doze Césares”, Suetónio, Biblioteca Editores Independentes, Tradução João Gaspar Simões

(…) A graça desse recipiente chato e redondo chamado “marmita” consiste acima de tudo em ser enroscado. Já o movimento de desenroscar a tampa faz crescer água na boca, especialmente se ainda não se sabe o que está lá dentro, por exemplo, por ser a mulher de um indivíduo a arranjar-lhe a marmita todas as manhãs. Ao destapar a marmita, vê-se a comida que já lá está: lentilhas com chouriço, ou ovos cozidos e beterraba, ou ainda bacalhau com papas de milho, tudo bem arrumado naquela área circular como os continentes e os mares nos planisférios, e mesmo que a comida seja escassa faz sempre o efeito de uma coisa substancial e compacta. A tampa depois de tirada faz de prato, e assim se obtêm dois recipientes, podendo-se separar o conteúdo.
O servente Marcovaldo, após ter desenroscado a marmita e aspirado velozmente o aroma, saca dos talheres que traz sempre consigo, no bolso, embrulhados num papel, todos os dias desde que em vez de ir comer a casa ao meio-dia, passou a levar a marmita. As primeiras garfadas servem para despertar um pouco aquelas comidas meio entorpecidas, e para dar o relevo e o atractivo de um prato acabado de servir à mesa àquela comida ali apertada há já tantas horas. Então começa-se a ver que não é muita coisa e pensa-se: «Convém começar, lentamente, mas entretanto já se levaram à boca, esfomeadas e rapidíssimas, as primeiras garfadas.
O primeiro sabor que se têm é a tristeza do comer frio, mas logo a seguir retorna o gosto por se reencontrar os paladares das refeições familiares transferidos para um cenário diferente. (…)

In, “Marcovaldo”, Italo Calvino, Teorema, Tradução: José Colaço Barreiros

Still Life with Mouse for House & Garden, 1947

Frozen Foods with String Beans for Vogue, 1977

Tofu, Fig, osteoporosis prevention foods for Vogue, 1998

Bouillabaisse for Vogue, 1948


Cholesterol’s Revenge for Vogue, 1994

Guinea Fowl for Vogue, 1993

Poulet de Bresse for Vogue, 1993


Pizza, for Vogue, 2000

New York Still Life (Elements of a Party) for Vogue, 1947

FOTOS DE IRVING PENN (1917–2009)

Mark Twain foi um fumador inveterado de charutos. Só os fumava de má qualidade sem que isso afectasse o prazer que tirava do seu consumo. Os amigos, na tentativa de conseguir mudar-lhe o hábito ofereciam-lhe regularmente havanos que ele educadamente recusava. Nunca o conseguiram convencer. Começava a fumar quando saía da cama e só tirava o charuto da boca para dormir. Faz hoje um século que morreu com a provecta idade de setenta e quatro anos.

“Eating and sleeping are the only activities that should be allowed to interrupt a man’s enjoyment of his cigar.”— Mark Twain

