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(…) Entre as singularidades dos costumes extremamente artificiais do mar, não é das menores observar que, enquanto ao ar livre da coberta alguns oficiais, se provocados, enfrentam ousadamente e desafiam a autoridade do capitão, na cabina do comandante, em volta da mesa do jantar alguns momentos depois, esses mesmos oficiais, embora na proporção de um para um, tomam um  ar inofensivo, quiçá humilde e deprecatório, quando o capitão se senta à cabeceira da mesa; isto é maravilhoso e chega a ser extremamente cómico. Por que motivo esta diferença? Um problema? Talvez não! Ter sido Baltasar, rei todo-poderoso da Babilónia e depois ter sido simplesmente Baltasar, Baltasar que não é altivo mas cortês… sim, isto denuncia uma certa dose de grandeza mundana. Mas aquele que partilha o seu jantar com os convivas num espírito de inteligente equidade pode abandonar por um momento os sinais indiscutíveis do seu poderio; o seu reino suplanta então o próprio Baltasar, porque Baltasar não é maior. Aquele que alguma vez soube receber condignamente os seus convidados à mesa sabe o que é ser um césar… É este um dos irresistíveis sortilégios do czarismo social. Ora, se acrescentarmos a esta supremacia a supremacia que confere o posto de capitão, aquela singularidade da vida do mar fica esclarecida.
Na sua mesa incrustada de marfim, Ahab presidia como um leão-marinho de juba branca sobre um banco de coral, rodeado pelos seus agressivos mas diferentes leõezinhos. Cada oficial esperava a sua vez de ser servido. Diante de Ahab comportavam-se como criancinhas; e contudo não havia no capitão, o mais ténue vestígio de arrogância social. Como se um pensamento único os comandasse, os seus olhos atentos estavam fixados na faca de trinchar que o velho manobrava. Creio que nada deste mundo os convenceria a profanar a solenidade do momento, ainda que fosse para proferir uma inocente observação sobre o estado do tempo. Não! E quando, estendendo o garfo e a faca entre os quais se encontrava uma fatia de carne, Ahab  servia o prato de Starbuck, o imediato recebia a sua ração como se recebesse uma esmola; e cortava-a delicadamente, sobressaltando-se se por deslize a faca raspava o prato; e mastigava-a em silêncio; e engoli-a com circunspecção. Porque, tal como o banquete da coroação em Frankfurt, onde o imperador da Alemanha janta com os sete eleitores imperiais, estas refeições na cabina eram solenes e comidas em silêncio. (…)

(…) Em estranho contraste com o quase intolerável constrangimento que reinava na mesa do capitão, encontrava-se a liberdade e o à-vontade dos arpoadores. Enquanto os oficiais pareciam temer o próprio som das maxilas a ranger, os arpoadores alimentava-se ruidosamente. Comiam como lordes; enchiam os ventres como navios a carregar os porões de especiarias num porto indiano. Queequeg e Tashtego possuíam um tão desordenado apetite que, para preencher as lacunas causadas pela refeição precedente, o pálido Dough-Boy era muitas vezes forçado a trazer uma grande posta de carne salgada que mais parecia um boi inteiro. E se não se apressava a trazer aquele reforço, Tashtego tinha uma maneira peculiar de acelerar-lhe o andamento, espetando-lhe um garfo no rabo, como se fosse um arpão. E de certa vez, Dagoo, tomado de um súbito impulso, refrescou a memória de Dough-Boy mergulhando-lhe a cabeça numa enorme malga vazia, enquanto Tashtego, de faca em punho traçava grandes círculos sobre a cabeça do desgraçado como se estivesse a pontos de escalpelá-lo. O despenseiro era um homenzinho muito nervoso, engendrado por um padeiro falido e por uma enfermeira. colocado entre o terrível e sombrio Ahab e as tumultuosas visitas dos três selvagens, Dough-Boy passava a vida a tremer. Geralmente, depois de ter fornecido aos arpoadores tudo quanto eles reclamavam, ia fechar-se na sua pequena despensa e ficava a espreitá-los pelas persianas da porta até acabarem a refeição. (…)

