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(…) – Vamos para aquela mesa debaixo da teletela – disse Syme. – E no caminho levamos um gin.
O gin foi servido em chávenas de louça sem asa. Atravessaram em ziguezague o salão cheio e largaram as bandejas numa mesa de tampo de metal, no canto da qual alguém deixara um lago de guisado, um líquido nojento que parecia vómito. Winston apanhou a xícara de gin, fez uma pausa para ganhar coragem e e engoliu a beberagem de gosto oleoso. Ao limpar as lágrimas dos olhos descobriu de repente que estava com fome. Pôs-se a engolir colheradas do guisado, que entre outros ingredientes tinha cubos de uma massa rosada esponjosa, que devia ser uma carne qualquer. Nenhum dos dois falou enquanto não esvaziaram as marmitas. Na mesa à esquerda de Winston, um pouco para trás, alguém falava rápido, sem parar, uma cantilena áspera, que parecia o grasnar de um pato, e que conseguia sobrepor-se ao falatório da cantina.
– Como vai o dicionário? – perguntou Winston, levantando a voz para se fazer ouvir.
– Devagar – respondeu – Syrne –Estou nos adjectivos. É fascinante.
O rosto iluminara-se-lhe imediatamente com a menção da Novilíngua. Empurrou a marmita para o lado, apanhou com as mãos delicadas o cubo de queijo e o pedaço de pão, e inclinou-se sobre a mesa para poder falar sem gritar.
– A 11ª edição será definitiva – disse ele –  Estamos a dar à língua a sua forma final – a forma que terá quando mais ninguém falar outra coisa. Quando tivermos terminado, pessoas como tu terão de aprende-la de novo. Tenho a impressão de que imaginas que o nosso trabalho consiste principalmente em inventar novas palavras. Nada disso! Estamos é a destruir palavras – às dezenas, às centenas, todos os dias. estamos a reduzir a língua à expressão mais simples. A 11º edição não conterá uma única palavra que possa tornar-se absoleta antes de 2050.
Mordeu vorazmente o pão e engoliu dois bocados. depois continuou a falar, com uma espécie de paixão pedante. O rosto magro e moreno animara-se, os olhos haviam perdido a expressão de chacota e tinha-se tornado quase sonhadores.
– É lindo destruir palavras. Naturalmente a maior parte é nos verbos e adjectivos, mas há centenas de substantivos que podem perfeitamente ser eliminados. Não apenas os sinónimos; os antónimos também. Afinal de contas que justificação há para para a existência de uma palavra que á apenas o contrário da outra? Cada palavra contém em si o contrário. “Bom”, por exemplo, se temos a palavra “bom” para que precisamos de “mau”? “Inbom” faz o mesmo efeito – e melhor, porque é exactamente oposta, enquanto mau não é. Ou ainda, se queres uma palavra mais incisiva para dizer “bom”, para quê dispor de toda uma série de vagas e inúteis palavras como “excelente”, “esplêndido”, etc. e tal? “Plusbom” corresponde à necessidade, ou “dupliplusbom” se queres alguma coisa ainda mais forte. Naturalmente já usamos essas formas, mas na versão final da Novilíngua não haverá outras. No fim, todo o conceito de bondade e maldade será descrito por seis palavras – ou melhor, uma única. Não vês que beleza Winston? Naturalmente foi ideia do grande irmão – acrescentou à guisa de conclusão. (…)

In, 1984, George Orwell

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I Was Here – Performance with Ketchup, 2009, Cosimo Cavallaro

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Sweet Jesus, Sculpture, Medium: Chocolate , 2005, Cosimo Cavallaro