O Vinho do Padeiro Cisti

(…) O papa Bonifácio, junto de quem Geri Spina tinha grande crédito, enviara embaixadores a Florença, a fim de debaterem certos assuntos de capital importância. Tinham-se hospedado todos eles em casa de Spina, que tratava com eles dos assuntos do papa. Quase todas as manhãs, por um motivo que não tem interesse para nós, Geri e os embaixadores passavam a pé pela Praça de Santa Maria Ughi, onde o padeiro Cisti tinha o seu forno e exercia a sua profissão. Se a Fortuna lhe dera uma condição na verdade humilde, favorecera-o ao mesmo tempo, visto que o tornara bastante rico. Sem nunca ter querido mudar de profissão, vivia rodeado de conforto e, entre outras coisas boas, tinha sempre os melhores vinhos brancos e tintos da Florença e arredores.
todas as manhãs Geri e os embaixadores passavam pois pela padaria. estava muito calor. Cristi pensou que seria gentil da sua parte oferecer a essas personalidades um copinho do seu vinho branco. Devido, porém à sua condição e à de geri, achou que não devia atrever-se a formular um convite. Reflectiu pois na melhor maneira de levar Geri a convidar-se a ele próprio. Cisti usava sempre uma veste muito branca e um avental lavado, que lhe davam mais o ar de um moleiro do que um padeiro. Pela manhã, à hora que Geri e os embaixadores passavam por ali, mandava colocar à porta água bem fresca num jarro de cobre luzídio, uma pequena bilha bolhonesa, nova, cheia de bom vinho, e dois copos, que de tão brilhantes, pareciam de prata. Depois sentava-se esperando que os embaixadores passassem; tossicava quando eles se aproximavam e punha-se a beber o vinho com tamanho fervor que fazia vir água à boca de um morto.
Geri notou aquele manejo uma ou duas manhãs.
– Então? – perguntou da terceira vez. – É bom Cisti?
– Oh, senhor, sim – disse Cisti, pondo-se imediatamente de pé. – Mas só podeis dar-vos conta se vos dignardes prová-lo.
Ou por causa do grande calor que fazia, por ter andado mais do que era seu costume, ou enfim porque se sentisse estimulado pelo prazer com que via o seu padeiro beber aquele vinho, Geri voltou-se para os embaixadores e disse, sorrindo:
– Senhores parece-me indicado experimentarmos o vinho deste homem. Talvez seja tão bom que não nos arrependamos.
Dito isto aproximaram-se de Cisti, que logo mandou vir da padaria um bonito banco, onde pediu aos seus convidados que se sentassem. Depois como os criados se precipitassem a passar os copos por água disse-lhes:
– Podem ir-se embora, meus amigos. Eu próprio farei o serviço. Sei também servir bebidas como cozer pão.
Ele próprio lavou os quatro copos brilhantes e novos, ordenou que trouxessem um pequeno jarro do seu vinho e serviu Geri e os seus companheiros. Este vinho pareceu a todos eles o melhor que haviam bebido nos últimos tempos e não tinham palavras para o elogiarem. Enquanto os embaixadores ficaram na cidade, Geri, quase todas as manhãs, voltou a beber na companhia deles, em casa de Cisti.
Quando os estrangeiros estavam prestes a partir, Geri ofereceu um festim magnífico para o qual convidou uma parte dos cidadãos mais notáveis. Mandou pois um convite a Cisti, que não quis de maneira alguma aceitar. Nem por isso o fidalgo deixou de encarregar um dos seus servos a ir a casa do padeiro pedir uma garrafa do famoso vinho, a fim de distribuir meio copo por pessoa, a acompanhar o primeiro prato. O criado, porém, talvez despeitado por não ter podido provar o célebre vinho, pegou num garrafão, em vez de pegar numa garrafa. Cisti disse ao vê-lo:
– Meu filho, não foi a minha casa que o teu amo te mandou.
E, apesar dos seus protestos não pôde obter outra resposta. Voltou pois, junto do seu amo e contou-lhe o que se passava. Geri respondeu:
– Volta a casa de Cisti e, se ele te der a mesma resposta, pergunta-lhe onde é que ele julga que te mandei.
– Cisti – disse-lhe –, não há dúvida. Foi a tua casa que o senhor Geri me mandou.
– Não é possível – respondeu este.
– Então onde me mandou ele?
– Ao torno.
Quando Geri ouviu as palavras do criado, abriram-se-lhe os olhos do intelecto e disse-lhe:
– Mostra-me a garrafa que lhe levaste.
E, ao ver o garrafão declarou:
– Cisti tem razão.
Depois de o injuriar vivamente, mandou o homem pegar na garrafa que devia levar. Ao vê-la, disse Cisti:
– Agora compreendo. Foi a minha casa que o teu amo te mandou.
Encheu-a então, bem humorado. E no mesmo dia mandou também encher do seu vinho branco um pequeno barril, que enviou religiosamente à mansão de Geri. Depois do que se dirigiu em pessoa à casa do fidalgo, a quem disse:
– Senhor, ficaria desolado se pensásseis que o garrafão desta manhã me meteu medo. Julguei, porém, que tivésseis esquecido o que as minhas pequenas bilhas pretendiam nestes últimos dias demonstrar-vos: simplesmente, que o meu vinho não é um vinho vulgar. E esta manhã quis recordar-vos isso. Mas também não pretendo ser o único detentor deste vinho, e enviei-vos toda a minha reserva. Fazei dela o que vos agradar.
Geri ficou encantado com o presente de Cisti, e agradeceu-lhe de um modo que julgou honesto. Daí em diante tratou sempre do padeiro como homem de grande merecimento e como seu amigo.

In, Decameron, Início da Sexta Jornada, Segunda Novela, Boccaccio – Relógio D’Água, tradução de Urbano Tavares Rodrigues.

