(…) Comer de mais é um vício romano, mas eu fui sóbrio com voluptuosidade. Hermógenes não teve que modificar nada no meu regime senão, talvez, esta impaciência que me fazia devorar fosse onde fosse e a qualquer hora, a primeira iguaria que me apresentassem, como se quisesse acabar de uma só vez com as exigências da minha fome.. E é claro que um homem rico, que só conheceu a privação voluntária, ou a experimentou apenas a título provisório, como um dos excitantes mais ou menos excitantes da guerra ou da viagem, teria pouca razão para se gabar de não comer de mais. Empanturrar-se em certos dias de festa foi sempre a ambição, a ambição e o orgulho natural dos pobres. Agradava-me o odor de carnes assadas e o ruído de marmitas rapadas nas festas do exército, e que os banquetes do acampamento (ou o que no acampamento era um banquete) fossem o que deveriam ser sempre, uma alegre e rude compensação das privações dos dias de trabalho; tolerava bastante bem o cheiro de frituras das praças públicas no tempo das Saturnais. Mas os festins de Roma causavam-me tanta repugnância e aborrecimento que, se alguma vez julguei morrer durante uma exploração ou uma expedição militar, disse para comigo, como reconforto, que ao menos não tornaria a jantar. Não me faças a injúria de me tornar por um vulgar renunciador; uma operação que se realiza duas ou três vezes por dia e cujo fim é alimentar a vida merece certamente todos os nossos cuidados. Comer um fruto é fazer entrar em si próprio um belo objectivo vivo, estranho, alimentado e favorecido como nós pela terra; é consumar um sacrifício em que nos preferimos às coisas. Nunca trinquei o pão das casernas sem ficar maravilhado por a digestão daquela massa pesada e grosseira poder transformá-la em sangue, em calor, talvez em coragem. Ah! Porque não possui o meu espírito, nos seus melhores dias, mais do que uma parte dos poderes assimiladores de um corpo?
Foi em Roma, durante as longas refeições oficiais, que me aconteceu pensar nas origens relativamente recentes do nosso luxo, nesse povo de cultivadores económicos e soldados frugais, alimentados de alho e cevada, subitamente emporcalhados pela conquista nas cozinhas da Ásia, tragando aquelas comidas complicadas com uma rusticidade de camponeses dominados por fome canina. Os nossos romanos atafulham-se de hortulanas inundam-se de molhos e envenenam-se com especiarias. Um Apício orgulha-se da sucessão dos serviços, desta série de pratos ácidos ou doces, pesados ou subtis, que compõem a bela organização dos seus banquetes; se cda uma das suas iguarias  fosse servida à parte, assimilada em jejum, sabiamente saboreada por um apreciador de papilas intactas, ainda vá. Apresentadas misturadamente, no meio de uma profusão banal e quotidiana, formam no paladar e no estômago do homem que come uma detestável confusão em que os cheiros, os sabores e as substâncias perdem o seu valor próprio e a sua encantadora identidade. Esse pobre Lúcio comprazia-se outrora em confeccionar-me pratos raros; as suas empadas de faisão, com a sua sábia dosagem de presunto e de especiarias,testemunhavam uma arte tão exacta como a do músico ou do pintor; eu lamentava contudo a carne limpa da bela ave.
A Grécia percebia mais disso: o seu vinho resinado, o seu pão guarnecido com sésamo, os seus peixes assados na grelha à beira-mar, desigualmente escurecidos pelo lume e temperados aqui e ali pelo estalido de um grão de areia, satisfaziam puramente o apetite sem rodear de excessivas complicações a mais simples das nossas alegrias. Saboreei em certa espelunca de Egina ou de Falero alimentos tão frescos que se conservavam divinamente limpos, apesar dos dedos sujos do criado da taberna, tão módicos, mas tão suficientes, que parecia conterem sob a forma mais resumida possível qualquer essência de imortalidade. A carne cozida na noite das caçadas tinha também essa qualidade quase sacramental, levava-nos mais longe, às origens selvagens das raças. O vinho inicia-nos nos mistérios vulcânicos do solo, nas riquezas minerais escondidas: uma taça de Samos bebida ao meio-dia, em pleno sol, ou, ao contrário, absorvida por uma noite de Inverno, num estado de fadiga que permite sentir imediatamente na concavidade do diafragma o seu derramamento quente, a sua segurança de escaldante dispersão ao longo das artérias, é uma sensação quase sagrada, por vezes forte de mais para uma cabeça humana; já a não acho tão pura quando sai das adegas numeradas de Roma, e o pedantismo dos grandes conhecedores de bebidas impacientam-me. Mais piedosamente ainda, a água bebida na concha da mão ou mesmo na nascente faz correr em nós o mais secreto sal da terra e a chuva do céu. Mas a própria água é uma delícia que o doente que eu sou só pode gozar com sobriedade. Não importa: mesmo na agonia e misturada com a amargura das últimas poções, esforçar-me-ei por sentir a sua fresca insipidez nos meus lábios.
Fiz uma breve experiência de abstinência de carne nas escolas de filosofia, onde se ensaiam de uma vez para sempre todos os métodos de conduta; mais tarde na Ásia, vi gimnossofistas indianos desviarem a cabeça dos cordeiros fumegantes e dos quartos de gazela servidos na tenda de Osroés. Mas essa prática, a que a tua jovem austeridade encontra encanto, requer cuidados mais complicados que os da própria gula; separam-nos demasiadamente do comum dos homens numa função quase sempre pública e á qual preside a maior parte das vezes, o aparato ou a amizade. Prefiro alimentar-me durante toda a vida com patas gordas e galinhas da índia a fazer-me acusar pelos meus convivas, a cada refeição de uma ostentação de ascetismo. Já tenho tido alguma dificuldade em evitar, com a ajuda de frutos secos ou do conteúdo de um copo lentamente bebido, que os meus convidados percebam que os pratos preparados pelos meus chefes eram mais para eles que para mim, ou que a minha curiosidade por essas iguarias acabava antes da sua. Um príncipe não tem, nestes casos, a latitude de que o filósofo dispõe: não pode permitir-se ser diferente em demasiados pontos ao mesmo tempo, e os deuses sabem que os pontos em que eu me diferençava já eram bastantes, embora estivesse persuadido de que muitos deles seriam invisíveis . Quanto aos escrúpulos religiosos do gimnossofista, ao seu desgosto perante carnes ensanguentadas, impressionar-me-ia mais se eu não perguntasse a mim mesmo em que diferia essencialmente o sofrimento da erva que se corta do dos carneiros que são degolados, e se o nosso horror diante dos animais assassinados não é causado, sobretudo, pelo facto de a nossa sensibilidade pertencer ao mesmo reino. Mas em certos momentos da vida, nos períodos de jejum ritual, por exemplo, ou no decorrer das iniciações religiosas, conheci as vantagens que têm para o espírito, e os perigos também, as diferentes formas de abstinência ou mesmo de inanição voluntária, esses estados próximos da vertigem em que o corpo, em parte deslastrado, entra num mundo para o qual não é feito e que prefigura as frias levezas da morte. Noutras ocasiões, essas experiências permitiram-me apreciar a ideia de suicídio progressivo, da morte por inanição que foi a de alguns filósofos, espécie de deboche negativo em que se vai até ao esgotamento da substância humana. Mas desagradou-me sempre aderir totalmente a um sistema, e não teria querido que um escrúpulo me roubasse o direito de me empazinar de salsicharia se por acaso me apetecesse ou se esse alimento fosse o único fácil de obter. (…)

In, “Memórias de Adriano”, Marguerite Yourcenar

OM001179