You are currently browsing the monthly archive for Janeiro 2010.

“O homem rico, dedicado ao ócio e que, mesmo aparentando indiferença, não tem outra ocupação que a de correr no encalço da felicidade; o homem criado no luxo e acostumado, desde a juventude, a ser obedecido; aquele, enfim, que não tem outra profissão que não a da elegância, gozará, sempre, em todas as épocas, de uma fisionomia diferente, inteiramente à parte. O dandismo é uma instituição vaga, tão bizarra quanto o duelo; muito antiga, pois dela César, Catilina, Alcibíades nos dão exemplos impressionantes; muito geral, pois Chateaubriand descobre-a nas florestas e às margens dos lagos do Novo Mundo. O dandismo, uma instituição à margem das leis, tem leis rigorosas a que não estritamente submetidos todos os seus súbditos, quaisquer que sejam, aliás, a impetuosidade e a independência próprias de seu carácter.
Os romancistas ingleses têm, mais que os outros, cultivado o romance da high life, e os franceses que, tal como o Sr. Custine, pretenderam escrever especialmente romances de amor, tiveram, de início e muito judiciosamente, o cuidado de dotar os seus personagens de fortunas suficientemente grandes para poderem pagar sem hesitação todas as suas fantasias, dispensando-os, em seguida, de qualquer profissão. Esses seres não têm outra ocupação a não ser a de cultivar a ideia do belo em sua pessoa, de satisfazer as suas paixões, de sentir e pensar. Dispõem assim, assim, a seu bel-prazer e em grande quantidade, de tempo e dinheiro, sem os quais a fantasia,, reduzida ao estado de devaneio passageiro, dificilmente pode ser traduzida em acção. É bem verdade, infelizmente, que sem tempo livre e sem dinheiro, o amor não passa de uma orgia de pleubeu  ou do cumprimento de um dever conjugal. Torna-se, em vez da atracção ardente ou plena de fantasia, uma repugnante utilidade.
Se falo de amor a propósito do dandismo é porque o amor é a ocupação natural dos que se dedicam ao ócio. Mas o dândiAA arte de surpreender e jamais se surpreender não visa o amor como algo essencial; um crédito ilimitado é o bastante; ele deixa essa grosseira paixão aos vulgares mortais. O dandismo não é nem mesmo, como muitas pessoas pouco sensatas parecem acreditar, um gosto imoderado pela toilette e pela elegância material. Essas coisas não são para o perfeito dândi, senão um símbolo da superioridade aristocrática do seu espírito. Assim a seus olhos, obcecado, acima de tudo, por distinção, a perfeição da toilette está na simplicidade absoluta que é, de facto, a melhor maneira de se distinguir. Que é pois, essa paixão que, transformada em doutrina, fez adeptos poderosos, essa instituição não escrita que formou uma casta tão altiva? É, antes de tudo, a necessidade ardente de se equipar, dentro dos limites exteriores das conveniências, de uma certa originalidade. É uma espécie de culto a si mesmo, que pode sobreviver à busca da felicidade a ser encontrada em outrem, na mulher, por exemplo; que pode sobreviver até mesmo a tudo aquilo que se chama de ilusão. É o prazer de surpreender e a satisfação orgulhosa de jamais se surpreender. Um dândi pode ser um homem que aparenta indiferença, talvez um homem que sofra; mas, nesse último caso, sorrirá como o lacedemónio enquanto era roído pela raposa.
Vê-se que, sob certos aspectos, o dandismo confina com o espiritualismo e com o estoicismo. Mas um dândi não pode nunca ser um homem vulgar. (…)

In, O Dândi – O Pintor da Vida Moderna, Charles Baudelaire


(…) Há muitos anos que era um perito na ciência do faro. Era da opinião de que o olfacto poderia experimentar prazeres iguais aos da audição e da visão, sendo cada um desses sentidos susceptível, por via de uma aptidão natural e de um refinamento superior, de captar novas impressões, de as multiplicar, de as coordenar e com elas compor tudo aquilo que constitui uma obra de arte; e não era, em suma, mais anormal que uma tal arte de seleccionar fluidos odoríficos pudesse existir, não mais do que as outras que separam ondas sonoras ou golpeiam a retina em raios diversamente coloridos; simplesmente, do mesmo modo que uma pessoa não pode distinguir, sem a ajuda de uma intuição particular desenvolvida pelo estudo, uma pintura de um grande mestre de um quadro sem valor, uma ária de Beethoven de uma melodia de Clapisson, também não se previne sem uma iniciação preliminar a primeira impressão de que um bouquet criado por um verdadeiro artista é o mesmo que uma mistela fabricada por um industrial destinada a mercearias e bazares. (…)