Ilustração de Banquete do livro “Très Riches Heures du Duc de Berry”

No jantar que abre o segundo volume de «Em busca do tempo perdido» de Marcel Proust , “À sombra das raparigas em flor”, o seu pai convida o senhor de Norpois, homem influente e muito viajado, para um jantar.
O repasto deixa o ilustre comensal maravilhado com os dotes culinários de Françoise, a cozinheira da casa, a quem não poupa elogios, chamando-lhe mesmo  «chefe de primeira ordem». Depois do jantar, já na cozinha, a mãe de Marcel transmite a Françoise os elogios do velho «embaixador»: garantira ele que em parte alguma se comia carne de vaca fria e soufflés como os seus. Françoise, sem se render à vaidade, explica a superioridade da sua técnica comparando-a com o que se faz em muitos dos restaurantes de Paris, dos mais modestos aos mais importantes, onde simplesmente se «põem as coisas a cozer à pressa». Na comparação, apenas um merece nota positiva: o Café Anglais; um dos mais célebres restaurantes parisienses do séc XIX e o mais snob de todos, aclamado pela sua cozinha mas, para além disso, para sempre famoso por, mais do que qualquer outro, ter servido de cenário ou referência para inúmeros escritores, de Balzac a Karen Blixen, passando por Henry James ou Flaubert.

(…) Mas de todas as frases, a mais apreciada foi-o pela Françoise que, vários anos depois, não era capaz de «conter o riso» quando lhe lembravam que o embaixador lhe chamara «chefe de primeira ordem», frase que a minha mãe lhe fora transmitir, como um ministro da Guerra transmite as felicitações de um soberano de passagem, depois da revista. De resto, eu chegara à cozinha antes dela. É que obrigara a Françoise, pacifista mas cruel, a prometer que não faria sofrer de mais o coelho que tinha de matar e não tivera notícias dessa morte; a Françoise garantiu-me que tinha corrido o melhor possível e com muita rapidez: «Nunca vi um animal como aquele; morreu sem dizer palavra, até parece que era mudo.» Pouco ao corrente da linguagem dos animais, aleguei que, se calhar o coelho não gritava como o frango. «Ora espera lá por essa», disse-me a Françoise indignada com a minha ignorância, «se os coelhos não gritam tanto como os frangos! Têm até a voz mais forte.» A Françoise aceitou os parabéns de senhor de Norpois com a altiva simplicidade, o olhar alegre e – ainda que momentaneamente – inteligente de um artista a quem falam da sua arte. A minha mãe mandara-a  em tempos a certos grandes restaurantes ver como se cozinhava lá. Naquela noite tive, ao ouvi-la chamar baiucas aos mais célebres, o mesmo prazer que tivera outrora ao saber que a hierarquia dos méritos dos artistas dramáticos não era a mesma das respectivas reputações. «O embaixador», disse-lhe a minha mãe, «garante que em nenhuma parte se come carne de vaca fria e soufflés como o seus.» A Françoise com um ar de modéstia e de quem presta homenagem à verdade concordou, sem aliás ficar impressionada com o título de embaixador; dizia do senhor de Norpois com a amabilidade devida a alguém que a tomara por um «chefe»: «É um bom velhote como eu.» Bem procurara vê-lo quando ele chegou, mas, sabendo que a minha mãe detestava que estivessem atrás das portas ou janelas, e pensando que ela viria saber pelos outros criados ou pelos porteiros que estivera à espreita (porque a Françoise só via por toda a parte «ciúmes» e «bisbilhotices» que desempenhavam na sua imaginação o mesmo papel permanente e funesto que que, para outras pessoas era desempenhado pelas intrigas dos jesuítas ou dos judeus), limitara-se a olhar pela sacada da cozinha, «para não ter contendas com a senhora» e, acerca do aspecto geral do senhor de Norpois, achava que «parecia o senhor Legrandin» por causa da sua ageledade, apesar de não haver nada de comum entre eles.. «Mas enfim», perguntou-lhe a minha mãe, «como é que explica que ninguém faça geleia tão bem como você (quando quer)?» «Não sei donde devém isso» , respondeu a Françoise (que não estabelecia uma demarcação muito nítida entre o verbo vir, pelo menos em certas acepções, e o verbo devir). De resto, ela dizia a verdade, em parte, e não tinha muito mais capacidade – ou desejo – de desvelar o mistério em que consistia a superioridade das suas geleias ou dos seus cremes do que uma elegante acerca das suas toilettes ou uma grande cantora acerca da sua maneira de cantar. As suas explicações não nos dizem grande coisa; passava-se o mesmo com as receitas da nossa cozinheira. «Eles põem as coisas a cozer à pressa», respondeu ela falando dos grandes restaurantes, «e além disso não tudo ao mesmo tempo. É preciso que a carne fique como uma esponja, que então bebe todo o suco até ao fim. No entanto, havia um daqueles cafés onde acho que sabiam cozinhar menos mal. Não digo que fosse exactamente a minha geleia, mas era feita bem devagarinho e os soufflés eram bem cremosos.» «Será o Henry?», perguntou o meu pai, que se juntara a nós e apreciava muito este restaurante da Praça Gaillon, onde havia em datas certas refeições colectivas. «Oh, não senhor», disse a Françoise com uma mansidão que ocultava um profundo desprezo, «eu estava a falar de um pequeno restaurante. No Henry é muito bom, sem dúvida, mas não é um restaurante, é mais… uma casa de pasto!» «O Weber?» «Ah, não, eu queria dizer um bom restaurante. O Weber é na Rua Royale, não é um restaurante, é uma cervejaria. Não sei se aquilo que lhes dão é servido. Creio que nem sequer têm toalha, poisam tudo assim em cima da mesa, e arranjem-se.» «O Cirro?» A Françoise sorriu: «Oh, aí, acho que, quanto a cozinha, há sobretudo senhoras da sociedade.» Sociedade significava para a Françoise sociedade de costumes duvidosos. «Meu deus, a juventude precisa daquilo.» Percebíamos que, com o seu ar de simplicidade, a Françoise era para os cozinheiros célebres uma «colega» mais terrível do que o pode ser a actriz mais invejosa e mais presunçosa. No entanto, sentimos que ela tinha uma ideia correcta  da sua arte, e respeito pelas tradições, porque acrescentou: «Não, quero dizer um restaurante onde sentíamos que tinha uma cozinha burguesa bem boa, é uma casa ainda bastante importante. Trabalhava-se muito. Ah, lá dentro ganhava-se uns bons soldos.» A poupada Françoise contava por soldos e não por luíses como como os jogadores arruinados. «A senhora sabe, é lá ao fundo à direita nos grandes bulevares, um pouco recuado…» O restaurante de que ela estava a falar com esta equidade tingida de orgulho e de bonomia era… o Café Anglais. (…)