Cuisine does not fit easily into what is accepted as art in the normal sense of the word. one dictionary defines “art” as “the class of objects subjected to aesthetic criteria; works of art collectively, as paintings, sculptures, or drawings: a museum of art; an art collection.” That does not get anywhere near describing wathever it is that Adrià does; another definition, “a skill” at doing a specified thing, tipically one accquired through practice,” covers a great deal but hardly does justice to Adrià’s sublime skills. A definition that takes us a little closer is, “the quality, production, expression, or realm, according to aesthetic principles, of what is beautiful, appealing, or of more than ordinary significance.” Marcel Duchamp preferred another definition, “etymologically speaking the word art means make” – Duchamp liked to think of himself as an artisan but while making his Large Glass he bought a readymade urinal, titled it Fountain, submitted it for an exhibition in 1917 and inadvertently created one of the most famous artworks of the twentieth century. Definitions are not helpful in determining Adrià’s area of competence.
The questions raised by Adrià’s inclusion in documenta make it necessary to figure out what kind of artist he is. I remember telling Juli Soler several years ago what I thought was extraordinary about Adrià was his poetic sensibility, and that there is a lyrical quality in what he does. Now that I’ve had time to think about the question more analytically I’ve begun to ask myself what constitutes this poetry and the nature of the life enhancing episcs he creates. The meals, long sessions filled with a precisely timed sequence of sensations are closer to literature than any other art form. It is not simply that he has taken the best of ingridients and cooked them to perfection, nor that he has created a unique style of preparing and presenting a string of oral pleasures: Adrià’s genius lies in his developing and refining of language of food.

In, Food for Thought, Thought for Food, Richard Hamilton

EAT

The Electric EAT, Robert Indiana



No gabinete do sr. Rodrigo de Moraes Soares deu-se em um dos dias do corrente mês uma das cenas mais comoventes que a ciência portuguesa tem presenciado nos tempos modernos.
Todos os jornais o noticiaram com profunda comoção; poucas pessoas o leram sem se lhes humedecerem os olhos.
O caso tinha sido sagazmente preparado com algum tempo de antecipação. Tinham-se expedido ofícios, consultas, convocações; tinham-se trocado cartas particulares e bilhetes de visita; tinha havido a esse propósito conversações em voz baixa nos vãos das janelas, no Grémio, no último beija-mão no Paço, e de noite a horas mortas no aterro.
As pessoas iniciadas na combinação que se urdia, piscavam-se os olhos quando se encontravam nas ruas, faziam-se sinais, trocavam-se sorrisos entre si, andavam depressa ou tomavam trens à hora, perguntavam uns pelos outros nos grupos do Chiado, e quando se encontravam diziam assim:
– Então?
– Por enquanto nada.
– O homem?
– Anuiu.
– Espera-se aquilo?
– Está visto.
– Passe palavra aos outros para estar tudo a postos.
– Olho vivo!
– Pé leve!
Chegou finalmente o grande dia.
No gabinete do sr. conselheiro Rodrigo de Moraes Soares estava tudo preparado. Principiaram a chegar os sujeitos. Eram pessoas de diferentes hierarquias sociais, mas de carácter firme.
Sentaram-se todos, abriram-se as garrafas e deu-se início ao grande facto científico, constitucional e económico, da prova dos vinhos.
Suas excelências principiaram discretamente pelos vinhos de Espanha e pelo Madeira, depois passaram aos vinhos do Reno, em seguida aos de Bordeaux e de Bourgogne, por último veio o Porto.
Eles estavam concentrados, silenciosos, com os olhos cerrados, o beiço molhado e luzídio. Os copos tilintavam. Havia no ar o perfume do álcool docemente combinado com o do lacre esmagado. As garrafas giravam em roda.
Beberam Madeira, tinto e branco, Xerez de todas as idades, Johannisberg, Liebefraumilch, Hocheimer, Rudesheimer, Markebruwner, Chateau Yquem, Chateau Lafite, Sauterne, Chateaux Margaux, Saint Estefe, Chambertin, Beaune, Graves, Côte Rotie etc., Porto de diferentes novidades, de diversas quintas, de vários processos.
Por fim, tendo bebido tudo, a benemérita comissão dos provadores enxugou os beiços, e retirou silenciosamente a suas casas, compenetrada de respeito pelas instituições e de amor pela pátria.

