(…) Comido o caldo, restava-lhes aquele serão gratuito, a ouvir música e chalaças durante algum tempo.
Esquecida do convite, e com os feijões a pesarem-lhe no estômago, a Angélica, mal acabou de lavar a tigela, aninhou-se a um canto da cozinha, macambúzia e sonolenta. Ao vê-la por fim cabecear, a rapariga ainda cuidou que poderia escapar-se.
Curta ilusão. Foi erguer-se, e logo a velha, que não queria deixar aquela loucura à solta, lhe perguntou:
– Onde vais?
– Ali…
– Ah! Também preciso… – e passou-se tudo como se de facto estivessem ambas necessitadas.
Entretanto, na vinha, a contar os segundos e a estremecer a cada rumorejo das folhas, o rapaz esperava. O coração ardente batia-lhe marteladas no peito, as pernas tremiam-lhe de ansiedade, os sentidos doíam-lhe de tanta atenção. Mas as horas passaram assim, cheias só de desejo retesado, e quando a sineta deu sinal, lasso e moroso, o rapaz chegou-se para dar a meia-noite no lagar.
De aí a nada, arregaçados, os homens iam esmagando os cachos, num momento onde havia qualquer coisa de coito, de quente e sensual violação. Doirados, negros, roxos, amarelos, azuis, os bagos eram acenos de olhos lascivos numa cama de amor. E como falos gigantescos, as pernas dos pisadores rasgavam máscula e carinhosamente a virgindade túmida e feminina das uvas. A princípio, a pele branca das coxas, lisa e morna, deixava escorrer os salpicos de mosto sem se tingir. Mas com a continuação ia tomando a cor roxa, cada vez mais carregada, do moreto, do sousão, da tinta carvalha, da touriga e do bastardo.
A primeira violação tirava apenas a cada cacho a flor de uma integridade fechada. Era o corte. Depois, os êmbolos iam mais fundo,rasgavam mais, esmagavam com redobrada sensualidade, e o mosto ensanguentava-se e cobria-se de uma espuma leve de volúpia. À tona, a roçá-lo como talismãs, passeavam então os volumosos e verdadeiros sexos dos pisadores, repousados mas vivos dentro das ceroulas de tomentos.
– Boa noite! – saudou a rapariga, num estrangulamento de voz que só o Gustavo compreendeu.
– Adeus amor!
O Carlos do harmónio tinha sempre um madrigal à mão de semear. Mal ele sabia que o seu piropo batia de encontro a um coração já satisfeito, apenas dorido de não poder pagar a pronto os juros da ternura que recebera.
– Está calor… – queixou-se alguém.
– E é de trovoada…
– Bem precisa cá são umas bátegas, a ver se refresca… Anda para aí cada fogueira acesa!
Os dois namorados olharam-se furtivamente. E qualquer coisa no rapaz agitou-se tão comprometedoramente, que teve de se voltar para a parede e debruçar-se sobre um pé que ergueu, à procura dum espinho imaginário.
De cá, a moça via-lhe a curva dos rins bem desenhada, as nádegas escorridas e rijas, a cabeça negra de toiro, e aquela perna musculada e tingida, pontuada de grainhas agarradas aos pêlos.
– Vou-me deitar… – gemeu a infeliz.
– Já?! – E a Angélica olhou-a com os resquícios de mulher que lhe restavam.
– Que estou aqui a fazer?
O rapaz continuava à procura do espinho. A cana-verde rompera na sanfona, embaladora e sensual. O cheiro do mosto entorpecia.
– Ainda é cedo. deixa-te estar mais um migalho.
– Fique vossemecê…
Apetecia-lhe entrar de saia arregaçada pelo lagar dentro, erguer o homem do disfarce humilhante, e deixar-se esmagar debaixo dele como um cacho maduro. Mas não podia. E foi sozinha adormecer o desespero na triste solidão da cardenha. (…)

In, “Vindima”, Miguel Torga (Publicações Dom Quixote-2007)

Jean-Marc Nattier, A Aliança Entre Amor e Vinho, 1744