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(…) Fevereiro desse segundo ano foi um mês gelado na Provença. Os campos brancos de gelo faziam lembrar o negativo em alto contraste de uma fotografia a preto e branco. A própria natureza parecia invertida. Apenas o salpico de um pequeno pintassilgo, trouxe acidentalmente um toque de cor a essa paisagem desolada em que Cabassac, obsessivamente, se embrenhava. estava a ficar profundamente desesperado. Chegadas as últimas semanas da estação das trufas, ansioso por mais uma visão de Julieta (Não o chamara ela pelo nome, uma  e outra vez, como se tivesse algo de essencial a dizer-lhe?) continuava agora de forma compulsiva , uma manhã e outra e outra. Contudo, durante três semanas a fio não conseguiu encontrar nada. Nem uma única mosca reveladora. Nem uma única trufa fortemente anichada na terra. Os seus sonhos continuaram dispersos, fragmentados, inconsequentes. Nem por uma vez entrou nesse prolongado estado de graça, nessa dispousicioun, como gostava de chamar-lhe.
Uma tarde, para sua grande surpresa, Cabassac deu consigo a bater, a vasculhar as ervas selvagens. tomado de uma frustração absoluta quebrou o ritual, o seu sentido cerimonial de conveniências e começou a chicotear todos os pedaços de vegetação gelada. –Não me digas que desapareceste – murmurava. – Não me digas que voltaste para toda aquela sombra, que te perdeste nesses teus infindáveis disfarces. – Nesse instante Cabassac já não se dirigia nem à mosca nem à trufa, e sim ao coração da sua amada há muito ausente.
Mas teria de esperar que o solo derretesse e que os primeiros tímidos sinais de Primavera se revelassem como inúmeras folhas brotando dos seus pequenos nós. Teria de esperar até que as primeiras amendoeiras bravas tivessem começado a florir, trazendo consigo toda uma horda de abelhas antes de desenterrar a última trufa. Estava entre as raízes de um carvalho que pareciam garras, a uma profundidade de quarenta centímetros. Um “diamante negro” ricamente facetado, como costumam chamar-lhe, aquela trufa especial tinha um aroma selvagem, oleaginoso, provocador. Se fosse possível estabelecer alguma relação entre o aroma de uma determinada trufa e a acuidade do sonho que ela poderia provocar, então esta última trufa, apercebeu-se Cabassac, deveria ser extremamente eficaz. Mas tinha de esperar. Preso a um código de honra provençal que lhe impunha o horário teve de esperar pacientemente durante três dias enquanto a trufa, fechada num recipiente de vidro com três a seis ou mesmo nove ovos frescos, infundia a esses ovos o seu deleitável aroma. respeitando  trindade à sua maneira campestre, esta tradição continuava a ser observada pela maior parte das famílias da região. Cabassac observou-a também, sabendo que desse modo o seu sonho seria ainda mais grandioso.
E foi-o efectivamente. Três noites mais tarde misturou as trufas cortadas aos bocados com três desses ovos caseiros totalmente perfumados e fritou-os muito ao de leve. Sentado à mesa da sua cozinha sombria de tecto alto iluminada por um candeeiro de tecto de luz fraca, deu entrada no seu sacramento pessoal ao comer o brouiado de rabasso num estado de concentração total. Saboreando demoradamente cada garfada, recusou-se a permitir que uma única nota daquele requintado aroma escapasse ao seu palato. Mastigava ao de leve, deixando que a língua encontrasse o caminho para o bolbo aromático. maravilhou-se com aquela misteriosa iguaria a bem mais carnal e suculenta do que qualquer vegetal. porque as trufas, na sua opinião, eram mais a carne de um sacrifício há muito esquecido do que um fungo, como geralmente as consideravam.
Rematando agora o manjar com pequenos goles de um vinho tinto forte, quase granuloso, Cabassac saboreou lentamente este travo com a mesma satisfação com que experimentara o paladar da comida. Deixou-se transportar pela influência das trufas como por uma hipnose gradual, mas completa. A refeição fora leve nessa noite. Na verdade além do brouiado e de duas grandes fatias de pão de centeio com que limpou o prato, não comeu mais nada a não ser um pedacinho de queijo de cabra. Começou de imediato a sentir a tensão a aliviar, os nervos a relaxar. de imediato apaziguado pelo sabor dessa glândula da terra, entrou naquele estado langoroso e fortemente condutor, na tal dispousicioun como ele lhe chamava. (…)

in “Os Sonhos de um Truficultor”, (The Fly-Truffler), Gustaf Sobin

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