Concedendo aos humanos, “a felicidade suprema do bacanal”, Dioniso convidava-os ao seu paraíso selvagem através dos ritos de abundância e alegria em festins onde davam livre curso á gula e à embriaguês. este modelo teve uma longa vida histórica; ainda nos anos 50, uma “boa mesa” significava, entre as classes populares uma refeição substancial, copiosa, mais calórica do que equilibrada. Ao sábado e ao domingo comia-se até fartar e, nas ocasiões de festa, a bebida corria a rodos: a “boa-vida”, no sentido popular, implicava alegres libações, excesso de prazeres gustativos.

Gargântua vergonhoso
Ao que tudo indica, este epicurismo gargantuesco já não está em voga, perdeu o seu brilho, condenado pelas normas sanitárias e estéticas do nosso tempo. Já não fazemos patuscadas, mas dietas. As prateleiras dos supermercados, enchem-se de alimentos biológicos, produtos hipocalóricos, e “probióticos” e outros alimentos saudáveis. As tradicionais refeições intermináveis de domingo causam-nos horror. Comer em abundância, confeccionar grandes comezainas deixaram de ser uma paixão popular, optamos pela alimentação equilibrada, pelas refeições ligeiras benéficas à saúde e à manutenção da linha. Actualmente, esperamos  dos alimentos que melhorem o estado de saúde, que reforcem a vitalidade, que retardem o aparecimento das rugas (cosmetic food), que previnam o aumento de peso. Cada vez mais, a alimentação é considerada uma forma de prevenir, ou até de tratar de certas doenças: a saúde, a longevidade, a beleza tornaram-se os novos referenciais que presidem à nossa relação com a mesa.

In, “A Felicidade Paradoxal – Ensaio sobre a Sociedade do Hiperconsumo” – Edições 70

Pintura: David Teniers, Twelfth-night (The King Drinks)