(…) Todas as manhãs, entre as oito e as 10.00, um pequeno grupo de éguas de raça, dotadas de um sortido de selas imperfeitas, vinha até ao nosso acampamento e nelas montávamos eu, Nasir, Nesib e Zeki, e acompanhados de uma dúzia dos nossos homens a pé, atravessávamos solenemente o vale, pelos caminhos arenosos entre os arbusto. Os cavalos eram conduzidos pelos nossos criados, pois seria presunçosos da nossa parte cavalgarmos sozinhos ou a trote. Assim, consequentemente, conseguíamos chegar à tenda que iria ser a sala do nosso festim dessa vez: cada família reclamava a nossa presença por uma vez, e ficava mortalmente ofendida se Zaal, o distribuidor, preferia uma tenda fora da justa ordem.
Quando chegávamos, os cães corriam para nós, e eram afastados pelos assistentes – havia sempre uma multidão reunida em volta da tenda escolhida – e, nós entrávamos para a metade da tenda destinada aos convidados, muito alargada para a ocasião e cuidadosamente ornamentada com cortinados do lado do sol, para nos proporcionar sombra. O anfitrião envergonhado, murmurava qualquer coisa e desaparecia da nossa vista. Os tapetes tribais, umas coisas vermelhas de horrível aspecto, provenientes de Beirute, estavam estendidos no chão para nosso uso, sob o cortinado da divisória, ao longo da parede traseira e diante da aba da tenda, de modo que nos sentávamos em três lados de um espaço térreo. Éramos cerca de cinquenta homens. O anfitrião reaparecia, de pé, junto do poste; os outros convidados locais, El Dheilan, Zaal e outros cheques, prestavam-se relutantemente a ser colocados sobre os tapetes entre nós, partilhando do nosso  espaço para os cotovelos sobre as selas, almofadadas com mantas de feltro, sobre as quais nos reclinávamos. As pessoas que se encontravam em frente da tenda eram afastadas, e os cães eram geralmente perseguidos por crianças excitadas, que corriam pelo espaço vazio, arrastando atrás delas crianças ainda mais pequenas. As suas roupas eram menos quanto menos fossem os anos e os seus corpos gordos mais redondos. As mais pequenas de todas, com os seus olhos pequenos de moscas, olhavam para o nosso grupo, dificilmente equilibradas nas pernas afastadas, totalmente nuas, a chuchar o polegar e a espetar na nossa direcção os ventres expectantes.
Seguia-se então uma pausa desajeitada, que os nossos amigos tentavam preencher, mostrando-nos, no seu poleiro o falcão da casa (sempre que possível, uma ave marítima apanhada em nova na costa do mar Vermelho), ou o seu galispo de guarda, ou o seu galgo. Certa vez, trouxeram-nos uma íbex domesticada para a admirarmos; doutra vez, um órix. Quando estas distracções acabavam, tentavam arranjar-nos uma pequena tarefa para nos distrair dos ruídos caseiros e das instruções sussurradas com urgência para a cozinha, através do cortinado que servia de divisória, donde vinha um forte cheiro a gordura cozida e se escapava o fumo da carne saborosa.
Após um silêncio, o anfitrião ou um seu delegado aproximavam-se e sussurravam: “Preto ou branco?” num convite para escolhermos chá ou café. Nasir respondia sempre “Preto”, e fazia-se sinal ao escravo, que avançava com a cafeteira de longo bico numa mão e três ou quatro chávenas tilintantes, de louça branca, na outra. Deitava algumas gotas de café na chávena de cima e estendia-a a Nasir; depois, servia a segunda para mim e a terceira para Nesib; em seguida havia uma pausa, durante a qual fazíamos girar as chávenas nas nossas mãos e as bebíamos cuidadosamente, para as apreciarmos até à última e mais rica das gotas.