In, “As Farpas”, Eça de Queiroz,/Ramalho Ortigão

Bacchus

Baco, Guido Reni

Limpo está o chão agora e vazias as mãos e os copos
Colocam-nos grinaldas na cabeça. Oferecem-nos depois
frascos de perfumados unguentos. Na mesa está pousada
já a grande taça cheia de alegrias. Mais vinho está sendo
preparado nas suas ânforas    daquele que nos asseguram
jamais há-de ser ingrato. Eleva-se no ar o sagrado
aroma do incenso. fresca é a água   doce e cristalina
Há cestos com pães dourados    e na mesa digna de tal
banquete   queijos e mel. Ao centro está o altar coberto
de flores – o canto e a festa da casa se apoderam

Xenófanes

bacchanale

Bacanal em Andros, Tiziano Vecellio

The patrons of perfumery have always been considered the most civilised and refined  people in the world. If refinement consists in knowing how to enjoy the faculties wich we possess, then must we learn not only how to appreciate the harmony of colour and form, in order to please the sight; the melody of sweet sounds, to delight the ear; the comfort of appropriate fabrics, to cover the body, and to please the touch; but the smelling faculty must be shown how to grafity itself with the odoriferous products of the garden and the forest.

In, The Art of Perfumery, and the Methods of Obtaining the Odours of Plants, G. W. Sptimus Piesse, 1862

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O Novo Perfume, John William Godward

Facilitam também, a aproximação os banquetes, à mesa,
há qualquer coisa mais, além do vinho, que aí deves buscar.
Muitas vezes braços delicados, os lançou o Amor de rosto afogueado,
sobre os chifres apertados de Baco, bem bebido,
e quando o vinho se espalhou sobre as asas esponjosas de Cupido,
ali fica e permanece prostrado do peso no lugar onde estava;
e logo sacode, à pressa, as penas encharcadas,
mas as próprias gotas sacudidas pelo amor são danosas ao coração.
O vinho põe o coração a jeito e torna-o pronto para a fogueira;
os cuidados desvanecem-se e diluem-se numa boa dose de vinho puro;
chega então, o riso, então o pobre ganha coragem,
então a dor e os cuidados e as rugas desaparecem do rosto,
então a simplicidade, tão rara no nosso tempo, abre os
corações, sacudidos que foram os artifícios pelo deus.
Ali, muitas vezes as moças arrebataram os corações dos rapazes
e Vénus, no vinho, tornou-se fogo no fogo.
Aqui, não te fies tu em demasia nas luzes enganadoras;
na apreciação da formosura, são danosos a noite e o vinho.
Foi à luz do dia e com céu desanuviado que Páris contemplou as deusas,
quando disse a Vénus: “És tu quem leva de vencida as outras duas”.
De noite ficam disfarçados os defeitos e desculpam-se todos os vícios;
essa é a hora que torna formosa qualquer uma;
consulta, antes, a luz do dia a respeito das gemas, da lã tingida de púrpura,
consulta-a  a respeito do rosto e do corpo

