Respondendo-lhe assim  falou o astucioso Ulisses:
“Alcìnoo, pensa antes noutra coisa! Pois não tenho
semelhança com os imortais, que o vasto céu detêm,
quer pelo corpo quer pela natureza, mas sim com os mortais.
Quem conhecerdes entre os homens com maior fardo
de desgraças a esse me assemelho nos meus sofrimentos.
E longamente eu vos poderia contar todos os males,
todos os que por vontade divina eu tive de aguentar.
No entanto deixai-me jantar, apesar da minha tristeza.
Pois nada existe de mais detestável do que o estômago,
que à força obriga o homem a pensar em comida,
mesmo quando oprimido com tristeza no espírito,
como agora me sinto oprimido; mas de modo incessante
me recorda o estômago a comida e a bebida fazendo-me
esquecer tudo o que sofri, exigindo que o encha.
Quanto a vós, apressai-vos ao surgir da Aurora
para levardes este desgraçado para a sua terra pátria,
depois de tantos males. E que a vida me abandone quando
eu tiver visto os meus haveres, os meus servos e o alto palácio.

In, “Odisseia”, Canto VII, Homero

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