(…) Tal como um negociante de vinhos reconhece uma boa colheita apenas por sentir o travo a uma gota só; tal como um vendedor de lúpulo determina, no instante em que fareja um saco, o valor exacto do seu conteúdo; tal como um comerciante chinês revela imediatamente a origem dos chás que cheira, diz em que plantações dos montes Bohea, em que conventos budistas foi cultivado, a época em que as suas folhas foram colhidas, específica o grau de torrefacção, o efeito que lhe adveio da sua vizinhança com a flor da ameixoeira, com a Aglaia, com a Olea fragans, com todos os perfumes que servem para modificar a sua essência, valorizá-la com um toque inesperado, introduzir no aroma um tudo-nada seco o vestígio de flores longínquas e frescas; de modo semelhante bastava a des Esseintes respirar uma pitada de odor para descriminar imediatamente as doses da sua composição, explicar a psicologia da mistura, praticamente nomear o artista que o criara e lhe imprimira a marca inconfundível do seu estilo.
Escusado será dizer que detinha a colecção de todos os produtos empregues pelos perfumistas. Chegava mesmo a possuir o verdadeiro bálsamo de Meca, aquele bálsamo raríssimo que não se encontra senão em certas partes da Arábia Petrea e cujo monopólio pertence ao Grande Sultão.
Sentado agora diante da mesa no quarto de banho, ponderando a criação de um novo aroma, foi acometido por esse momento de bloqueio bem conhecido dos escritores que, depois de meses de inactividade, se aprestam a empreender uma obra nova.
Assim como Balzac, que alimentava a necessidade imperiosa de escurecer uma série de páginas prévias de maneira a vencer a inércia e se pôr a caminho, des Esseintes reconheceu a necessidade de recuperar primeiro a mão em algumas tarefas sem importância; querendo fazer heliotrópio, sopesou frascos de amêndoa e baunilha mas, mudando de ideias, resolveu-se antes a tentar ervilhas-de-cheiro.
As expressões, os procedimentos escapavam-lhe ; hesitou; o elemento dominante nessa fragrância era flor de laranjeira: tentou várias combinações e acabou por dar com o tom exacto ao misturar a flor de laranjeira com a tuberosa e com a rosa, ligando-as por uma gota de baunilha.
As incertezas desapareceram, foi tomado por uma ligeira excitação e sentiu-se pronto para o trabalho. Primeiro misturou um pouco mais de chá, combinando acácia e íris. depois, seguro de si, determinou-se a seguir em frente, a chapar uma nota fulminante cujo estrondo soberbo faria desmoronar o chilreio dessa frangipana astuciosa que se insinuava ainda no seu quarto.
Manejou o âmbar, o almíscar-tonquim, com o seu vigor impressionante, o patchuli, o mais amargo dos perfumes vegetais cuja flor, no seu estado bruto, liberta um bafio a bolor e míldio. Fizesse o que fizesse, não havia como fugir de visões oitocentistas; criolinas e vestidos de folhos rodopiavam diante dos seus olhos; reminiscências da Vénus de Boucher, toda carne, sem ossos, atafulhada de algodão rosa, instalavam-se nas suas paredes; revisitações do romance Thémidore, com a requintada Rosette com a saia arregaçada num desespero cor de fogo, perseguiam-no. Furioso, ergueu-se e, a fim de se libertar, inspirou com todas as forças do peito essa essência pura de espicanardo, tão caro aos orientais e tão desagradável aos europeus por causa dos eu odor demasiado pronunciado a valeriana. Ficou atordoado com a violência do choque. Como sovadas por uma martelada, as filigranas do delicado odor desapareceram. Aproveitou essa pequena trégua para escapar aos séculos defuntos, a esses vapores desusados, para entrar, assim como soía antigamente fazer, em empresas menos limitadas ou mais recentes.
Em outros tempos, apreciava embalar-se em harmonias perfumadas. Usava efeitos análogos aos dos poetas, empregando, por assim dizer, a admirável ordenação de certas obras de Baudelaire, tais como L’Irréparable e Le Balcon, onde o último dos cinco versos que compõem a estrofe é o eco do primeiro, voltando como um refrão para inundar a alma em profundezas de melancolia e langor.
Divagava nos sonhos que lhe evocavam essas estrofes aromáticas, retornando de súbito ao ponto de partida, ao motivo inicial da sua meditação, com o regresso do tema de abertura, que reaparecia a intervalos precisos na orquestração olorosa do poema.
O seu desejo actual era vagabundear por uma surpreendente e variável paisagem, e começava por uma frase, sonora e ampla, abrindo de repente uma escapada pela imensidão do campo. (…)

