(…) Se até aos anos sessenta a lógica que regulava o acto alimentar, para a generalidade dos portugueses, era comer pouco, num regime de penúria alimentar, ou, como diz J. P. Corbeau (2002:26), a lógica “do comer menos”, que frequentemente se tornava na lógica do “sem” alimento, segundo os ritmos e ciclos agrários; a partir de então, mesmo as classes sem grandes recursos começaram a ter acesso a produtos alimentares em abundância relativa e a desenvolver um novo modelo alimentar, que poderíamos designar de “renvanchista”. Com efeito, o aumento generalizado do poder de compra veio liberalizar o acesso não só aos produtos alimentares até então reservados às classes sociais mais abastadas, bem como aos novos produtos e bens alimentares que a industrialização introduziu na cadeia alimentar, designadamente equipamentos electrodomésticos e produtos da indústria alimentar. A acessibilidade a alimentos tradicionais e novos que a modernidade foi liberalizando operou progressivamente a transição da situação de penúria para uma situação de abundância alimentar relativa. O que provocou a emergência de comportamentos e práticas alimentares marcados por uma lógica de exorcização da fome vivida no passado e, simultaneamente, de uma certa vingança social. Comendo em quantidade, até “encher a barriga”, “tirava-se a barriga de misérias”, “comer bem e à francesa”, como se dizia em linguagem popular, era uma forma de reivindicar o direito e o prazer de comer produtos até então reservados às classes abastadas e, simultaneamente, afirmava-se uma certa mobilidade que garantia uma nova identidade social.
este modelo alimentar, , fruto da transição da carência à abundância alimentar, encontrou uma expressão emblemática nos comportamentos dos emigrantes, durante os anos setenta, quando regressavam à comunidade de origem por ocasião das férias. Assumiam práticas e comportamentos alimentares ostentatórios de abundância e de opulência, comprando grandes quantidades de carne, peixe, bebidas e consumindo produtos trazidos dos países de emigração, não só no espaço doméstico, mas também em lugares de visibilidade social. Com o consumo destes produtos lipídicos e de bebidas caloríficas, que no seu imaginário estavam reservados aos privilegiados do sistema social, afirmavam, de forma inconsciente, a vontade de exorcizar a fome vivida no passado e um sentimento de identificação com essas classes sociais, procurando assim uma certa quietude social, de que fala J. P. Corbeau (2001: 130), e a garantia do reconhecimento de mobilidade social no seio da comunidade de origem. (…)

In, “A Modernidade Alimentar”, Policarpo Lopes

42-16964968

Ilustração: Gustave Dore