(…) – Vamos para aquela mesa debaixo da teletela – disse Syme. – E no caminho levamos um gin.
O gin foi servido em chávenas de louça sem asa. Atravessaram em ziguezague o salão cheio e largaram as bandejas numa mesa de tampo de metal, no canto da qual alguém deixara um lago de guisado, um líquido nojento que parecia vómito. Winston apanhou a xícara de gin, fez uma pausa para ganhar coragem e e engoliu a beberagem de gosto oleoso. Ao limpar as lágrimas dos olhos descobriu de repente que estava com fome. Pôs-se a engolir colheradas do guisado, que entre outros ingredientes tinha cubos de uma massa rosada esponjosa, que devia ser uma carne qualquer. Nenhum dos dois falou enquanto não esvaziaram as marmitas. Na mesa à esquerda de Winston, um pouco para trás, alguém falava rápido, sem parar, uma cantilena áspera, que parecia o grasnar de um pato, e que conseguia sobrepor-se ao falatório da cantina.
– Como vai o dicionário? – perguntou Winston, levantando a voz para se fazer ouvir.
– Devagar – respondeu – Syrne –Estou nos adjectivos. É fascinante.
O rosto iluminara-se-lhe imediatamente com a menção da Novilíngua. Empurrou a marmita para o lado, apanhou com as mãos delicadas o cubo de queijo e o pedaço de pão, e inclinou-se sobre a mesa para poder falar sem gritar.
– A 11ª edição será definitiva – disse ele –  Estamos a dar à língua a sua forma final – a forma que terá quando mais ninguém falar outra coisa. Quando tivermos terminado, pessoas como tu terão de aprende-la de novo. Tenho a impressão de que imaginas que o nosso trabalho consiste principalmente em inventar novas palavras. Nada disso! Estamos é a destruir palavras – às dezenas, às centenas, todos os dias. estamos a reduzir a língua à expressão mais simples. A 11º edição não conterá uma única palavra que possa tornar-se absoleta antes de 2050.
Mordeu vorazmente o pão e engoliu dois bocados. depois continuou a falar, com uma espécie de paixão pedante. O rosto magro e moreno animara-se, os olhos haviam perdido a expressão de chacota e tinha-se tornado quase sonhadores.
– É lindo destruir palavras. Naturalmente a maior parte é nos verbos e adjectivos, mas há centenas de substantivos que podem perfeitamente ser eliminados. Não apenas os sinónimos; os antónimos também. Afinal de contas que justificação há para para a existência de uma palavra que á apenas o contrário da outra? Cada palavra contém em si o contrário. “Bom”, por exemplo, se temos a palavra “bom” para que precisamos de “mau”? “Inbom” faz o mesmo efeito – e melhor, porque é exactamente oposta, enquanto mau não é. Ou ainda, se queres uma palavra mais incisiva para dizer “bom”, para quê dispor de toda uma série de vagas e inúteis palavras como “excelente”, “esplêndido”, etc. e tal? “Plusbom” corresponde à necessidade, ou “dupliplusbom” se queres alguma coisa ainda mais forte. Naturalmente já usamos essas formas, mas na versão final da Novilíngua não haverá outras. No fim, todo o conceito de bondade e maldade será descrito por seis palavras – ou melhor, uma única. Não vês que beleza Winston? Naturalmente foi ideia do grande irmão – acrescentou à guisa de conclusão. (…)

In, 1984, George Orwell

04

I Was Here – Performance with Ketchup, 2009, Cosimo Cavallaro

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Sweet Jesus, Sculpture, Medium: Chocolate , 2005, Cosimo Cavallaro