In “Ao Arrepio”, Joris-Karl Huysmans


Narcissus, John William Waterhouse

No tempo do qual falamos, reinava na cidade um fedor dificilmente imaginável para nós, modernos. As ruas tresandavam a estrume, os pátios interiores a urina, os vãos das escadas a madeira podre e a esterco de ratos, as cozinhas a couve apodrecida e a bodum; as salas não arejadas tresandavam a pó râncido, os quartos de dormir a lençóis besuntados, à humidade dos edredões e ao odor pungente e adocicado dos penicos. Das lareiras vinha um fedor de enxofre, dos laboratórios de curtumes vinha o fedor dos solventes e dos açougues o fedor de sangue coagulado. As pessoas fediam a suor e as roupas não lavadas; da boca vinha um fedor de dentes estragados, dos estômagos um fedor a cebola, e dos corpos, quando já não eram tão jovens como isso, vinha um fedor a queijo velho e leite ácido e doenças tumurosas. Tresandavam  os rios, tresandavam as praças, tresandavam as igrejas, havia fedor sob as pontes e nos palácios. O camponês fedia como o padre, o aprendiz como a mulher do mestre, fedia toda a nobreza, até o rei fedia, fedia como um animal feroz e a rainha como uma cabra velha, no Verão e no Inverno. de facto, no século dezoito ainda não tinha sido posto qualquer limite à acção desagregante das bactérias e, sendo assim, não havia actividade humana, fosse ela construtiva ou destrutiva, ou expressão de vida em ascenção ou em declínio que não fosse acompanhado pelo fedor.