Logo que as chávenas ficavam vazias, estendia a mão para as recolher ruidosamente, umas sobre as outras, e as encher, com menos cerimonial, aos convidados seguintes, por ordem, sempre em volta, até toda a gente ter bebido. Depois voltava a Nasir. Esta segunda chávena era mais saborosa que a primeira, em parte porque o conteúdo da cafeteira estava mais no fundo e em parte por causa das pancadas dadas no fundo das chávenas pelo grande número de bebedores presentes, ao passo que a terceira e quarta rodadas, se a carne levasse muito tempo a servir, tinham mesmo um sabor surpreendente.
Todavia, finalmente, surgiram dois homens, tropeçando no meio da multidão excitada, transportando o arroz e a carne numa travessa de cobre estanhado e numa tina pouco profunda, com um metro e meio de diâmetro, colocada, como uma grande braseira, sobre um suporte. Na tribo só havia aquela travessa, de tão grandes dimensões, que tinha em volta, uma inscrição em vistosos caracteres árabes: ” A glória de deus, e confiando na Sua misericórdia até ao fim, propriedade do Seu pobre suplicante, Auda abu Tayi.” era emprestada ao anfitrião que nos iria receber na altura; e, como o meu cérebro e o meu corpo me acordavam cedo, entre as mantas, à primeira luz da manhã, via a travessa atravessar a região e, fixando o seu ponto de chegada, sabia onde iríamos abancar nesse dia.
A travessa encontrava-se agora cheia até às bordas, com o arroz branco disposto em volta de um talude, de uns trinta centímetros de largura por quinze de profundidade, cheio de pernas e costeletas de carneiro, a transbordar para cima de arroz. Eram necessárias duas ou três vitimas para fazer, no centro, aquela pirâmide de carne que a honra exigia. As peças centrais eram as cabeças cozidas, voltadas para cima, apoiadas sobre os pescoços cortados, de modo que as orelhas, castanhas como folhas secas, saíssem através da superfície do arroz. As mandíbulas abriam-se vazias, voltadas para cima, abertas para mostrar a garganta oca e a língua, ainda rosada, agarrada aos dentes inferiores; e os longos incisivos coroavam a pilha, muito brancos proeminentes acima dos pêlos espetados das narinas e dos beiços, que se separavam deles, negros como que sorrindo.
Esta carga era colocada no chão, no espaço aberto entre nós, onde ficava, espalhando o seu quente vapor, enquanto uma procissão de ajudantes menores trazia pequenos caldeirões e cubas de cobre, dentro das quais a comida fora cozinhada. destes extraíam, com a ajuda de tigelas de ferro esmaltado, muito descascadas, todo o interior e exterior dos carneiros, que despejavam sobre o prato principal; pequenos pedaços de intestinos amarelos, a almofada da gordura branca da cauda, os músculos castanhos e a carne, e a pele cheia de cerdas, tudo a nadar na manteiga e na gordura líquida do caldo escaldante. Os circunstantes observavam ansiosamente, soltando exclamações de satisfação quando aparecia um pedaço de carne muito suculento.
A gordura estava escaldante. de vez em quando, um dos homens deixava cair a sua tigela com uma exclamação e metia os dedos queimados, com certo prazer, dentro da boca, para os arrefecer: mas prosseguiam até ao final a sua ruidosa extracção dos fundos dos caldeirões; e, com um gesto de triunfo, pescavam os fígados intactos dos seus esconderijos dentro do molho e cobriam com eles as mandíbulas dos carneiros.
Dois deles erguiam cada caldeirão mais pequeno e inclinavam-no deixando o líquido escorrer sobre a carne, Até a cratera de arroz ficar cheia e os bagos soltos da margem nadarem na abundância, mas, mesmo assim, continuavam a despejar o molho, até que, entre gritos de espanto da nossa parte, o molho escorria e uma pequena poça se formava sobre a terra do chão. Aquele era o toque final do esplendor, e o anfitrião pedia-nos então que viéssemos comer.
Fingíamos não o ouvir, como exigiam as boa maneiras; finalmente escutávamo-lo, e olhávamos surpreendidos uns para os outros, cada um de nós insistindo com o outro para passar primeiro, até que Nasir se levantava, timidamente, e, atrás dele, todos avançávamos, para nos deixarmos cair, sobre um joelho, junto da travessa, apertando-nos e ajeitando-nos até que os vinte e dois, para os quais havia espaço muito à justa, se agrupassem em volta da comida. Arregacávamos a manga direita até ao cotovelo e, depois das palavras de Nasir, com um baixo “Em nome de Deus misericordioso, os que lhe são dedicados”l, mergulhávamos em conjunto.
