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(…) Para assumir a sua singularidade a Vivenda Aquário não se limitava a ter um jardim e um divã-salão. Tinha também uma gastronomia. Qualquer visitante que tivesse lido, antes de aceitar sentar-se à nossa mesa, uma curta passagem de A Ilha dos Hermafroditas, teria daí concluído posteriormente que o excesso de rigor no requinte ou no esmero culinário do jantar estava em perfeita harmonia com os mandamentos deste texto: “Os banquetes e festins”, aí se lê com efeito, “far-se-ão mais de noite do que de dia, com toda a superfluidade, prodigalidade, curiosidade e delicadeza que se puder. (…) (queremos) que todas as carnes sejam disfarçadas e que nem uma sequer se reconheça na sua natureza, a fim de que os nossos súbditos tomem o alimento em forma semelhante àquela que os compõe.” Piratear a palavra natureza, obrigá-la a vomitar: era esse o imperativo soberano no espírito de Helga, um imperativo que em breve faria meu.. Pois a natureza é revoltante, como é evidente. Que santo, e de que natureza seria louvar por me ter dado uma fachada tão macilenta e a que divindade deveria Helga agradecer tê-la submetido a uma dilatação tão desproporcionada do seu volume?
Essa revolta natural contra a natureza fundamentava naturalmente a necessidade das maquilhagens, das diversões, inversões, perversões mais elementares.
Mas voltemos à mesa. Submetida a um regime dietético particularmente severo, que acabaria por lhe fazer perder alguns quilos (a não ser que fosse já o efeito da doença), Helga obrigar-se-ia, no entanto, a conceber jantares gastronómicos. Ementa exemplar de um sábado à noite, para seis, sete pessoas: enorme rodovalho comprado de manhã no mercado e cozido a vapor numa peixeira, com funcho, gengibre, salsa, casca de limão e rebentos de soja (à vietnamita); caranguejos recheados a caril (dentro das regras da arte; as patas devem ser quebradas quando o bicho ainda está vivo); rolinhos primavera servido com os nems, com grandes folhas de alface e hortelã fresca. embora, em princípio, Helga não devesse comer nenhum prato condimentado nem beber álcool, é claro que ela transgrediria todas essas prescrições bárbaras, pois era superior às suas forças.
A importância das discussões culinárias compensava a carência de espírito de conversação que Helga notava frequentemente nos outros. Nada a desesperava mais do que surpreender em pecado de pedantismo o colega de universidade, o escritor “conhecido”, o jornalista “influente”, ou o “jovem fotógrafo” que ela reunira em torno de uma mesma mesa. Para evitá-lo, portanto, para impedir o desfile de citações (inexactas e truncadas), a troca de ditos engraçados ou de anedotas, Helga decidira que a única receita de harmonia entre convivas se baseava no grau de elaboração das refeições. se cada jantar podia transformar-se num dinner-party, inscrevendo na cabeça dos convidados uma relação memorável dos pratos, então a atenção das pessoas concentrar-se-ia na superfície de madeira da mesa, nos motivos azuis da faiança inglesa ou na surpresa de um vinho branco da Califórnia. Nesses jantares, Helga obstinava-se em demonstrar que a arte culinária era uma arte entre outras, e que ela exige esforços de imaginação ou de inspiração. Assim, um prato de pepinos (cozidos em água e depois passados pelo forno, com ervas da Proença) permitiria espantosas conversas que reconciliavam esses dois parâmetros inimigos: o teor em calorias dos alimentos e o seu sabor.. Mesmo que estivesse doente, Helga recusar-se-ia a deixar-se governar pela autocracia de uma dieta. Como as recomendações dietéticas mudam com os receituários (que mudavam, por sua vez, conforme os médicos), era preciso ser manhoso com as gastronomias, as “cozinhas” e as dietas. Nada – julgava ela – a obrigaria à escravidão triangular do “arroz, cenouras, bananas” destinada às panças aerofágicas e aos intestinos diarreicos. Caso necessário comprar-se-iam novos livros e o tempo da carne grelhada poderia suceder à época hipervitaminada dos legumes. O importante era conceber uma alimentação suficientemente maquilhada para que pudesse dissimular a sua aparência de poção, e bastante simples para que fosse possível reproduzi-la sem dificuldades excessivas. Ninguém deveria adivinhar, quando estivesse a devorar lombos de porco grelhados com molho de erva-cidreira (mas desengordurado com molho de limão), que essa ementa traduzia um princípio dietético (alimentar Helga sem a empanturrar), mas escondia outro (alimentar Helga, não para que pudesse emagrecer, mas sim para que conservasse nulo o seu peso por necessidade médica). (…)

In “Os Volumes Efémeros”, Gilles Barbedette (1987) – Difel 1988

Pintura: The Merchant Wife’s Tea, Boris Kustodiev (1915)