In, “Em Busca do Tempo Perdido”, Volume II, “À Sombra das Raparigas em Flor”, Marcel Proust, Relógio D’água, Tradução Pedro Tamen

Pinturas:Madeleine Jeanne Lemaire

(…) Kazu falava muitas vezes da «forma de proceder da jovem geração». «As roupas mudaram, mas o gosto continua a ser o mesmo desde os tempos de outrora. Os jovens enganam-se crendo que a experiência que fazem pela primeira vez é uma experiência nova para o mundo. Os desregramentos são semelhantes aos do passado, mas como hoje são olhados com olhos menos severos do que antigamente, os jovens precisam de se entregar as excentricidades cada vez maiores para chamarem a  atenção.» Tratava-se de banais lugares-comuns, mas que ganhavam toda a sua força quando saíam da boca de Kazu.
Quando se sentava no banco, gostava de tirar um cigarro da manga e fumar. O fumo flutuava na luz da manhã e, como não havia vento, ficava suspenso no ar, pesado como um véu de tafetá. Este era um prazer que uma mulher com família seguramente não conheceria, mas que Kazu, vivendo só, na sua existência tranquila, se podia permitir. Mesmo que tivesse bebido muito na véspera, Kazu, se uma saúde robusta, não se lembrava de alguma vez ter achado mau gosto no tabaco.
Sem que, do seu banco, o apercebesse, todo o panorama do parque estava profundamente gravado no seu espírito; conhecia-lhe de cor os mínimos recantos, as grandes árvores viscosas no centro do parque, de um verde-escuro como tinta, com as suas pequenas folhas espessas e brilhantes, a vinha selvagem que se entrelaçava com as árvores atrás da casa, a vista ampla que se tinha do relvado defronte do salão, as humildes lanternas de pedra frente à casa, os bambús-anões apertados em torno da ilha onde se erguia o pagode de cinco andares… No parque, nada fora deixado ao acaso; nem os mais delicados arbustos, nem as mais pequenas flores. Enquanto fumava, os pormenores requintados do parque envolviam no espírito de Kazu todas as espécies de recordações. Olhava este parque como olhava o mundo; além disso era dona dele. (…)