In Arte de Amar, Ovídio

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Fresco: Giulio Romano

alain-ducasse-5718S’il me fallait utiliser un seul adjectif pour décrire la cuisine que j’aime pratiquer, j’irais droit au but, sans commentaire descriptif: je la dis “essentielle”. Ce qui demande quelque explication pour ne pas laisser croire qu’elle serait “irremplaçable” ou obligatoirement “indispensable”! Elle est essentielle parce qu’elle ne tient rien pour acquis et repart au début, là où naît le produit le plus frais, le produit cultivé pu élevé avec passion. Ma cuisine en revient toujours aux tout débuts, là où sont les goûts vrais et les parfums premiers, ceux que le savoir-faire et la technique peuvent révéler, exalter exprimer, mais non créer. L’essentiel, c’est de trouver l’équation juste, l’harmonie sincère entre les différents éléments qui composent le plat, de manière à susciter un rencontre authentique, inédite, entre les saveurs, les textures et les odeurs. Le fortuit et l’approximatif ne peuvent y avoir droit de citer, car ce qui importe, audelà de la créativité, c’est la substance, en toute connaissance de cause. Par example un homard bleu femelle, riche en corail et dont la queue plus grosse fournit une chair d’une qualité supérieure; des cots verts aiguilles “de première ramassèe”; des pigeonneaux que l’on étouffe, mais que l’on plume à la main; un foi gras de cannard mulard des Landes âgé de 15 semaines et gavé pendant 15 jours; une boule de mozzarella de “fleur de lait” de bufflonne. Détails? Accessoires? Non! C’est là justement que réside la part d’essentiel. Sans aucune concession. Si mes origines son de Chalosse, si j’ai découvert ensuite la cuisine provençale, si j’ai d´découvert ensuite la cuisine provençale, si mon parcours m’a mené de Monaco à Paris et de Paris à New York, j’ai découvert très tôt le goût des choses et  j’ai appris du même coup à le respecter et à le prèserver, avant de le cuisiner. Je pose chaque fois toujours la même question: comment faire pour “exprimer” le meilleur, pour aller à l’essentiel: non pas dans l’apparence d’une tradition que l’on reproduit avec la plupart de ses clichés, mais dans l’ivention, dans l’effort permanent pour rendre la cuisine perceptible, compréhensible, juste et authentique. Tous les ingrédients d’un plat ont une raison d’être. Je refuse la volute, les rondes de jambe ou la petite pincée de quelque chose pour faire joli. Le décoratif n’a ici pas lieu d’être. Je ne veux pas jouer le jeu du tour de force pour étonner. Je veux que le goût du produit, celui que j’ai choisi pour une raison très précise, soit restitué dans sa totalité, dans son intégrité, autant dans sa totalité, dans son intégrité, autant dans sa préparation que sa présentation. On ne rend pas appétissant: on est appétissan ou ne l’est pas. Cela doit se voir, se sentir tout de suite. Un menu proposé dans un lieu lui-même inscrit dans un terroir comme la Provence se doit de révéler la succulence des produits : de la montagne à la mer, ce sont sont ces goûts premiers, forts parfois jusqu’à l’amer, mais sucrés aussi, gorgés de soleil, ces saveurs lourdes, denses, aux senteurs de terre qui composent cette cuisine des couleurs et des saisons. Le simple fait de manger, lui aussi, est essentiel. La cuisine, dans ses aboutissements les plus raffinés, s’en tient néanmoins à cette vérité première: il faut manger pour vivre. Un restaurant, le plus luxueux soit-il, cést d’abord un endroit où l’on mange. La cuisine, ce sont des choses simples. or pour retrouver le sens de l’essentiel, il faut parfois prendre du recul. Paradoxalement, c’est souvent une certaine distance qui, en obligeant à se détacher d’un savoir accumulé jour après jour depuis des années, permet de continuer à évoluer et à créer. Ma démarche, depuis toujours, ná pas changé: fixer le cap sur l’essentiel. En m’imprégnant de toutes les sensibilités gastronomiques, connaître les plus minutieux tours de main pour mieux pouvoir s’en libérer et partir à la découverte de nouveaux continents culinaires. Est essentiel ce qui est nécessaire, indespensable à l’existence de qualque chose (sa qualité intrinsèque, son excellence) ou de quelqu’un (la santé physique, morale et mentale, l’amour d’une femme…). est essentiel, aussi, ce qui appatient à essence même d’une chose ou d’un individu, ce qui en définit les contours et le contenu: ses caractères, ses attributs. Et lorsqu’il s’agit de cuisine, même si les ingrédients viennent d’horizons différents, son essence réside dans son identité, dans une scrupuleuse vision de la nature des produits et de leurs retrouvailles dans l’assiette: ne traiter que du vrai, de l’authentique, dans les limites exactes d’un artisanat précis soutenu par la haute technologie.

In, Dictionnaire Amoureux de la Cuisine, Alain Ducasse

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Natureza Morta com Perú, Pieter Claesz 1627

