PG4484Toda a gente, meu irmão Gallion, deseja uma vida feliz; mas quando se trata de ver claramente aquilo que a torna assim, é a confusão total. E não é fácil alcançar a felicidade, mais ainda porque no caso de nos termos enganado no caminho, nos afastamos tanto mais dela quando para ela nos precipitamos com maior ardor. Quando o caminho conduz em sentido contrário, o nosso próprio impulso aumenta a distância. É preciso, pois, começar por definir bem o que é o objecto do nosso desejo, e examinar depois com cuidado o modo mais rápido de nos dirigirmos para ele; se a via é a correcta, dar-nos-emos conta, durante a nossa própria viagem, dos progressos feitos todos os dias, e da nossa aproximação do fim para o qual nos impele o desejo natural.Enquanto errarmos por aqui e por ali sem guia, obedecendo aos rumores  e aos gritos discordantes de homens que nos chamam em direcções opostas, usaremos uma vida que os nossos enganos tornam breve, mesmo se trabalharmos dia e noite para cultivar o bem. Determinemos pois o objectivo para que tendemos e os meios de o alcançar; e não o façamos sem o apoio de um homem experimentado, que conheça bem o caminho no qual avançamos, pois nesta viagem, a situação não é exactamente a mesma que sucede nas outras; nestas últimas há um caminho conhecido, interrogamos os habitantes e eles não nos deixam perder; mas aqui, o caminho mais bem assinalado e mais frequentado é também o mais enganador. É por isso que a primeira coisa a fazer é não seguir, como uma ovelha, o rebanho das pessoas que nos precedem, pois nesse caso encaminhar-nos-íamos não para onde é necessário ir, mas para onde vai a multidão. No entanto nada nos arrasta mais para grandes males do que a conformação à voz pública, o pensar que o melhor está ligado ao assentimento do grande número, de tal modo que vivemos, não de acordo com a razão, mas por espírito de imitação. Daí resulta esse amontoado de pessoas que desabam umas sobre as outras. Um tal estado de coisas surge quando os homens estão demasiado apinhados, e se comprimem mutuamente, e ninguém cai sem arrastar outro na sua queda; os primeiros são a perda daqueles que os seguem. É isso que vemos acontecer na vida: ninguém se engana apenas por si próprio, sendo a causa e o instigador. É prejudicial ligarmo-nos  àqueles que vão à frente. Como cada um prefere acreditar nos outros, mais do que julgar, não se julga nunca, acredita-se sempre, o erro, ao transmitir-se de mão em mão, faz-nos rodopiar e depois cair; perecemos seguindo o exemplo dos outros. Curar-nos-emos na condição de nos separarmos da multidão; porque hoje a multidão toma resolutamente posição contra a razão e defende aquilo que causa a sua infelicidade. Acontece assim aquilo que se vê nos comícios, onde os que designaram os pretores  se espantam de os ver eleitos, quando o vento da popularidade começa a soprar noutra direcção. As mesmas coisas são objecto da nossa aprovação e da nossa censura: tal é o resultado de todo o juízo em que segue a opinião da maioria.
No que diz respeito à vida feliz, não se pode responder como no voto por separação: “Este partido parece-me mais numeroso”, pois, precisamente por isso, é o pior. As coisas humanas não vão tão bem que as melhores soluções agradecem à maioria: a opinião da multidão é indício do pior. Procuremos, pois, aquilo que é o melhor e não o que é mais comum, aquilo que nos colocará, aquilo que nos colocará na posse de uma felicidade eterna e não o que tem a aprovação do vulgar, que é o pior intérprete da verdade; ora, no vulgar, alinham tanto as pessoas com Clâmides, como as pessoas coroadas, pois não olho a cor das vestes com que os corpos estão cobertos; quando se trata de avaliar um homem, não confio nos meus olhos; tenho, para distinguir o verdadeiro do falso, um melhor e mais seguro critério; o bem da alma tem de ser descoberto pela alma.

In, “Da Vida Feliz” , Séneca

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Foto: David Butow