In “Moby Dick”, Herman Melville


Blue (Moby Dick), Jackson Pollock

(…) O chá japonês, servido invariavelmente sem leite e sem açúcar, que lhe prejudicariam o aroma, é a bebida mais suavemente agradável que possa oferecer-se ao nosso paladar (não de todos porém, mas um paladar sentimental, um tanto sonhador… que nisto dos nossos órgãos de sentir há temperamentos, aptidões afectivas características…). O guyokuró, por exemplo, que é o mais celebrado chá de Uji e de todo o Japão, instila tais subtilezas balsâmicas de sabor, que mais parece um perfume; poderia dizer-se que uma maravilhosa alquimia conseguiu liquefazer os aromas das flores – flores dos jardins, flores silvestres –, transferindo do olfacto ao paladar a impressão do gozo. Assim  é o guyokuró; claro está que as palavras não podem traduzir senão por comparação as emoções sentidas; e esta, a do agridoce deliciosíssimo que  nos fica nos lábios, persistindo, como na memória persiste uma reminiscência, uma saudade, é incomparável… (…)

In, “O Culto do Chá”, Wenceslau de Moraes

Fotografia de Kevin Best: http://bestshots.com.au/flash/home_splash.html

As meninas solteiras. Vejamos o tipo geral de Lisboa: é uma pessoa magrita, amarelada, com um andar débil, ligeiramente ondulado, um grande puff no vestido, penteado difícil e espesso, um pequeno chapéu, o olhar sem ingenuidade, sem hesitação e sem temor. O primeiro sinal saliente é a debilidade e a anemia. Taine diz, pintando o sólido vigor inglês – que o primeiro dever de uma menina é ter saúde. É. A saúde é a explosão física da inocência. À saudável perfeição do corpo corresponde a lúcida simplicidade do espírito. Mens sana en corpore sano. Uma pele fresca e sanguínea diz um pensamento casto e verídico. Músculos que jogam livremente, busto direito, beiços vermelhos, construção viva – indicam juízo simples, consciência recta e alma fresca A palidez, a curvatura, as olheiras, o deprimido , o murcho – mostram um ser possuído de sensibilidade, de histérico, de apetites, de ideias subtis e profanas, de excitações e de nevroses. Ora entre nós, as meninas não têm saúde. Anémicas, débeis, descoradas, sem sangue, sem músculos, sem força – umas padecem de nervos, outras de estômago, outras do peito, e todas são cloróticas como seres que estão longe do sol. (…)
(…) Depois não comem: é raro ver uma menina alimentar-se rudemente como é lógico, de uma forte sopa, roastbeef e vinho. Comem doce e alface. Jantam as sobremesas. O amor da gulodice, do açúcar, do doce, das natas, é uma diminuição de força. Os antigos moralistas atribuía-lhe mesmo uma influência má nos costumes e no carácter: nas casas da província, onde a moral existe guardada em decrépitos provérbios, como em frascos – dizem os velhos, com um ingénuo horror: mulher gulosa, bicha manhosa.
Os árabes explicam certas inferioridades das mulheres, pelo hábito de estarem passivamente encruzadas, roendo açúcar. Nas artes realistas, o amor dos doces explica muitas circunstâncias de temperamento: evite-se a mulher que depois de comer açúcar ou folhados ou rebuçados, humedece a pequeninos toques o meio dos lábios com a ponta da língua. É um sintoma. O realismo ensina a conhecer a personalidade interna pelas exterioridades do corpo: assim por exemplo que toda a mulher evite e desdenhe o homem que tiver os cantos da boca humedecidos e amarelados – é um covarde, um falso, um espírito de pequenas tiranias.
Lisboa é uma cidade gulosa, como Paris é uma cidade revolucionária. Paris cria a ideia e Lisboa o pastel. Daí a grande quantidade de doenças de estômago e de maus dentes. A deterioração pelo doce começa aos quatro anos. O sangue vai perdendo as suas qualidades de vitalidade activa, sólida e progressiva: e alimentado a massa, ovos, nata, dá estes corpos débeis e estes caracteres amolecidos. Nas meninas o estômago assim habituado debilita-se, derranca-se como se diz na aldeia, e todo o organismo do corpo e da vontade tende a morrer.
Outra doença a toilette: doença indirecta e grave… Com os penteados complicados eriçados, insólitos, em forma de capacete, de fronha, de chalet e de concha, com todos os segredos tenebrosos que põem por baixo para sustentar, erguer a construção inclemente – acumulam sobre a cabeça um fardo, uma trouxa, que não deixa arejar o crânio – de tal sorte que a transsudação acumulada à raiz do cabelo, penetra, entorpece, adoece, . Ouve-se-lhe dizer quase sempre – Sinto hoje um peso na cabeça! É o fardo. É o cabelo oprimido, tiranizando; é a inflamação lenta do crânio, sem ar, amolentado, como um corpo que se não despe.
Lisboa é a cidade onde as meninas mais se apertam e espartilham: ora o espartilho que destrói a beleza da linha, a melodia das curvas naturais é – dizem os velhos médicos rindo assepticamente, – um mal inextinguível. Antes de tudo dificulta a circulação, a respiração e a digestão. Toca as três causas da vida.
De modo que com os músculos sem exercício:
Os pulmões sem bom ar;
O estômago sem carne;
A cabeça abafada
A circulação comprimida;
A digestão estrangulada;
Uma pobre menina arrasta a morte fatalmente, como uma cauda.
Além disso destrói a sua beleza, a vivaz mocidade e a graça: por aquelas causas a pele torna-se amarela, os olhos cercam-se de um pisado cor de bistre.
Os lábios descoram, secam-se e gretam, as orelhas despegam-se do crânio, o corpo corcova-se, o nariz afila, as mãos humedecem –e assim, na forte idade da florescência e na expansão da vida, uma pobre rapariga de quinze ou dezoito anos está como alguma coisa de amarrotado, de murcho, de seco, de em segunda mão, com aquele aspecto velho e extinto que o pó das estradas dá à virgindade das folhas.
Começam a precisar, para serem bonitas, da luz do gás. Aí sim: no brilho artificial daquela luz crua e opaca que põe em tudo um reflexo sem nuance, uma menina com os cabelos lustrosos e os tules espalhados, tem relevo e preciosidade. Mas que venha ao outro dia, a transparente, fina, inteligente luz do dia: então as fraquezas destacam: os cabelos chamuscados do ferro de frisar estão secos e cor de rato, apele tem laivos rosados, os beiços são como um bago de maçã esprimida, o nariz tem na cartilagem que o liga ao rosto um vinco escuro, e a boca encova… Ai! Páris não lhes daria a maçã.