In, O Perfume, Patrick Suskind


Lysistrata Defending the Acropolys, Aubrey Beardsley

Mas os olhos cansados se afadigam
a seguir as evoluções dos peixes,
lestos cardumes que brincam entre eles.
Contudo não é dado a descobrir as inumeráveis
espécies daquele nado sinuoso,
fileiras que se sucedem contra a torrente
do rio e os nomes
de todas estas criaturas de uma espécie
tão prolífica:
não o consente o deus ao qual tocou em sorte
a segunda parte da criação
e a tutela do tridente marinho.
Tu, ó Náiade,
moradora nas margens do rio, revela-me
as famílias
daquele povo coberto de escamas
e elenca-me as fileiras
que nadam no límpido leite
do cerúlio rio.
resplandece entre as ervas subaquáticas
do fundo arenoso a enguia
coberta de escamas, com carnes tenríssimas,
mas cheia de espinhas escondidas,
a qual deve ser servida
não depois das seis horas;
e eis a truta com o dorso constelado
de manchinhas púrpureas
e a boga que não magoa
com pontas de espinhos e a ombrina
que foge à vista com o rápido salto
do seu nado. E tu, ò barbo
sacudido pelos rápidos do sinuoso Sarre
lá onde se ouve o fragor
das suas seis confluências contra os rochosos
pilares de uma ponte,
posto que fluíste num rio de maior fama,
podes mais livremente fazer prova
da habilidade do teu nado
tu mais apetitoso
quando és mais maduro
e, único entre os vivos, te toca
em sorte uma elogiada velhice.
Nem te descurarei, ò salmão,
das carnes de um brilho purpúreo,
tu, cuja larga cauda
faz ouvir aqui e ali os seus golpes
desde o pleno vórtice
até à superfície das espumas,
quando o teu batimento oculto
se propaga até à plácida corrente.
Tu, com o peito coberto de escamas,
quase couraçado, mas liso
na fronte, e destinado prato
numa ceia de árdua escolha,
suportas sem te corromperes,
o tempo de uma longa espera
e distingues-te pelas manchas da cabeça
e o oscilar dos flancos
generosos, enquanto o teu ventre
ondula devido à corpulência do abdómen.
E tu lampreia, pescada
pelos indícios de espuma que deixas,
nas águas da Ilíria e do Danúbio
dos dois nomes, agora
passaste para o nosso rio, de modo que
o amplo Mosela
não fosse privado de uma criatura
a tal ponto famosa.
Mas que tintas te doou a natureza!
Negríssimos pontos
salpicam o teu dorso rodeado
por um semicírculo cor de laranja;
a tua pele lisa
está inteiramente coberta de azul;
tens gordura abundante
até ao meio do corpo, mas a partir daí
até à extremidade da cauda
és hirta de pele seca.
E não te omitirei delícia da mesa farta,
perca, peixe
único de água doce
comparável àqueles do mar,
e digno de competir
com os salmonetes das escamas
avermelhadas
és de facto saborosa
e no teu corpo compacto cada parte
está ligada por segmentos a outras,
separadas todavia por espinhas.
E eis também chamado por brincadeira
com nome próprio latino,
habitante dos pântanos
e aguerrido inimigo das lamentosas rãs
o lúcio que estima residir
em lamacentas caernas subaquáticas
infestadas por ervas palustres:
evitado nas fartas mesas refinadas,
cozinha-se nas tabernas fumarentas
pelas suas acres exalações.
Quem ainda não conhece
as verdes tainhas-de-rio, conforto
dos pobres e os alburnos
presa dos anzóis dos rapazes
e aquele alimento pleubeu,
as savelhas, que crepitam nos borralhos.
E tu que entre as duas espécies
não és uma nem outra e ao mesmo tempo
és uma e és a outra, mas já não és truta
e ainda não és salmão,
ó truta-salmoneja, ambígua entre os dois
peixes
e pescada em idade intermédia?
Também tu mereces digna recordação
entre as fivelas fluviais,
ó gobião, não mais largo do que duas palmas
sem polegares
bem gordo, redondo e ainda mais
quando tens o ventre
cheio de ovas e os barbilhões parecidos
com aqueles do barbo.
Agora serás celebrado tu,
animal marítimo, ó grande esturjão;
é como se tivesses o dorso coberto
de óleo de Ática
considero-te um golfinho de rio,
tão majestoso deslizas sobre as ondas
e com tal força estendes
as partes do teu longo corpo;
protegem-te breves baixios
e ervas aquáticas,
mas quando avanças no rio
com tranquila progressão,
admiram-te as margens verdejantes
a cerúlea turba
dos nadadores, as límpidas águas;
a tua esteira propaga-se
a toda a corrente
e as espumas exteriores correm até
à margem.
Assim, por vezes, uma baleia nas profundezas
do Atlântico
é impelida pelo vento ou pelo próprio
embalo para as costas
da terra firme, o mar entorna-se
transpondo as margens, erguem-se altas
ondas
e os montes circunstantes temem
parecer mais baixos.
Ao invés, esta dócil baleia
do nosso Mosela
está longe de provocar dano,
antes sendo uma grande honra
que se acrescenta ao rio.
Mas basta com o espectáulo
dos cursos de água, das lestas
frotas de peixes e com o elnco
das suas múltiplas fileiras.

In, “O Mosela”,  Ausónio (310-395 D.C.)

As Tentações de Santo António de Jeronimus Bosch (Pormenor do painel da direita)

