Os snobs que oferecem jantares ocupam um lugar muito importante na sociedade inglesa e é extremamente árdua a tarefa de os descrever. Houve uma época da minha vida em que a consciência de ter consumido a comida de alguém me tornava opaco aos seus defeitos e falar mal dessa pessoa era, para mim, um acto de maldade e uma quebra do dever de hospitalidade.
Mas, por que razão havia uma perna de carneiro de nos cegar ou um pregado com molho de lagosta de nos fechar para sempre a boca? À medida que envelhecem, os homens vêm com mais nitidez os seus deveres. Recuso-me a continuar a ser ludibriado por uma fatia de carne de veado, por mais apetitosa que seja; e quanto a ficar mudo com o pregado e o molho de lagosta, claro que fico: as boas maneiras ordenam-me que assim seja até ter engolido a comida – mas não depois. Logo que as vitualhas começam a ser discutidas e John me retira o prato, a minha língua desata-se. Não acontece o mesmo convosco, se tiverdes um vizinho de mesa agradável? (…)

(…) Mas o que é, afinal, a verdadeira hospitalidade? Infelizmente, meus queridos amigos e irmãos snobs, como é raro a encontrarmos! Quando um dos nossos amigos nos convida para jantar, serão os seus amigos desinteressados? Pergunto isto porque é algo com que me cruzei muitas vezes. Quererá o vosso anfitrião algo de vós? Eu, por exemplo, não tenho um feitio desconfiado, mas o facto é que, quando Hookey está prestes a publicar uma nova obra, convida os críticos todos para jantar; que quando Walker tem os quadros prontos para a exposição, fica, de repente, extremamente hospitaleiro e convida os amigos que tem na imprensa para comer um costeleta e beber um copo de Sillery. O velho Hunks, esse sovina que morreu recentemente (deixando o dinheiro à governanta) viveu muitos anos à grande e à francesa limitando-se a anotar, na casa de todos os seus amigos, os nomes de família e os nomes de baptismo de todos os seus filhos. Mas embora possamos ter a nossa opinião pessoal sobre a hospitalidade dos nossos conhecidos, e embora aqueles que nos convidam por motivos sórdidos sejam definitivamente snobs que nos oferecem jantares, o melhor é nunca investigarmos muito profundamente os motivos por que o fazem. A cavalo dado não se olha o dente. Afinal de contas, a intenção de quem nos convida para jantar não é, com certeza, insultar-nos.
Devo, no entanto, confessar que conheço alguns tipos nesta cidade que se consideram realmente ofendidos e insultados se o jantar ou os convivas não forem do seu agrado. Há o caso de Guttleton, que janta um casa um xelim de carne de vaca da loja do cozinheiro mas que, se for convidado para uma casa onde não haja ervilhas no fim de maio, ou pepinos em Março, juntamente com o pregado, acha que o convite foi um insulto. “Deus dos céus!”, diz, “qual é a intenção dos Forker ao convidarem-me a mim, para um jantar familiar? Carneiro posso eu comer em casa”; ou ” Que impertinência mais infernal é esta dos Spooner comprarem entrées na pastelaria, sabendo bem que vou ficar desiludido com as histórias que contam sobre o seu cozinheiro francês?” Depois, temos o caso de Jack Puddington – um dia destes vi esse tipo honesto verdadeiramente furioso, porque quis a sorte que Sir John Cover o convidasse para reunir-se ao mesmo grupo com quem já tinha estado na casa do coronel Cramley, no dia anterior, e não tinha ainda preparado novas histórias com que entreter essas pessoas. pobres snobs que oferecem jantares!… Nem sabeis o pouco agradecimento que recebeis por todos os vossos esforços e pelo dinheiro que gastais! Nem vos passa pela cabeça como nós, os snobs que jantam fora, troçamos dos vossos cozinhados e desprezamos o vosso pobre vinho branco e ficamos perplexos com o vosso champanhe de tuta-e-meia. Sabemos que os pratos de hoje são réchauffées do jantar de ontem e reparamos que alguns pratos são levantados da mesa intactos para que possam fazer parte do banquete de amanhã. Pela minha parte, sempre que vejo o chefe dos criados particularmente ansioso por escamoter um fricandó ou um manjar branco, chamo-o e faço questão de o massacrar com uma colher. Todos estes comportamentos fazem com que sejamos populares junto dos snobs que oferecem jantares. Sei que um amigo meu fez uma sensação prodigiosa na boa sociedade anunciando, à propos de certos pratos que lhe eram oferecidos, que nunca come geleia de carnes frias excepto em casa de Lord Tittup e que o chef de Lady Jiminy é o único homem de Londres que sabe preparar um parto com os devidos acompanhamentos – filet en serpenteau ou suprême de volaille aux truffes.

in, O Livro dos Snobs, W. M. Thackeray

O Canto da Mesa, Paul Chabas