In, “As Farpas”, Eça de Queiroz,/Ramalho Ortigão

Nunca eu teria seguido César até aos Bretões,
E facilmente Florus me teria arrastado para a taberna
pois mais odiosa me será sempre a triste névoa do Norte
Do que o solícito povo das pulgas do Sul.
E a vós, tabernas, de modo ainda mais amável agora
(vos saúdo,
Osterias, como o romano justamente vos chama:
pois hoje me mostraste a amada, acompanhada pelo tio
Que Há tanto tempo, para me ter a bela engana.
Aqui estava à nossa mesa, rodeada por companheiros
(Alemães,
E além o tesouro ao lado da mãe se sentou.
E virou-se para cá e para lá, e conseguiu
Que eu visse a metade ora do seu rosto, ora da sua nuca.
Falava mais alto do que é costume entre as Romanas,
(servia-me,
Olhava-me de lado, enchia e falhava o copo;
O vinho corria sobre a mesa e ela, com dedo gracioso,
desenhava círculos húmidos na folha da madeira.
Entrelaçava o meu nome com o seu, e eu, ansioso,
Fixei sempre o seu dedo, e ela reparou em mim.

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Quando cedeu ao nobre lásion, o vigoroso rei dos Cretenses,
O doce segredo do seu corpo imortal.
Como se regozijou Creta, pois o leito nupcial da Deusa
Estava repleto de espigas e o campo pejado de trigo.
Mas o resto do mundo passava fome, pois no deleite
Do amor Ceres faltava ao seu belo ofício.                                                                                                                                    Cheio de espanto o iniciado ouviu a lenda,
Fez sinal à amada – Entendes tu agora , amor, o sinal?
Segue-me depressa até ao canavial no fundo da vinha,
O nosso prazer não traz perigo ao mundo.

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Porque não vieste, amado, hoje à vinha?
Como te prometi esperei por ti a sós.
“Querida, já eu lá estava, quando por sorte vi o teu tio
Que com esforço se virava para cá e para lá entre as cepas.
De mansinho me escapei!” – Oh, como foste enganado!
Era apenas um espantalho o que te expulsou! Foi ele que
Ergueu, zeloso, a figura com canas e roupas velhas –
Ah!, eu própria o ajudei para meu desgosto.
Agora cumpriu-se o seu desejo: afugentou
Hoje o pássaro mais solto que lhe rouba o jardim
(e a sobrinha.