In, “Depois do Banquete” Yukio Mishima, Relógio D’Agua, Tradução: Inês Pedrosa

Pintura: “Dama con Abanico”, Francisco Masriera y Manovens (1842-1902)

Embora à primeira possa parecer uma comparação quase sacrílega, este excerto do relativamente desconhecido filme “Down by Law”, que Jim Jarmusch escreveu e realizou em 1986, possui uma indiscutível afinidade com a célebre e muito referida madalena que, ao mergulhar no chá abre, de par em par, as portas da memória de Marcel Proust em “À la recherche du temps perdu”.
Longe da complexidade e elegância de estilo daquele que é por muitos considerado o melhor romance do século XX , nesta cena bem divertida, um então quase desconhecido Roberto Benigni cozinha, de forma improvisada, um coelho acabado de caçar, que o vai levar através da memória, dos hostis pântanos da Luisiana onde se encontra perdido com dois outros evadidos (Tom Waits e John Lurie), até à Itália da sua infância, numa viagem em que recorda a sua mãe, irmãos e pai, dando origem a um dos mais cómicos momentos gastronómicos do cinema, que conheço.

(…) O Katczinsky é um homem precioso por ser dotado de um sexto sentido. Há destas pessoas por toda a parte aqui, mas à primeira vista ninguém as nota. Há uma ou duas em cada companhia. O Katczinsky é o mais afortunado que conheço. A sua profissão creio eu, é sapateiro, mas isso pouco importa, pois que conhece todos os ofícios. É bom ser seu amigo. O Kropp e eu somo-lo, e o Haie Westhus também, numa certa medida. A dizer a verdade, este é mais um orgão executivo, pois trabalha à ordem de Kat quando é preciso músculo para realizar uma empresa. Em recompensa disto são-lhe concedidos favores.
Por exemplo chegamos de noite a um sítio completamente desconhecido, um miserável buraco ,onde nos apercebemos de que foi tudo levado, restando apenas as paredes. A pousada que acaba de nos ser distribuída é uma pequena fábrica escura. Há camas, ou melhor, simples ripas de madeira onde estenderam arame.
O arame é duro. Não tínhamos coisa alguma para pôr em cima, pois do cobertor precisamos para nos cobrirmos. O pano de tenda é delgado de mais.
O Kat contempla a situação e diz ao Haie Westhus:
– Segue-me.
Vão dar uma vota pela localidade, completamente desconhecida deles. Voltam meia hora depois com os braços cheios de palha. O Kat encontrou uma cavalariça e, também palha. Podíamos agora dormir no quente senão tivéssemos uma fome dos diabos..
O Kropp inquire a um artilheiro que está há muito neste sítio:
– Há por aqui alguma cantina?
O outro ri.
Falas bem,. Aqui não há coisa alguma. Nem mesmo uma côdea de pão.
– Já não há habitantes?
O outro cospe.
– Sim, sim, há alguns, mas esses mesmos andam à roda dos caldeiros como mendigos.
Era uma situação sem graça alguma. Íamos ser obrigados a  apertar mais um pouco o cinto e esperar que a pitança chegasse no dia seguinte.
Vejo entretanto, o Kat pôr o barrete e pergunto-lhe:
– Onde vais Kat?
– Examinar um pouco a situação.
E foi-se com uns ares indolentes. O artilheiro chacoteia:
– Podes examinar. Mas não venhas muito carregado.
Desiludidos  estendemo-nos e perguntámos se não iríamos encetar os víveres de reserva, mas isto era muito arriscado.
Por isso procurámos dormir um bocado.
O Kropp parte um cigarro e dá-me metade. O Tjaden fala do seu prato nacional, feijões grandes, com toucinho.
É preciso deitar-lhe verdura, mas, principalmente, é necessário que tudo coza  juntamente e não (Deus nos livre!) as batatas, os feijões e o toucinho separadamente. . Alguém grunhe que se o Tjaden não se cala imediatamente vai ele reduzi-lo a verdura para adubar os seus feijões.. Com isto faz-se silêncio no vasto dormitório improvisado. Só algumas velas vacilam nos gargalos das garrafas, e de vez em quando o artilheiro cospe.
Estamos já meio a dormir quando a porta se abre e o Kat aparece. Julgo sonhar; traz dois pães debaixo do braço e na mão um saco de terra, manchado de sangue, contendo carne de cavalo.
de puro espanto, o cachimbo cai da boca do artilheiro.
Apalpa o pão.
–É verdade é pão e ainda está quente!
O Kat não perde tempo com palavras. Há pão o resto pouco importa. Estou convencido de que se o pusessem no meio do deserto ele encontraria, ao fim de uma hora, com que arranjar um jantar composto de carne assada, tâmaras e vinho.
Num tom breve diz para o Haie:
– Parte lenha.
Depois tira do interior do fato uma assadeira e da algibeira um punhado de sal e uma rodela de gordura. Pensou em tudo. O Haie acende o lume mesmo no chão, o qual crepita através da nudez da fábrica. À força do pulso descemos das camas.
O artilheiro hesita; pergunta lá para consigo se deve apresentar felicitações. Talvez haja qualquer coisa para ele,, mas o Katczinsky não lhes presta atenção alguma, considerando-o como inexistente. Então o artilheiro sai a rosnar injúrias.
O Kat conhece a maneira de assar a carne de cavalo de modo a ficar tenra. Não se deve meter imediatamente na assadeira, pois assim endureceria.
É preciso, primeiro que tudo, aquecê-la num pouco de água. Acocoramo-nos todos em redor, com as nossas facas, e atulhamos o estômago.
Eis como é o Kat. Se num lugar qualquer não houvesse de comer, senão a uma determinada hora durante um ano, o Kat, precisamente a essa hora, como tomado de uma inspiração, poria o seu barrete, sairia e iria direito ao sítio.
Descobre tudo. Quando faz frio são os pequenos fogões a lenha, feno e palha, mesas e cadeiras, mas principalmente com que soprar. Isto é um enigma. Dir-se-ia que as coisas lhe caiem, magicamente, do céu. O seu feito principal foram quatro latas de lagosta. para dizer a verdade, teríamos preferido banha. (…)
In, “A Oeste Nada de Novo”, Erich Maria Remarque

