Mas os olhos cansados se afadigam
a seguir as evoluções dos peixes,
lestos cardumes que brincam entre eles.
Contudo não é dado a descobrir as inumeráveis
espécies daquele nado sinuoso,
fileiras que se sucedem contra a torrente
do rio e os nomes
de todas estas criaturas de uma espécie
tão prolífica:
não o consente o deus ao qual tocou em sorte
a segunda parte da criação
e a tutela do tridente marinho.
Tu, ó Náiade,
moradora nas margens do rio, revela-me
as famílias
daquele povo coberto de escamas
e elenca-me as fileiras
que nadam no límpido leite
do cerúlio rio.
resplandece entre as ervas subaquáticas
do fundo arenoso a enguia
coberta de escamas, com carnes tenríssimas,
mas cheia de espinhas escondidas,
a qual deve ser servida
não depois das seis horas;
e eis a truta com o dorso constelado
de manchinhas púrpureas
e a boga que não magoa
com pontas de espinhos e a ombrina
que foge à vista com o rápido salto
do seu nado. E tu, ò barbo
sacudido pelos rápidos do sinuoso Sarre
lá onde se ouve o fragor
das suas seis confluências contra os rochosos
pilares de uma ponte,
posto que fluíste num rio de maior fama,
podes mais livremente fazer prova
da habilidade do teu nado
tu mais apetitoso
quando és mais maduro
e, único entre os vivos, te toca
em sorte uma elogiada velhice.
Nem te descurarei, ò salmão,
das carnes de um brilho purpúreo,
tu, cuja larga cauda
faz ouvir aqui e ali os seus golpes
desde o pleno vórtice
até à superfície das espumas,
quando o teu batimento oculto
se propaga até à plácida corrente.
Tu, com o peito coberto de escamas,
quase couraçado, mas liso
na fronte, e destinado prato
numa ceia de árdua escolha,
suportas sem te corromperes,
o tempo de uma longa espera
e distingues-te pelas manchas da cabeça
e o oscilar dos flancos
generosos, enquanto o teu ventre
ondula devido à corpulência do abdómen.
E tu lampreia, pescada
pelos indícios de espuma que deixas,
nas águas da Ilíria e do Danúbio
dos dois nomes, agora
passaste para o nosso rio, de modo que
o amplo Mosela
não fosse privado de uma criatura
a tal ponto famosa.
Mas que tintas te doou a natureza!
Negríssimos pontos
salpicam o teu dorso rodeado
por um semicírculo cor de laranja;
a tua pele lisa
está inteiramente coberta de azul;
tens gordura abundante
até ao meio do corpo, mas a partir daí
até à extremidade da cauda
és hirta de pele seca.
E não te omitirei delícia da mesa farta,
perca, peixe
único de água doce
comparável àqueles do mar,
e digno de competir
com os salmonetes das escamas
avermelhadas
és de facto saborosa
e no teu corpo compacto cada parte
está ligada por segmentos a outras,
separadas todavia por espinhas.
E eis também chamado por brincadeira
com nome próprio latino,
habitante dos pântanos
e aguerrido inimigo das lamentosas rãs
o lúcio que estima residir
em lamacentas caernas subaquáticas
infestadas por ervas palustres:
evitado nas fartas mesas refinadas,
cozinha-se nas tabernas fumarentas
pelas suas acres exalações.
Quem ainda não conhece
as verdes tainhas-de-rio, conforto
dos pobres e os alburnos
presa dos anzóis dos rapazes
e aquele alimento pleubeu,
as savelhas, que crepitam nos borralhos.
E tu que entre as duas espécies
não és uma nem outra e ao mesmo tempo
és uma e és a outra, mas já não és truta
e ainda não és salmão,
ó truta-salmoneja, ambígua entre os dois
peixes
e pescada em idade intermédia?
Também tu mereces digna recordação
entre as fivelas fluviais,
ó gobião, não mais largo do que duas palmas
sem polegares
bem gordo, redondo e ainda mais
quando tens o ventre
cheio de ovas e os barbilhões parecidos
com aqueles do barbo.
Agora serás celebrado tu,
animal marítimo, ó grande esturjão;
é como se tivesses o dorso coberto
de óleo de Ática
considero-te um golfinho de rio,
tão majestoso deslizas sobre as ondas
e com tal força estendes
as partes do teu longo corpo;
protegem-te breves baixios
e ervas aquáticas,
mas quando avanças no rio
com tranquila progressão,
admiram-te as margens verdejantes
a cerúlea turba
dos nadadores, as límpidas águas;
a tua esteira propaga-se
a toda a corrente
e as espumas exteriores correm até
à margem.
Assim, por vezes, uma baleia nas profundezas
do Atlântico
é impelida pelo vento ou pelo próprio
embalo para as costas
da terra firme, o mar entorna-se
transpondo as margens, erguem-se altas
ondas
e os montes circunstantes temem
parecer mais baixos.
Ao invés, esta dócil baleia
do nosso Mosela
está longe de provocar dano,
antes sendo uma grande honra
que se acrescenta ao rio.
Mas basta com o espectáulo
dos cursos de água, das lestas
frotas de peixes e com o elnco
das suas múltiplas fileiras.

In, “O Mosela”,  Ausónio (310-395 D.C.)

As Tentações de Santo António de Jeronimus Bosch (Pormenor do painel da direita)