(…) Comer de mais é um vício romano, mas eu fui sóbrio com voluptuosidade. Hermógenes não teve que modificar nada no meu regime senão, talvez, esta impaciência que me fazia devorar fosse onde fosse e a qualquer hora, a primeira iguaria que me apresentassem, como se quisesse acabar de uma só vez com as exigências da minha fome.. E é claro que um homem rico, que só conheceu a privação voluntária, ou a experimentou apenas a título provisório, como um dos excitantes mais ou menos excitantes da guerra ou da viagem, teria pouca razão para se gabar de não comer de mais. Empanturrar-se em certos dias de festa foi sempre a ambição, a ambição e o orgulho natural dos pobres. Agradava-me o odor de carnes assadas e o ruído de marmitas rapadas nas festas do exército, e que os banquetes do acampamento (ou o que no acampamento era um banquete) fossem o que deveriam ser sempre, uma alegre e rude compensação das privações dos dias de trabalho; tolerava bastante bem o cheiro de frituras das praças públicas no tempo das Saturnais. Mas os festins de Roma causavam-me tanta repugnância e aborrecimento que, se alguma vez julguei morrer durante uma exploração ou uma expedição militar, disse para comigo, como reconforto, que ao menos não tornaria a jantar. Não me faças a injúria de me tornar por um vulgar renunciador; uma operação que se realiza duas ou três vezes por dia e cujo fim é alimentar a vida merece certamente todos os nossos cuidados. Comer um fruto é fazer entrar em si próprio um belo objectivo vivo, estranho, alimentado e favorecido como nós pela terra; é consumar um sacrifício em que nos preferimos às coisas. Nunca trinquei o pão das casernas sem ficar maravilhado por a digestão daquela massa pesada e grosseira poder transformá-la em sangue, em calor, talvez em coragem. Ah! Porque não possui o meu espírito, nos seus melhores dias, mais do que uma parte dos poderes assimiladores de um corpo?
Foi em Roma, durante as longas refeições oficiais, que me aconteceu pensar nas origens relativamente recentes do nosso luxo, nesse povo de cultivadores económicos e soldados frugais, alimentados de alho e cevada, subitamente emporcalhados pela conquista nas cozinhas da Ásia, tragando aquelas comidas complicadas com uma rusticidade de camponeses dominados por fome canina. Os nossos romanos atafulham-se de hortulanas inundam-se de molhos e envenenam-se com especiarias. Um Apício orgulha-se da sucessão dos serviços, desta série de pratos ácidos ou doces, pesados ou subtis, que compõem a bela organização dos seus banquetes; se cda uma das suas iguarias  fosse servida à parte, assimilada em jejum, sabiamente saboreada por um apreciador de papilas intactas, ainda vá. Apresentadas misturadamente, no meio de uma profusão banal e quotidiana, formam no paladar e no estômago do homem que come uma detestável confusão em que os cheiros, os sabores e as substâncias perdem o seu valor próprio e a sua encantadora identidade. Esse pobre Lúcio comprazia-se outrora em confeccionar-me pratos raros; as suas empadas de faisão, com a sua sábia dosagem de presunto e de especiarias,testemunhavam uma arte tão exacta como a do músico ou do pintor; eu lamentava contudo a carne limpa da bela ave.