O primeiro mergulho, para mim, pelo menos, era sempre cauteloso, dado que a gordura estava tão quente que os meus dedos, pouco habituados, raramente a suportavam: e, por isso, limitava-me a brincar com um pedaço de carne exposto e a arrefecer até as escavações dos outros terem drenado o meu arroz. Amassávamos entre os dedos (sem sujar a palma da mão) bolas de arroz e gordura e fígado e carne, cimentados por meio de uma pressão suave, e projectavamo-las utilizando o polegar como alavanca, em conjunto com  o indicador enrolado, para dentro da boca. Conhecendo o truque e construindo-as de forma adequada, as pequenas bolas conservavam-se num todo e saiam limpas da nossa mão; mas quando um excesso de manteiga e alguns fragmentos, ficavam agarradas a arrefecer, aos nosso dedos, tínhamos de os lamber cuidadosamente, para que a tentativa seguinte deslizasse mais suavemente.
à medida que a pilha de carne ia diminuindo (na verdade ninguém se interessava pelo arroz: o petisco era a carne), um dos principais howeitat que comiam connosco puxava da sua adaga, de punho de prata, com turquesas encastoadas, uma obra-prima assinada pelo Mohammed ibn Zri, de Jauf, e cortava dos ossos maiores longos losangos de carne, que se desfaziam facilmente entre os dedos; porque a carne tinha de estar muito bem cozida, uma vez que tinha de ser utilizada apenas a mão direita, a única honorável. O nosso anfitrião ficava de pé, perto do nosso círculo, encorajando o nosso apetite com piedosas exclamações. Com a máxima velocidade, retorcíamos, rasgávamos, cortávamos e engolíamos: tudo sem falar, porque a conversa era um insulto à qualidade da refeição, embora fosse apropriado dirigir um sorriso de agradecimento a um convidado íntimo que nos passasse um pedaço escolhido, ou quando Mohammed el Dheilan me entregava gravemente um enorme osso limpo com uma benção. Nessas ocasiões, eu devolvia o cumprimento com um pedaço de tripas horrivelmente impossível de se comer, uma irreverência que divertia os Howeitat, mas que o gracioso e aristocrático Nasir via com desaprovação.
Finalmente, alguns de nós sentiam-se quase cheios e começavam a brincar e  escolher os pedaços, olhando para os lados, para os restantes, até se tornarem muito lentos e, finalmente, pararem de comer, pousando o cotovelo no joelho, com a mão suspensa do pulso sobre o rebordo da travessa, para escorrer, enquanto a gordura, a manteiga e os grãos de arroz espalhados arrefeciam numa gordura branca e espessa que colava os dedos uns aos outros. Quando todos tinham parado, Nasir pigarreou significativamente, e erguemo-nos todos ao mesmo tempo, apressadamente, com um explosivo “Que Deus te retribua, ò nosso anfitrião”, indo reagrupar-nos no exterior entre os postes da tenda, enquanto os convidados seguintes herdavam os nossos restos.
Os mais delicados entre nós dirigiam-se ao fundo da tenda, onde a aba do pano do tecto, para lá dos últimos postes, caía como um cortinado; e nesse lenço do clã (cuja malha grosseira de lã de cabra estava maleável e brilhante de tanto uso) raspavam o máximo da gordura agarrada às mãos. Depois regressávamos aos nossos lugares e retomávamo-los primorosamente, enquanto os escravos, pondo de parte a sua ração, os crânios dos carneiros, se aproximavam das nossas filas com uma gamela de madeira com água e uma chávena de café para nela mergulharmos os dedos, sobre os quais a água era despejada, enquanto os esfregávamos com a barra de sabão tribal. (…)

In, “Os Sete Pilares da Sabedoria”, T. E. Lawrence