Frutos!
por vós espero frutos!
Procuro-vos satisfações;
Sois belas como gargalhadas estivais.
Sei que qualquer dos meus desejos
Já tem a sua resposta pronta.
Cada uma das minhas fomes aguarda a sua recompensa.
Frutos!
Por vós espero frutos!
procuro-vos em toda a parte,
Satisfações de todos os meus desejos.

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O que conheci de mais belo sobre a terra,
foi a minha fome, Nathanael.
Sempre me foi fiel.
A tudo o que a esperava.
Acaso o rouxinol se embebeda com vinho?
E a águia com leite? E os tordos com bagos de zimbro?
A águia entusiasma-se com o seu voo, o rouxinol embebeda-se com as noites de Verão. A planície treme de calor. Que toda a emoção se converta, para ti, Nathanael, numa embriaguez. Se o que comes não te estonteia é porque não tinhas ainda fome suficiente e não devias ter comido.
Cada acção perfeita é sempre acompanhada por uma certa voluptuosidade. É assim que se reconhece que a devíamos fazer. Não gosto dos que se acham com mérito por terem trabalhado penosamente. porque, se o que fizeram foi penoso, seria por certo melhor que tivessem feito outra coisa. A alegria que nele encontramos é sinal de nos termos apropriado do trabalho e a sinceridade do meu prazer, Nathanael, é o mais importante dos meus guias.
Sei aquilo que o meu corpo pode desejar como voluptuosidade todos os dias e aquilo que a minha cabeça suporta. depois, começará o meu sono. Terra e céu de mais nada me valerão.

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Há frutos que comemos nos terraços.
frente ao mar e ao sol poente.
Há outros cristalizados num gelado
Adocicado com gotas de licor.

Há frutos que colhemos nas árvores
De jardins reservados, circundados de muros,
E que, no Verão, comemos à sombra.
instalaremos pequenas mesas;
Os frutos cairão à nossa volta
Logo que abanarmos os ramos
onde despertarão as moscas entorpecidas.
Em malgas colheremos os frutos caídos
Só o seu perfume bastará para nos encantar.

Há frutos cuja casca mancha os lábios e que só comemos
quando grande é a sede.
Encontrámo-los ao longo de caminhos arenosos;
Brilhavam através da espinhosa folhagem
Onde arranhámos as mãos ao querer colhê-los;
E a nossa sede não foi muito saciada.

Há frutos com que faríamos compota
Só de deixá-los cozer ao Sol.
Há frutos cuja carne permanece azeda, apesar de ser Inverno;
Os nossos dentes embotam-se ao mordê-los.
Há frutos cuja carne parece sempre fria, mesmo no Verão;
Comemo-los acocorados sobre esteiras
No fundo de pequenas tabernas.

Há frutos cuja lembrança vale uma sede
Logo que deixamos de poder encontrá-los.

In, “Os Frutos da Terra”, André Gide – Ambar

Pintura: “A Voluptous Smoke”, Charles Edouard Edmond Delort