In, Erotica Romana, J. W. Goethe

Bacanal, Michel-Ange Houasse


Os snobs que oferecem jantares ocupam um lugar muito importante na sociedade inglesa e é extremamente árdua a tarefa de os descrever. Houve uma época da minha vida em que a consciência de ter consumido a comida de alguém me tornava opaco aos seus defeitos e falar mal dessa pessoa era, para mim, um acto de maldade e uma quebra do dever de hospitalidade.
Mas, por que razão havia uma perna de carneiro de nos cegar ou um pregado com molho de lagosta de nos fechar para sempre a boca? À medida que envelhecem, os homens vêm com mais nitidez os seus deveres. Recuso-me a continuar a ser ludibriado por uma fatia de carne de veado, por mais apetitosa que seja; e quanto a ficar mudo com o pregado e o molho de lagosta, claro que fico: as boas maneiras ordenam-me que assim seja até ter engolido a comida – mas não depois. Logo que as vitualhas começam a ser discutidas e John me retira o prato, a minha língua desata-se. Não acontece o mesmo convosco, se tiverdes um vizinho de mesa agradável? (…)

(…) Mas o que é, afinal, a verdadeira hospitalidade? Infelizmente, meus queridos amigos e irmãos snobs, como é raro a encontrarmos! Quando um dos nossos amigos nos convida para jantar, serão os seus amigos desinteressados? Pergunto isto porque é algo com que me cruzei muitas vezes. Quererá o vosso anfitrião algo de vós? Eu, por exemplo, não tenho um feitio desconfiado, mas o facto é que, quando Hookey está prestes a publicar uma nova obra, convida os críticos todos para jantar; que quando Walker tem os quadros prontos para a exposição, fica, de repente, extremamente hospitaleiro e convida os amigos que tem na imprensa para comer um costeleta e beber um copo de Sillery. O velho Hunks, esse sovina que morreu recentemente (deixando o dinheiro à governanta) viveu muitos anos à grande e à francesa limitando-se a anotar, na casa de todos os seus amigos, os nomes de família e os nomes de baptismo de todos os seus filhos. Mas embora possamos ter a nossa opinião pessoal sobre a hospitalidade dos nossos conhecidos, e embora aqueles que nos convidam por motivos sórdidos sejam definitivamente snobs que nos oferecem jantares, o melhor é nunca investigarmos muito profundamente os motivos por que o fazem. A cavalo dado não se olha o dente. Afinal de contas, a intenção de quem nos convida para jantar não é, com certeza, insultar-nos.
Devo, no entanto, confessar que conheço alguns tipos nesta cidade que se consideram realmente ofendidos e insultados se o jantar ou os convivas não forem do seu agrado. Há o caso de Guttleton, que janta um casa um xelim de carne de vaca da loja do cozinheiro mas que, se for convidado para uma casa onde não haja ervilhas no fim de maio, ou pepinos em Março, juntamente com o pregado, acha que o convite foi um insulto. “Deus dos céus!”, diz, “qual é a intenção dos Forker ao convidarem-me a mim, para um jantar familiar? Carneiro posso eu comer em casa”; ou ” Que impertinência mais infernal é esta dos Spooner comprarem entrées na pastelaria, sabendo bem que vou ficar desiludido com as histórias que contam sobre o seu cozinheiro francês?” Depois, temos o caso de Jack Puddington – um dia destes vi esse tipo honesto verdadeiramente furioso, porque quis a sorte que Sir John Cover o convidasse para reunir-se ao mesmo grupo com quem já tinha estado na casa do coronel Cramley, no dia anterior, e não tinha ainda preparado novas histórias com que entreter essas pessoas. pobres snobs que oferecem jantares!… Nem sabeis o pouco agradecimento que recebeis por todos os vossos esforços e pelo dinheiro que gastais! Nem vos passa pela cabeça como nós, os snobs que jantam fora, troçamos dos vossos cozinhados e desprezamos o vosso pobre vinho branco e ficamos perplexos com o vosso champanhe de tuta-e-meia. Sabemos que os pratos de hoje são réchauffées do jantar de ontem e reparamos que alguns pratos são levantados da mesa intactos para que possam fazer parte do banquete de amanhã. Pela minha parte, sempre que vejo o chefe dos criados particularmente ansioso por escamoter um fricandó ou um manjar branco, chamo-o e faço questão de o massacrar com uma colher. Todos estes comportamentos fazem com que sejamos populares junto dos snobs que oferecem jantares. Sei que um amigo meu fez uma sensação prodigiosa na boa sociedade anunciando, à propos de certos pratos que lhe eram oferecidos, que nunca come geleia de carnes frias excepto em casa de Lord Tittup e que o chef de Lady Jiminy é o único homem de Londres que sabe preparar um parto com os devidos acompanhamentos – filet en serpenteau ou suprême de volaille aux truffes.

in, O Livro dos Snobs, W. M. Thackeray

O Canto da Mesa, Paul Chabas

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