(…) Des Esseintes contemplava agora, encolhido a um canto da casa de jantar, a tartaruga que rutilava na penumbra.
Sentiu-se perfeitamente feliz; os seus olhos intoxicavam-se com o esplendor das corolas em chamas sobre um fundo de ouro; depois contrariamente ao seu costume, ganhou apetite e mergulhou a sua torrada barrada com uma manteiga única numa taça de chá, uma infusão impecável de Si-a-Fayoune, de Mo-you-tann e de Khansky, , chás amarelos trazidos da China e da Rússia em caravanas especiais.
Ele bebia esse perfume líquido de chávenas em porcelana da China, conhecida como “casca de ovo” por ser tão translúcida e leve, e, tal como não admitia outra coisa que não fossem essas admiráveis taças, do mesmo modo não se servia, no que respeita a talheres, a não ser de prata dourada, um tanto desluzida, a fim de que a prata apareça um tudo-nada por baixo da camada fatigada de ouro, dando-lhe assim laivos de uma sensibilidade antiga, esgotada e moribunda.
Depois de bebido o último trago, voltou para o seu escritório e fez chegar pelo criado a tartaruga que teimava em não se mexer.
Nevava. À luz dos lampiões, lâminas de gelo cresciam nas vidraças azuladas e a geada, como açúcar derretido, cintilava no gargalo dos vidros polvilhados de ouro.
Um silêncio profundo envolvia a pequena casa entorpecida nas trevas. Des Esseintes deixou-se entrar num devaneio; o fogo atestado de troncos enchia a divisão de exalações ardentes; entreabriu a janela.
Assim como uma grande tapeçaria de contra-arminho, o céu levantava-se diante dele, negro e mosqueado de branco. Corria um vento glacial, acelerando o voo desvairado da neve, invertendo a ordem do negro e do branco.
A tapeçaria heráldica do céu tornava-se agora um verdadeiro arminho, branca e mosqueada de negro pelos pontos de noite dispersos entre os flocos de neve.
Voltou a fechar a janela; essa passagem brusca sem transição, do calor tórrido ao gélido frio de pleno inverno estremeceu-o; foi-se aninhar perto do lume e veio-lhe à ideia tomar uma bebida espirituosa para aquecer.
Dirigiu-se à sala de jantar onde, embutido numa divisória, um armário continha uma série de pequenas pipas dispostas lado a lado sobre minúsculas barricas de madeira de sândalo, e cada uma trespassada no baixo-ventre por torneiras de prata.
Ele chamava a essa reunião de barris de licores o seu órgão de boca.
Um cano ligava todas as torneiras e controlava-as com um só movimento, de modo que, uma vez instalado o aparato, bastava um toque num botão dissimulado no revestimento para que todas as pequenas torneiras, ligadas simultaneamente, enchessem de licor os imperceptíveis copos em baixo delas. O órgão podia então ser tocado. As chaves etiquetadas “flauta, corneta,  voz celeste” estavam puxadas, prontas para serem usadas. Des Esseintes bebia uma gota aqui, ali, tocando íntimas sinfonias para si mesmo, procurando alcançar na garganta sensações análogas às que a música concede ao ouvido.
Além do mais, cada licor correspondia – assim o tinha – ao som de um instrumento. O Curaçau seco, por exemplo, correspondia ao clarinete cuja nota é azedete e aveludada; o kummel, ao oboé com o seu timbre sonoro e anasalado; a menta e a anisete, à flauta, ao mesmo tempo açucarada e apimentada, plangente e doce; ao passo que, para completar a orquestra, o kirsch ressoa furiosamente como a trombeta; a genebra e o uísque  arrebatam o palato com os seus ribombos estridentes de cornetins e trombones; a aguardente de bagaço fulmina com os tumultos ensurdecedores das tubas, enquanto rolam os trovões do címbalo e do tambor percutidos com toda a força na pele da boca pelos rakis de Quios e pelos mástiques!
Ele era também da opinião de que a relação poderia ser estendida , que quartetos de corda poderiam funcionar sob o céu palatino, com o violino representado pela aguardente velha, turva e fina, afiada e delicada e delicada; com o alto simulado pelo rum mais robusto, mais retumbante, mais surdo; com o vespreto dilacerante e prolongado, melancólico e carinhoso como o violoncelo; com o contrabaixo, encorpado, sólido e negro como um velho, puro aperitivo amargo. Poder-se-ia mesmo, fosse o desejo formar um quinteto, juntar-lhes um quinto instrumento, a harpa, que saberia imitar bem verosimilmente o sabor vibrante, a nota argentina, destacada e esguia do cominho seco.
A similitude ia ainda mais longe: havia relações tonais na música dos licores. Para citar apenas um exemplo, o Beneditino está, por assim dizer, , como um tom menor do tom maior dos álcoois que as partituras comerciais designam de cartuxa verde.
Uma vez admitidos estes princípios, poderia depois de algumas experiências eruditas, tocar para si próprio, na clave de silêncio, marchas fúnebres mudas de grande pompa, e escutar na boca solos de menta e duetos de vespreto e rum.
Ele chegou mesmo a transferir para a sua mandíbula verdadeiros pedaços de música, respeitando o compositor, passo a passo, executando o seu pensamento, os seus efeitos, as suas subtilezas, através de associações ou contrastes entre licores próximos, através de misturas aproximadas e eruditas.
Outras vezes compunha ele mesmo as melodias, executava pastorais com o benigno licor de groselha que lhe enchia a garganta com trinados perlados de rouxinol; ou com o doce cacao-chouva que cantarola bucólicas xaroposas, tais como os “romances de Estela” e os “Ai! minha mãe, devo contar-te?” de antanho.
Mas, essa noite, des Esseintes não alimentava nenhum desejo de escutar o gosto da música; limitava-se a tomar uma nota ao teclado do seu órgão, a retirar um pequeno copo que enchera com verdadeiro uísque irlandês. (…)

