(…) Há muitos anos que era um perito na ciência do faro. Era da opinião de que o olfacto poderia experimentar prazeres iguais aos da audição e da visão, sendo cada um desses sentidos susceptível, por via de uma aptidão natural e de um refinamento superior, de captar novas impressões, de as multiplicar, de as coordenar e com elas compor tudo aquilo que constitui uma obra de arte; e não era, em suma, mais anormal que uma tal arte de seleccionar fluidos odoríficos pudesse existir, não mais do que as outras que separam ondas sonoras ou golpeiam a retina em raios diversamente coloridos; simplesmente, do mesmo modo que uma pessoa não pode distinguir, sem a ajuda de uma intuição particular desenvolvida pelo estudo, uma pintura de um grande mestre de um quadro sem valor, uma ária de Beethoven de uma melodia de Clapisson, também não se previne sem uma iniciação preliminar a primeira impressão de que um bouquet criado por um verdadeiro artista é o mesmo que uma mistela fabricada por um industrial destinada a mercearias e bazares. (…)

(…) Tal como um negociante de vinhos reconhece uma boa colheita apenas por sentir o travo a uma gota só; tal como um vendedor de lúpulo determina, no instante em que fareja um saco, o valor exacto do seu conteúdo; tal como um comerciante chinês revela imediatamente a origem dos chás que cheira, diz em que plantações dos montes Bohea, em que conventos budistas foi cultivado, a época em que as suas folhas foram colhidas, específica o grau de torrefacção, o efeito que lhe adveio da sua vizinhança com a flor da ameixoeira, com a Aglaia, com a Olea fragans, com todos os perfumes que servem para modificar a sua essência, valorizá-la com um toque inesperado, introduzir no aroma um tudo-nada seco o vestígio de flores longínquas e frescas; de modo semelhante bastava a des Esseintes respirar uma pitada de odor para descriminar imediatamente as doses da sua composição, explicar a psicologia da mistura, praticamente nomear o artista que o criara e lhe imprimira a marca inconfundível do seu estilo.
Escusado será dizer que detinha a colecção de todos os produtos empregues pelos perfumistas. Chegava mesmo a possuir o verdadeiro bálsamo de Meca, aquele bálsamo raríssimo que não se encontra senão em certas partes da Arábia Petrea e cujo monopólio pertence ao Grande Sultão.
Sentado agora diante da mesa no quarto de banho, ponderando a criação de um novo aroma, foi acometido por esse momento de bloqueio bem conhecido dos escritores que, depois de meses de inactividade, se aprestam a empreender uma obra nova.
Assim como Balzac, que alimentava a necessidade imperiosa de escurecer uma série de páginas prévias de maneira a vencer a inércia e se pôr a caminho, des Esseintes reconheceu a necessidade de recuperar primeiro a mão em algumas tarefas sem importância; querendo fazer heliotrópio, sopesou frascos de amêndoa e baunilha mas, mudando de ideias, resolveu-se antes a tentar ervilhas-de-cheiro.
As expressões, os procedimentos escapavam-lhe ; hesitou; o elemento dominante nessa fragrância era flor de laranjeira: tentou várias combinações e acabou por dar com o tom exacto ao misturar a flor de laranjeira com a tuberosa e com a rosa, ligando-as por uma gota de baunilha.
As incertezas desapareceram, foi tomado por uma ligeira excitação e sentiu-se pronto para o trabalho. Primeiro misturou um pouco mais de chá, combinando acácia e íris. depois, seguro de si, determinou-se a seguir em frente, a chapar uma nota fulminante cujo estrondo soberbo faria desmoronar o chilreio dessa frangipana astuciosa que se insinuava ainda no seu quarto.
Manejou o âmbar, o almíscar-tonquim, com o seu vigor impressionante, o patchuli, o mais amargo dos perfumes vegetais cuja flor, no seu estado bruto, liberta um bafio a bolor e míldio. Fizesse o que fizesse, não havia como fugir de visões oitocentistas; criolinas e vestidos de folhos rodopiavam diante dos seus olhos; reminiscências da Vénus de Boucher, toda carne, sem ossos, atafulhada de algodão rosa, instalavam-se nas suas paredes; revisitações do romance Thémidore, com a requintada Rosette com a saia arregaçada num desespero cor de fogo, perseguiam-no. Furioso, ergueu-se e, a fim de se libertar, inspirou com todas as forças do peito essa essência pura de espicanardo, tão caro aos orientais e tão desagradável aos europeus por causa dos eu odor demasiado pronunciado a valeriana. Ficou atordoado com a violência do choque. Como sovadas por uma martelada, as filigranas do delicado odor desapareceram. Aproveitou essa pequena trégua para escapar aos séculos defuntos, a esses vapores desusados, para entrar, assim como soía antigamente fazer, em empresas menos limitadas ou mais recentes.
Em outros tempos, apreciava embalar-se em harmonias perfumadas. Usava efeitos análogos aos dos poetas, empregando, por assim dizer, a admirável ordenação de certas obras de Baudelaire, tais como L’Irréparable e Le Balcon, onde o último dos cinco versos que compõem a estrofe é o eco do primeiro, voltando como um refrão para inundar a alma em profundezas de melancolia e langor.
Divagava nos sonhos que lhe evocavam essas estrofes aromáticas, retornando de súbito ao ponto de partida, ao motivo inicial da sua meditação, com o regresso do tema de abertura, que reaparecia a intervalos precisos na orquestração olorosa do poema.
O seu desejo actual era vagabundear por uma surpreendente e variável paisagem, e começava por uma frase, sonora e ampla, abrindo de repente uma escapada pela imensidão do campo. (…)

In “Ao Arrepio”, Joris-Karl Huysmans


Narcissus, John William Waterhouse