As meninas solteiras. Vejamos o tipo geral de Lisboa: é uma pessoa magrita, amarelada, com um andar débil, ligeiramente ondulado, um grande puff no vestido, penteado difícil e espesso, um pequeno chapéu, o olhar sem ingenuidade, sem hesitação e sem temor. O primeiro sinal saliente é a debilidade e a anemia. Taine diz, pintando o sólido vigor inglês – que o primeiro dever de uma menina é ter saúde. É. A saúde é a explosão física da inocência. À saudável perfeição do corpo corresponde a lúcida simplicidade do espírito. Mens sana en corpore sano. Uma pele fresca e sanguínea diz um pensamento casto e verídico. Músculos que jogam livremente, busto direito, beiços vermelhos, construção viva – indicam juízo simples, consciência recta e alma fresca A palidez, a curvatura, as olheiras, o deprimido , o murcho – mostram um ser possuído de sensibilidade, de histérico, de apetites, de ideias subtis e profanas, de excitações e de nevroses. Ora entre nós, as meninas não têm saúde. Anémicas, débeis, descoradas, sem sangue, sem músculos, sem força – umas padecem de nervos, outras de estômago, outras do peito, e todas são cloróticas como seres que estão longe do sol. (…)
(…) Depois não comem: é raro ver uma menina alimentar-se rudemente como é lógico, de uma forte sopa, roastbeef e vinho. Comem doce e alface. Jantam as sobremesas. O amor da gulodice, do açúcar, do doce, das natas, é uma diminuição de força. Os antigos moralistas atribuía-lhe mesmo uma influência má nos costumes e no carácter: nas casas da província, onde a moral existe guardada em decrépitos provérbios, como em frascos – dizem os velhos, com um ingénuo horror: mulher gulosa, bicha manhosa.
Os árabes explicam certas inferioridades das mulheres, pelo hábito de estarem passivamente encruzadas, roendo açúcar. Nas artes realistas, o amor dos doces explica muitas circunstâncias de temperamento: evite-se a mulher que depois de comer açúcar ou folhados ou rebuçados, humedece a pequeninos toques o meio dos lábios com a ponta da língua. É um sintoma. O realismo ensina a conhecer a personalidade interna pelas exterioridades do corpo: assim por exemplo que toda a mulher evite e desdenhe o homem que tiver os cantos da boca humedecidos e amarelados – é um covarde, um falso, um espírito de pequenas tiranias.
Lisboa é uma cidade gulosa, como Paris é uma cidade revolucionária. Paris cria a ideia e Lisboa o pastel. Daí a grande quantidade de doenças de estômago e de maus dentes. A deterioração pelo doce começa aos quatro anos. O sangue vai perdendo as suas qualidades de vitalidade activa, sólida e progressiva: e alimentado a massa, ovos, nata, dá estes corpos débeis e estes caracteres amolecidos. Nas meninas o estômago assim habituado debilita-se, derranca-se como se diz na aldeia, e todo o organismo do corpo e da vontade tende a morrer.
Outra doença a toilette: doença indirecta e grave… Com os penteados complicados eriçados, insólitos, em forma de capacete, de fronha, de chalet e de concha, com todos os segredos tenebrosos que põem por baixo para sustentar, erguer a construção inclemente – acumulam sobre a cabeça um fardo, uma trouxa, que não deixa arejar o crânio – de tal sorte que a transsudação acumulada à raiz do cabelo, penetra, entorpece, adoece, . Ouve-se-lhe dizer quase sempre – Sinto hoje um peso na cabeça! É o fardo. É o cabelo oprimido, tiranizando; é a inflamação lenta do crânio, sem ar, amolentado, como um corpo que se não despe.
Lisboa é a cidade onde as meninas mais se apertam e espartilham: ora o espartilho que destrói a beleza da linha, a melodia das curvas naturais é – dizem os velhos médicos rindo assepticamente, – um mal inextinguível. Antes de tudo dificulta a circulação, a respiração e a digestão. Toca as três causas da vida.
De modo que com os músculos sem exercício:
Os pulmões sem bom ar;
O estômago sem carne;
A cabeça abafada
A circulação comprimida;
A digestão estrangulada;
Uma pobre menina arrasta a morte fatalmente, como uma cauda.
Além disso destrói a sua beleza, a vivaz mocidade e a graça: por aquelas causas a pele torna-se amarela, os olhos cercam-se de um pisado cor de bistre.
Os lábios descoram, secam-se e gretam, as orelhas despegam-se do crânio, o corpo corcova-se, o nariz afila, as mãos humedecem –e assim, na forte idade da florescência e na expansão da vida, uma pobre rapariga de quinze ou dezoito anos está como alguma coisa de amarrotado, de murcho, de seco, de em segunda mão, com aquele aspecto velho e extinto que o pó das estradas dá à virgindade das folhas.
Começam a precisar, para serem bonitas, da luz do gás. Aí sim: no brilho artificial daquela luz crua e opaca que põe em tudo um reflexo sem nuance, uma menina com os cabelos lustrosos e os tules espalhados, tem relevo e preciosidade. Mas que venha ao outro dia, a transparente, fina, inteligente luz do dia: então as fraquezas destacam: os cabelos chamuscados do ferro de frisar estão secos e cor de rato, apele tem laivos rosados, os beiços são como um bago de maçã esprimida, o nariz tem na cartilagem que o liga ao rosto um vinco escuro, e a boca encova… Ai! Páris não lhes daria a maçã.

In, “As Farpas”, Eça de Queiroz,/Ramalho Ortigão