A Grécia percebia mais disso: o seu vinho resinado, o seu pão guarnecido com sésamo, os seus peixes assados na grelha à beira-mar, desigualmente escurecidos pelo lume e temperados aqui e ali pelo estalido de um grão de areia, satisfaziam puramente o apetite sem rodear de excessivas complicações a mais simples das nossas alegrias. Saboreei em certa espelunca de Egina ou de Falero alimentos tão frescos que se conservavam divinamente limpos, apesar dos dedos sujos do criado da taberna, tão módicos, mas tão suficientes, que parecia conterem sob a forma mais resumida possível qualquer essência de imortalidade. A carne cozida na noite das caçadas tinha também essa qualidade quase sacramental, levava-nos mais longe, às origens selvagens das raças. O vinho inicia-nos nos mistérios vulcânicos do solo, nas riquezas minerais escondidas: uma taça de Samos bebida ao meio-dia, em pleno sol, ou, ao contrário, absorvida por uma noite de Inverno, num estado de fadiga que permite sentir imediatamente na concavidade do diafragma o seu derramamento quente, a sua segurança de escaldante dispersão ao longo das artérias, é uma sensação quase sagrada, por vezes forte de mais para uma cabeça humana; já a não acho tão pura quando sai das adegas numeradas de Roma, e o pedantismo dos grandes conhecedores de bebidas impacientam-me. Mais piedosamente ainda, a água bebida na concha da mão ou mesmo na nascente faz correr em nós o mais secreto sal da terra e a chuva do céu. Mas a própria água é uma delícia que o doente que eu sou só pode gozar com sobriedade. Não importa: mesmo na agonia e misturada com a amargura das últimas poções, esforçar-me-ei por sentir a sua fresca insipidez nos meus lábios.
Fiz uma breve experiência de abstinência de carne nas escolas de filosofia, onde se ensaiam de uma vez para sempre todos os métodos de conduta; mais tarde na Ásia, vi gimnossofistas indianos desviarem a cabeça dos cordeiros fumegantes e dos quartos de gazela servidos na tenda de Osroés. Mas essa prática, a que a tua jovem austeridade encontra encanto, requer cuidados mais complicados que os da própria gula; separam-nos demasiadamente do comum dos homens numa função quase sempre pública e á qual preside a maior parte das vezes, o aparato ou a amizade. Prefiro alimentar-me durante toda a vida com patas gordas e galinhas da índia a fazer-me acusar pelos meus convivas, a cada refeição de uma ostentação de ascetismo. Já tenho tido alguma dificuldade em evitar, com a ajuda de frutos secos ou do conteúdo de um copo lentamente bebido, que os meus convidados percebam que os pratos preparados pelos meus chefes eram mais para eles que para mim, ou que a minha curiosidade por essas iguarias acabava antes da sua. Um príncipe não tem, nestes casos, a latitude de que o filósofo dispõe: não pode permitir-se ser diferente em demasiados pontos ao mesmo tempo, e os deuses sabem que os pontos em que eu me diferençava já eram bastantes, embora estivesse persuadido de que muitos deles seriam invisíveis . Quanto aos escrúpulos religiosos do gimnossofista, ao seu desgosto perante carnes ensanguentadas, impressionar-me-ia mais se eu não perguntasse a mim mesmo em que diferia essencialmente o sofrimento da erva que se corta do dos carneiros que são degolados, e se o nosso horror diante dos animais assassinados não é causado, sobretudo, pelo facto de a nossa sensibilidade pertencer ao mesmo reino. Mas em certos momentos da vida, nos períodos de jejum ritual, por exemplo, ou no decorrer das iniciações religiosas, conheci as vantagens que têm para o espírito, e os perigos também, as diferentes formas de abstinência ou mesmo de inanição voluntária, esses estados próximos da vertigem em que o corpo, em parte deslastrado, entra num mundo para o qual não é feito e que prefigura as frias levezas da morte. Noutras ocasiões, essas experiências permitiram-me apreciar a ideia de suicídio progressivo, da morte por inanição que foi a de alguns filósofos, espécie de deboche negativo em que se vai até ao esgotamento da substância humana. Mas desagradou-me sempre aderir totalmente a um sistema, e não teria querido que um escrúpulo me roubasse o direito de me empazinar de salsicharia se por acaso me apetecesse ou se esse alimento fosse o único fácil de obter. (…)

