(…) A caracterização psicológica da família Schuster é essencialmente construída à volta do casal Schuster e do filósofo Robert Schuster, embora o Prof. Joseph seja o protagonista da tragédia, a qual, no entanto, Bernhard faz aproximar da forma mais moderna do drama de crítica social. É essencial saber que Joseph Schuster é possuidor de uma boa fortuna, de proveniência industrial, e que por isso não exerce o seu trabalho na universidade com fins lucrativos e que, na sociedade de Viena, ocupa aquele lugar no topo que era comum durante a Monarquia e até 1938, entre a alta burguesia judaica. Assim pela fortuna, pela educação e pelo estilo, Joseph é um dandy da sociedade dos anos 30: os seus fatos são exclusivamente comprados em Londres, onde, para ele, existem os melhores alfaiates da Europa; os seus sapatos são exclusivamente comprados em Itália onde, para ele, existem os melhores botiers da Europa, e de tal maneira que, como nos diz a governante, ele possui uma colecção de mais de cem pares; as suas camisas são exclusivamente compradas em Lisboa, para o tratamento das quais Schuster, como fanático da precisão, desenvolveu um conjunto de regras que a governante tem invariavelmente de seguir quando as engoma e quando as dobra. Longe de mim, no entanto, querer dar a ideia de que Schuster é frívolo e mundano. A meta de um dandy é, como se vê por Swann, o refinamento global de toda a personalidade, física e moral: não é só a toilette que deve ser sublime, é a alma acima de tudo que deve estar permanentemente em contacto com o sublime. (…)

In “Os Degraus do Parnaso” – Angústia em Viena num Andar com Vista,  crónica de M.S. Lourenço sobre o poema dramático de Thomas Bernhard “A Praça dos Heróis”, publicada originalmente n’ O Independente.

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Foto: August Sander