“…Ao ouvir Lucien saltar da vinha para a estrada, o desconhecido voltou-se, pareceu fascinado pela beleza profundamente melancólica do poeta, pelo simbólico ramo de flores e pelo traje elegante. O viajante assemelhava-se a um caçador que encontra uma presa há muito e em vão procurada. deixou que Lucien se aproximasse, num estilo de marinha, enquanto observava o seu andar fingindo olhar para o fundo da encosta. Lucien que esboçou o mesmo gesto, avistou uma pequena caleche puxada por dois cavalos e um postilhão de pé.
– O senhor deixou passar a diligência, vai perder o seu lugar, a não ser que quira subir para a minha caleche para a alcançar, pois a posta anda mais depressa do que a viatura pública – disse o viajante a Lucien, proferindo estas palavras com um sotaque marcadamente espanhol e acompanhando a sua oferta com uma requintada delicadeza.
Sem esperar pela resposta de Lucien, o espanhol retirou do bolso uma charuteira e apresentou-a, aberta, a Lucien, a fim de que este se servisse.
– Não sou um viajante – respondeu Lucien – e estou demasiado perto do fim da minha corrida para me oferecer o prazer de fumar…
– Está a ser muito severo para consigo próprio – insistiu o espanhol. – Se bem que cónego honorário da catedral de Toledo, fumo, de vez em quando, um charuto. Deus deu-nos o tabaco para adormecer as nossas paixões e as nossas dores…
Parece-me desgostoso, traz pelo menos a insígnia do desgosto na mão, como o triste deus do himeneu. Aceite!… Todos os seus desgostos desaparecerão com o fumo…
E o padre voltou a estender a charuteira de palha com uma espécie de sedução, lançando a Lucien um olhar animado de caridade.”

In “Ilusões Perdidadas”, Honoré de Balzac