(…) Puseram-se a falar de amor. Sem admitir que fosse eterno, Duroy compreendia que fosse duradouro, criasse um laço, uma amizade terna, uma confiança. A união dos sentidos devia ser somente o selo da união dos corações. Indignava-se, contudo, contra os ciúmes irritantes, os dramas, as cenas, o estendal de misérias, que quase sempre acompanham as rupturas.
Quando se calou, a Sra. de Marelle suspirou:
– Sim é a única coisa boa da vida e estragamo-la frequentemente com exigências impossíveis.
A Sra. Forestier, que brincava com a faca acrescentou:
– Sim… sim… é bom ser amada…
Parecia levar mais longe o seu sonho, pensar em coisas que não ousava dizer.
Como o prato da entrada não chegava, bebiam de tempos a tempos um gole de champanhe, enquanto mordiam pedacinhos de côdea tirados dos pãezinhos redondos.
O pensamento do amor, lento e invasor, entrara neles, embriagava-lhes as almas como um vinho límpido caído gota a gota na garganta, aquecendo-lhe o sangue e perturbando-lhe o espírito.
Serviram-lhes costoletas de cordeiro, tenras, leves, dispostas numa camada espessa de espargos.
– Apre! Que bela coisa! – Exclamou Forestier.
Comeram com lentidão, saboreando a carne delicada e a guarnição macia como um creme. Duroy prosseguiu:
– Por mim, quando gosto de uma mulher, o mundo todo desaparece à sua volta.
Dizia isso com convicção, exaltando-se com a ideia desse gozo do amor, no bem-estar que o prazer da mesa lhe proporcionava.
A Sra. Forestier murmurou, com o seu ar de quem não cobrava um prato:
– Não há felicidade comparável à primeira pressão das mãos, quando uma pergunta: “Gosta de mim?” e a outra responde: “Sim, gosto muito.”
A Sra. de Marelle acabara de esgotar, dum trago, um novo copo de champanhe e disse alegremente depondo o copo:
– Cá por mim sou menos platónica!
Todos se puseram a rir, com os olhos brilhantes, aprovando as suas palavras. Forestier estendeu.-se no divã, abriu os braços, apoiou-os nos almofadões e proferiu num tom sério:
– Essa franqueza honra-a e prova que é uma mulher prática.
Podemos, porém, perguntar qual é a opinião do Sr. de Marelle?
A interrogada encolheu os ombros, devagar, com um desdém infinito, prolongado. depois, declarou em voz clara:
– O Sr. de Marelle não tem voto nesta matéria; só tem… abstenções.
A conversa, ao descer das teorias elevadas acerca da ternura, entrou no jardim florido das brejeirices ditas com distinção. Foi o momentos dos subentendidos hábeis, dos véus soerguidos pelas palavras como quem levanta saias, o momento das astúcias da linguajem das audácias disfarçadas, de todas as hipocrisias impudicas, das frases que mostram as imagens despidas com expressões recatadas, que fazem passar, ante os olhos e nos espíritos, a visão daquilo que não se pode dizer e permite às pessoas da sociedade uma espécie de contacto impuro em pensamento, pela evocação, simultânea, perturbante e sensual como um amplexo, de todas as coisas secretas, vergonhosas e desejadas, da intimidade.
Trouxeram o assado: perdizes ladeadas de codornizes, com ervilhas tenras, e depois uma terrina de foie gras, acompanhada duma salada de folhas frisadas que enchia, como uma espuma verde, a grande saladeira. Comeram de tudo aquilo sem saborearem, sem darem por isso, unicamente preocupados com o que diziam, mergulhados num banho de amor.(…)

In, “Bel-Ami”, Guy de Maupassant, 1885 – Vega

Pintura: “Ces Maitres Sommeliers”, Jean-Marie Boomputte