31 E disse o Senhor: A quem pois compararei os homens desta geração, e a quem são semelhantes’
32. São semelhantes aos meninos que, assentados nas praças, clamam uns aos outros, e dizem: Tocámo-vos flauta e não dançastes; cantámo-vos lamentações, e não chorastes.
33 Porque veio João Baptista, que não comia pão nem bebia vinho, e dizeis: Tem demónio;
34 Veio o Filho do homem, que come e bebe, e dizeis: Eis aí um homem comilão, e bebedor de vinho, amigo dos publicanos e dos pecadores.
(…)
In, A Bíblia Sagrada, S. Lucas, 7, 31-34

Pintura: “A Última Ceia”, Jacopo Bassano (1510-1592)

Êxodo 12

1. O Senhor disse a Moisés e a Aarão:
2. “Este mês será para vós o princípio dos meses: tê-lo-eis como o primeiro mês do ano.
3.  Dizei a toda a congregação de Israel: no décimo dia deste mês cada um de vós tome um cordeiro por família, um cordeiro por casa.
4. Se a família for pequena demais para um cordeiro, então o tomará em comum com seu vizinho mais próximo, segundo o número das pessoas, calculando-se o que cada um pode comer.
5. O animal será sem defeito, macho, de um ano; podereis tomar tanto um cordeiro como um cabrito.
6. E o guardareis até o décimo quarto dia deste mês; então toda a congregação de Israel o imolará no crepúsculo.
7. Tomarão do seu sangue e pô-lo-ão sobre as duas ombreiras e sobre a verga da porta das casas em que o comerem.
8. Naquela noite comerão a carne assada no fogo com pães sem fermento e ervas amargas.
9. Nada comereis dele que seja cru, ou cozido, mas será assado no fogo completamente com a cabeça, as pernas e as entranhas.
10. Nada deixareis dele até pela manhã; se sobrar alguma coisa, queimá-la-eis no fogo.
11. Eis a maneira como o comereis: tereis cingidos os vossos rins, vossas sandálias nos pés e vosso cajado na mão. Comê-lo-eis apressadamente: é a Páscoa do Senhor.

(…)

In, Bíblia Sagrada, Velho Testamento, Êxodo

Pintura: “Agnus Dei”, Francisco de Zurbaran (1636-1640)

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