In “Ao Arrepio”, Joris-Karl Huysmans

Alegoria dos Vícios, Antonio Allegri


Bebem dama e cavalheiro,
bebe o clérigo e a senhoria
bebe esta e bebe aquela,
bebe o servo com a criada,
bebe o lesto e bebe o madraço,
bebe o branco e bebe o negro,
bebe o pronto e o hesitante,
bebe o douto e o ignorante,
bebe o pobre e o doente,
bebe o desterrado e o ingrato,
bebe o jovem e o ancião,
bebem bispo e o deão,
bebem a freira com o frade
bebe avó e bebe mãe
bebe esta e bebe este,
bebem cem, mil e o resto.
Duram pouco seis moedas,
quando bebes sem igual
bebem todos sem meta
bebe só a alma alegre.
Sendo assim és amaldiçoado
E não te oferecem uma gotinha.
Quem não nos ama maldito seja
E não seja recordado.

Carmina Burana
Quando Estamos na Taberna (Carme 196)


Tavern Scene from the Series A Rake’s Progress by William Hogarth

Gosto de salada, de canela, de queijo, de pimentos de pasta de amêndoa, do cheiro do feno cortado (gostava que um “nariz” fabricasse esse perfume), de rosas, de peónias, de alfazema, de champanhe, das posições ligeiras em política, de Glenn Gould, de cerveja excessivamente gelada, de almofadas baixas, de torradas, de charutos de Havana, de Handel, de passeios moderados, de peras, de pêssegos brancos ou da vinha, de cerejas, de cores, das esferográficas, de canetas de tinta permanente, de entremets, de sal não refinado, de romances realistas, de piano, de cafés, de Pollock, de Towmbly, de toda a música romântica, de Sartre, de Brecht, de Verne, de Fourier, de Einstein, de comboios, de médoc, de bouzy, de ter moedas, de Bouvard e Pécuchet, de andar de sandálias à noite nas estradinhas do Sudoeste, do cotovelo do Adour visto da casa do doutor L., dos Irmãos Marx, de presunto às sete horas da manhã à saída de Salamanca, etc.
Não gosto: de lulus brancos, de mulheres de calças, de gerânios, de morangos, de clavicórdio, de Miró, de tautologias, de desenhos animados, de Arthur Rubinstein, de villas, de tardes, de Satie, de Bartock, de Vivaldi, de telefonar, de coros infantis, dos concertos de Chopin, das bransles da Borgonha, das danceries da Renascença, de orgão, de M. A. Charpentier, dos seus trompetes e dos seus tímbales, do político-sexual, de cenas, de iniciativas, da fidelidade, da espontaneidade, de serões com pessoas que não conheço etc. Gosto não gosto: isto não tem qualquer importância para ninguém; isto não faz, aparentemente sentido. E no entanto, tudo isto quer dizer: o meu corpo não é o mesmo que o vosso. Assim, nesta espuma anárquica dos gostos e dos desgostos, espécie de sombreado distraído, desenha-se pouco a pouco a figura de um enigma corporal apelando à cumplicidade ou à irritação. Aqui começa a intimidação do corpo que obriga o outro a suportar-me liberalmente, a ficar silencioso e cortês perante prazeres ou recusas que ele não partilha.
(Uma mosca exaspera-me, eu mato-a: matamos o que nos exaspera. Se eu não tivesse morto a mosca, teria sido por puro liberalismo: sou liberal para não ser um assassino.)

Roland Barthes par Roland Barthes


Giovanni Paolo Pannini

Bookmark and Share
Bookmark and Share

Entradas Mais Populares