O Pão
Disse-te, Platero, que a alma de Moguer é o vinho, não foi? Não; a alma de Moguer é o pão. Moguer é como um pão de trigo, branca por dentro, como o miolo, e dourada à volta – oh, sol moreno! –  como a branda côdea.
Ao meio dia, quando o sol queima mais, a aldeia inteira começa a fumegar e a cheirar a pinheiro e a pão quente. Abre-se a boca a toda a aldeia. É como uma grande boca que come um grande pão. O pão vai bem com tudo: com o azeite, no gaspacho, com o queijo, com as uvas, para dar sabor a um beijo, com o vinho, com o caldo, com o presunto, com ele mesmo, pão com pão. também sozinho, como a esperança, ou como uma ilusão…
Os padeiros chegam a trote nos seus cavalos, param a todas as portas meio abertas, batem as palmas e gritam: “Padeeeeirooooo!”… Ouve-se o ruído meigo dos pães que, ao cair nos cestos, que braços nus levantam, chocam com os bolos, das fogaças que chocam com as roscas.
E logo os meninos pobres chamam às campainhas das cancelas ou às aldrabas dos portões, chorando longamente lá para dentro: Um bocadinho de pão!…

O Vinho
Platero disse-te que a alma de Moguer é o pão. Não. Moguer é como um copo de vidro grosso e claro, que espera todos os anos, sob o redondo céu azul, pelo seu vinho de ouro. Chegado setembro, se o diabo não molha a festa, enche-se de vinho esta taça, até ao bordo, e derrama-se quase sempre como um coração generoso.
toda a aldeia cheira então a vinho, mais ou menos generoso, e soa a cristal. è como se o sol se oferecesse em líquida formosura por dez reis, pelo gosto de se encerrar no recinto transparente da aldeia branca e de alegrar o seu bom sangue. Cada casa é, em cada rua, como uma garrafa nas prateleiras do Juanito Micalle ou do Realista, quando o poente as toca de sol.
Recordo a fonte da indolência, de Turner, que, no seu amarelo limão, parece toda pintada com vinho novo. Assim Moguer, fonte de vinho que, como o sangue, acode sem fim a cada ferida sua; manancial de triste alegria que, tal como o sol de Abril, sobe todos os anos na Primavera, mas caindo em cada dia.

In, “Platero e eu”, Juan Ramón Jiménez (1914)

Fountain of indolence by Joseph Mallord Turner

Fountain of Indolence, Joseph Turner