In, “Memórias de Adriano”, Marguerite Yourcenar

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(…) Enganas-te nisso – disse D. Quixote – porque não havemos de estar duas horas nestas encruzilhadas sem vermos mais homens armados de que os que vieram sobre Albraca à conquista de Angélica a Bela. – Pronto, pois seja assim – disse Sancho. – E a Deus praza que nos suceda bem e que chegue já o tempo de ganhar essa ilha que tão cara me custa., ainda que morra logo a seguir. – Já te disse, Sancho, que não te dê isso cuidado nenhum, que quando faltar ilha aí está o reino da Dinamarca ou o de Sobradisa, que te assentarão como uma luva; e ainda, que por serem em terra firme, te deves alegrar mais. Mas deixemos isto para o seu tempo, e olha se trazes nesses alforges alguma coisa que comamos, porque vamos depois em busca de algum castelo onde pernoitemos e façamos o bálsamo que eu te disse, porque te juro por Deus que a orelha me está a doer muito. – Trago aqui uma cebola e um pouco de queijo e não sei quantos bocados de pão seco – disse Sancho – mas não são manjares que pertençam a tão valente cavaleiro como vossa mercê. – Que mal o entendes – replicou dom Quixote – Faço-te saber que é honra dos cavaleiros andantes não comer durante um mês, e ainda que comam, seja daquilo que acharem mais à mão; e sabereis isto ao certo, se tivesses lido tantas histórias como eu; que, embora tenham sido muitas, em nenhuma encontrei mencionado que os cavaleiros andantes comessem, a não ser por acaso e em alguns sumptuosos banquetes que lhes davam, e os outros dias viviam do ar. E embora se entendesse que não podiam passar sem comer e sem fazer todos os outros actos naturais, porque com efeito eram homens como nós somos,, há-de entender-se também que , andando o mais do tempo da sua vida pelas florestas e ermos e sem cozinheiro, a sua comida mais ordinária seria de viandas rústicas, tais como as que tu agora me ofereces. Assim que, Sancho amigo, não te apoquente aquilo que a mim me dá gosto, nem queiras tu fazer mundo novo, nem fazer sair a cavalaria andante dos seus gonzos. – Perdoe-me vossa mercê – disse Sancho – que, como não sei ler nem escrever, como já disse antes, não sei nem reflecti sobre as regras da profissão cavalheiresca; e doravante proverei os alforges de todo o género de fruta seca para vossa mercê, que é cavaleiro, e para mim os proverei, pois que o não sou de outras coisas mais voláteis e mais substanciais. – Eu não te disse Sancho – replicou D. Quixote – que seja forçoso aos cavaleiros andantes não comer outra coisa senão essas frutas que dizes mas que o seu passadio devia ser delas e de algumas ervas que achavam pelos campos e eles conheciam e que eu também conheço. – Bom é – respondeu Sancho – conhecer essas ervas; porque segundo estou vendo as coisas, algum dia será mister usar desse conhecimento. E, sacando nisto o que disse que trazia, comeram os dois em boa paz e companhia.

In, “O Engenhoso Fidalgo  Dom Quixote da Mancha”, Miguel de Cervantes

D.Quixote

Dom Quixote Bebendo na Estalagem, Cristobal Valero


(…) Se até aos anos sessenta a lógica que regulava o acto alimentar, para a generalidade dos portugueses, era comer pouco, num regime de penúria alimentar, ou, como diz J. P. Corbeau (2002:26), a lógica “do comer menos”, que frequentemente se tornava na lógica do “sem” alimento, segundo os ritmos e ciclos agrários; a partir de então, mesmo as classes sem grandes recursos começaram a ter acesso a produtos alimentares em abundância relativa e a desenvolver um novo modelo alimentar, que poderíamos designar de “renvanchista”. Com efeito, o aumento generalizado do poder de compra veio liberalizar o acesso não só aos produtos alimentares até então reservados às classes sociais mais abastadas, bem como aos novos produtos e bens alimentares que a industrialização introduziu na cadeia alimentar, designadamente equipamentos electrodomésticos e produtos da indústria alimentar. A acessibilidade a alimentos tradicionais e novos que a modernidade foi liberalizando operou progressivamente a transição da situação de penúria para uma situação de abundância alimentar relativa. O que provocou a emergência de comportamentos e práticas alimentares marcados por uma lógica de exorcização da fome vivida no passado e, simultaneamente, de uma certa vingança social. Comendo em quantidade, até “encher a barriga”, “tirava-se a barriga de misérias”, “comer bem e à francesa”, como se dizia em linguagem popular, era uma forma de reivindicar o direito e o prazer de comer produtos até então reservados às classes abastadas e, simultaneamente, afirmava-se uma certa mobilidade que garantia uma nova identidade social.
este modelo alimentar, , fruto da transição da carência à abundância alimentar, encontrou uma expressão emblemática nos comportamentos dos emigrantes, durante os anos setenta, quando regressavam à comunidade de origem por ocasião das férias. Assumiam práticas e comportamentos alimentares ostentatórios de abundância e de opulência, comprando grandes quantidades de carne, peixe, bebidas e consumindo produtos trazidos dos países de emigração, não só no espaço doméstico, mas também em lugares de visibilidade social. Com o consumo destes produtos lipídicos e de bebidas caloríficas, que no seu imaginário estavam reservados aos privilegiados do sistema social, afirmavam, de forma inconsciente, a vontade de exorcizar a fome vivida no passado e um sentimento de identificação com essas classes sociais, procurando assim uma certa quietude social, de que fala J. P. Corbeau (2001: 130), e a garantia do reconhecimento de mobilidade social no seio da comunidade de origem. (…)

