(…) Leopold Bloom comia com gosto os orgãos internos de quadrúpedes e aves. Apreciava sopa de miúdos de aves, moelas amendoadas, um coração assado recheado, fatias de fígado empanadas fritas, ovas de bacalhoa fritas. mais do que tudo gostava de rins grelhados, que davam ao seu palato um delicado sabor de tenuamente aromatizada urina. (…)

(…) O coração agitado ele empurrou a porta do Restaurante Burton. O odor crispou sua respiração tremente: molho de carne penetrante, rescaldo de verduras. Ver os animais comer.
Homens, homens, homens.
Empoleirados nos tamboretes altos do bar, chapéus pendidos para trás, `s mesas pedindo mais pão grátis, bebegulhando, glutonando molambos de comida empastada, os olhos esbugalhando, espremendo os bigodes molhados. Um jovem homem pálido de cara sebosa esfregava seu copo faca garfo e colher com o guardanapo. Nova bateria de micróbios. Um homem com um babadouro manchado de bebé à volta dele despejava sopa gorgulhante pela goela. Um homem cuspindo no prato: cartilagem semimastigada: sem dentes para mascamascamascar isso. Costeletas coriáceas grelhadas. Tragando para liquidar logo com a coisa. Olhos mortiços de empilecado. Abocanhou mais do que pode mastigar. Sou como isso? Ver a n´s mesmos como os outros nos vêem. Homem esfaimado, homem irritado. Trabalho de mandíbulas. Oh, não! Um osso! Aquele último rei pagão da Irlanda, Cormac, no poema da escola esganengasgou-se em Sletty ao sul de Boyne. Que é que ele estava comendo é o que me pergunto. Algo gulocioso. São Patrício converteu-o ao Cristianismo. Não pôde engoli-lo todo, entretanto.
– Rosbife e repolho.
– Um cozido.
Cheiros de homens. O nojo lhe subia. Serragem escarrada, quentusca fumaça de cigarro adocicada, trescalo de labuta, entornado de cerveja, mijo acervejado de homens, o rebotalho do fermento.
Eu não poderia comer nem um naco aqui. O sujeito afiando faca e garfo para comer tudo que tem diante, o gajo velho palitando a dentuça. Pequeno engulho, cheio, ruminando o bolo. Antes e depois. A graça depois do repasto. Olha este quadro e aquele. Manjando o molho do cozido com migalhas molhadas de pão. Lambe o prato, ó homem! É melhor dar o fora.
Apertando as narinas , ele mirava em redor os comedores nos tamboretes e às mesas.
– Duas cervejas aqui.
– Uma salmourada com repolho.
Aquele sujeito empurrando dentro uma garfada de repolho como se a sua vida dependesse disso. Bom golpe. Arrepia-me só de ver. Para ele émais seguro comer com as três mãos. despedaça pedaço a pedaço. É a sua segunda natureza. Nascido com uma lâmina de prata na boca. Isso até que tem graça, suponho. ou não. Prata quer dizer nascido rico. Nascido com uma lâmina. Mas então a alusão se perde.
Um empregado mal enfaixado juntava bulhentos pratos pegajosos. Rock, o gerente, de pé junto ao bar soprou o colarinho espumoso de seu canecão. Bem tirada: ela espadanou amarela perto da sua botina. um almoçador, faca e garfo alçados, cotovelos sobre a mesa, pronto para a repetição, fitava por cima do quadrado manchado do seu jornal o monta-comidas. Outro gajo, contando-lhe alguma coisa com a boca cheia. Ouvinte benevolente. Conversa de mesa. Eu vi ele nu banco di Ulster sigunda-feira. Eh? Viu de facto?
O senhor Bloom levantou dois dedos dubitativamente aos lábios. Seus olhos diziam:
– Não está aqui. Não o vejo.
Fora,. Odeio gente porca comendo.
Recuou para a porta. Faço uma refeição ligeira no Davy Byrne. Tapa buraco. Isso me manterá. Tive um bom desjejum.
– Assado e puré de batatas.
– Uma pinta da forte.
Cada um por si, unhas e dentes. Tragar. Trabalhar. Tragar. Traquitanda.
Achou-se fora em pleno ar e voltou para a Rua Grafton. Comer ou ser comido. Matar! Matar!
Admitamos essa cozinha comunal talvez dos anos por vir. Todos trotinhando com tigelas e palanganas para encher. Devorar o conteúdo na rua. John Howard Parnell, o preboste do Trinity, por exemplo, o filho de cada mãe sem falar dos teus prebostes e preboste do Trinity mulheres e crianças, cocheiros, párocos, marechais-de-campo, arcebispos. Da estrada de Ailesbury, da estrada de Clyde, dos bairros artesanais, Sindicato de Dublin Norte, o lorde prefeito no seu coche bolo-de-noiva, a velha rainha na sua cadeirinha de rodas. Meu prato está vazio. Sirva.-se primeiro de nossa taça municipalizada. Como a fonte de Sir Phillip Crampton. Esfregue os micróbios com seu lenço. O próximo sujeito esfregará uma nova leva com o seu. O padre O’Flinn diria cobras e lagartos deles. teria panos para as mangas de todos os modos. Tudo para o degas. Os pivetes lutando pela raspa do panelão. seria necessário um panelão tão grande como o Parque de Phoenix. Arpoando postas e quartos de dentro dele. Seria um odiar aos que estivessem à volta. O Hotel City Arms seria a table d’ôtes como diz ela. Sopa entrada e sobremesa. Nunca saber os pensamentos que se estivesse ruminando.
Depois, quem iria lavar todos os pratos e garfos? Pode ser que se coma com pílulas nesse tempo. Os dentes ficando cada vez piores.
No fundo h´s muito nisso de bom sabor vegetariano de coisas da terra, alho por certo tresanda a tocadores de realejo italianos crestados de cebolas, trufas, cogumelos. O sofrimento dos bichos também. depenar e abrir as vaes. desgraçados animais lá no mercado de carne à espera do machado que lhes arrebente o crânio. Mu. Pobres vitelas a trem,er. Mé. Refrão cambaleante. espuma e guincho. Os miúdos trepidando nos baldes dos açougueiros. Quero aquele peito daquele gancho. Tlic. Crudicrânio e ossos sangrentos. Escorchados carneiros vitroculados pendurados pelos pernis, ovinifocinhos sanguinembrulhados excretando nasigeleia na serragem. Lombo às tripas saindo. Não maltrates esses cortes, rapazinho.
Sangue fresco quente se recomenda para a consumição. Sangue é sempre necessário. Insidioso. Lambê-lo, esfumando quente, xaroposo. Vampiros esfaimados.
Ah, estou com fome.

In, Ulisses, James Joyce