In, “A Modernidade Alimentar”, Policarpo Lopes

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Ilustração: Gustave Dore

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Estou a ler o livro do Paul Roberts: O Fim da Comida. Na capa, à laia de subtítulo, está impressa a seguinte frase: “Os cientistas afirmam que vai faltar comida e que seremos todos vegetarianos em 2050.” Um quadro terrível, quiçá ditado pelo marketing livreiro, mas nem por isso menos perturbador. Imagine-se: vegetarianos e ainda por cima com fome.
O conteúdo, algo catastrófico, é bem fundamentado e tem o condão de alertar-nos para algumas questões prementes que vão certamente influenciar o futuro da nossa relação com os alimentos.
Inevitavelmente vieram-me à ideia os quatro cavaleiros do Apocalipse com a fome à frente, montada no seu cavalo negro em cavalgada desabrida pelos céus minguando tudo à sua passagem.
Talvez por vivermos numa época de abundância “excessiva” e não poucas vezes cruel que o temível cavaleiro continua a pairar sobre nós.
Vejam o trailer desta curiosa película intitulada “Soylent Green” rodado em 1973 e em que pontuam dois nomes grandes do cinema norte-americano: Chalton Heston e  Edward G. Robinson, que teve aqui a sua derradeira representação.
No início dos anos setenta, antecipava-se o ano de 2022 e o futuro da alimentação não podia ser mais caótico. Faltava a comida, até os vegetais. Como muitas vezes no passado, também neste filme, a solução no futuro passava por um dos grandes tabus da humanidade.
Há medos de que nunca nos libertaremos.

Respondendo-lhe assim  falou o astucioso Ulisses:
“Alcìnoo, pensa antes noutra coisa! Pois não tenho
semelhança com os imortais, que o vasto céu detêm,
quer pelo corpo quer pela natureza, mas sim com os mortais.
Quem conhecerdes entre os homens com maior fardo
de desgraças a esse me assemelho nos meus sofrimentos.
E longamente eu vos poderia contar todos os males,
todos os que por vontade divina eu tive de aguentar.
No entanto deixai-me jantar, apesar da minha tristeza.
Pois nada existe de mais detestável do que o estômago,
que à força obriga o homem a pensar em comida,
mesmo quando oprimido com tristeza no espírito,
como agora me sinto oprimido; mas de modo incessante
me recorda o estômago a comida e a bebida fazendo-me
esquecer tudo o que sofri, exigindo que o encha.
Quanto a vós, apressai-vos ao surgir da Aurora
para levardes este desgraçado para a sua terra pátria,
depois de tantos males. E que a vida me abandone quando
eu tiver visto os meus haveres, os meus servos e o alto palácio.

In, “Odisseia”, Canto VII, Homero

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You Are What You Eat is a series of portraits made by examining the interiors of refrigerators in homes across the United States.
For three years I traveled around the country exploring food issues. The more time I spent speaking and listening to individual stories, the more I began to think about the foods we consume and the effects they have on us as individuals and communities. An intense curiosity and questions about stewardship led me to begin to make these unconventional portraits.
A refrigerator is both a private and a shared space. One person likened the question, “May I photograph the interior of your fridge?” to asking someone to pose nude for the camera. Each fridge is photographed “as is.” Nothing added, nothing taken away.
These are portraits of the rich and the poor. Vegetarians, Republicans, members of the NRA, those left out, the under appreciated, former soldiers in Hitler’s SS, dreamers, and so much more. We never know the full story of one’s life.
My hope is that we will think deeply about how we care. How we care for our bodies. How we care for others. And how we care for the land. (…)

Mark Menjivar

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