É a perícia, a singularidade e a extraordinária capacidade que o homem tem de criar e admirar o sublime e a sua busca pela perfeição que está na base do luxo

46937210 Talvez não seja muito politicamente correcto ou popular afirmá-lo no presente momento, mas não o escondo: sou um apreciador de produtos de luxo e tenho um fraquinho por aquilo que o dicionário define como: “o que se caracteriza pela superior qualidade, pelo elevado preço, pelo requinte de apresentação ou de confecção, pela sumptuosidade dos adereços”.

Deixando de lado o preço, por ser uma consequência inevitável dos restantes atributos, se tudo o mais desaparecesse o mundo seria, em meu entender, um local muito menos interessante e a palavra civilização como a conhe­cemos certamente não existiria, ou então seria algo que tenho dificuldade em imaginar.

É a perícia, a singularidade e a extraordinária capacidade que o Homem tem de criar e admirar o sublime e a sua busca pela perfeição que está na base do luxo. Os excessos e as conotações negativas que a palavra encerra nada mais são do que pecados e fraquezas próprias da natureza humana, na justa medida do que de belo e atraente o conceito comporta.

A necessidade do homem ostentar a sua posição económica, social ou de simplesmente se distinguir dos restantes, ­perde-se no tempo. O que chamamos luxo e as suas ­manifestações: vestuário, adornos, objectos, alimentos ou as belas artes, sempre foram a forma mais refinada e eloquente de ­exprimir essa superioridade.

A  escassez destes produtos relativamente ao desejo e à procura tornou-os inevitavelmente posse privilegiada de poucos, resultando daí a natural ligação ao poder e à riqueza que tem ­alimentado desde as mais prosaicas invejas até ao mais elaborado discurso da “luta de classes”.  Mas para além das filosofias ­circunstanciais, o luxo e as suas criações já demonstraram que uma das suas grandes particularidades reside precisamente na sua capacidade de perdurar ­independentemente da sua origem no tempo e enquadramento social: o anel ­criado para o déspota pelo ourives ­escravo suplanta a ­injustiça do momento para adquirir um valor estético, que vai muito para além da conjuntura em que foi concebido.

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É inerente ao luxo uma beleza primordial causadora de ­admiração e deslumbre que lhe confere um valor quase ­irracional que faz com que perante ele ninguém fique ­indiferente.

Este é o luxo que me fascina, o luxo verdadeiro, inatingível e anti-democrático das peças únicas, feitas por medida por artesãos virtuosos, ciosos da sua arte e herdeiros de um apuro e tradição de bem fazer, tão antiga, quanto o prazer de admirar e possuir a escassa perfeição que aproxima o homem dos deuses.

Aqueles a que se referia Christian Dior quando em 1957, numa entrevista à Time, explicava: “…herdámos uma tradição de perfeição enraizada nos artesãos anónimos que ­expressavam o seu génio em gárgulas e querubins de pedra cinzelada. Os seus descendentes – mecânicos automóveis ­especializados, carpinteiros, pedreiros, canalizadores, e ­curiosos – têm orgulho nos seus trabalhos. Sentem-se ­humilhados se fizerem um trabalho medíocre. Da mesma forma, os meus alfaiates e costureiras lutam constantemente pela perfeição.”

Mas esta visão do luxo, dos artesãos perfeccionistas e de um público iluminado não só capaz de comprar mas também de apreciar, que tem as suas raízes no final do séc. XVIII a princípio do séc XIX, quando modestos artesãos como Louis ­Vuitton, Hermès ou Cartier começam a fornecer por ­encomenda as casas reais e a florescente burguesia industrial, conquistando uma elite refinada e exigente, ganhou nos últimos tempos novos contornos..

A prosperidade económica vivida nas últimas décadas e a ­reestruturação da própria indústria, que passou de uma ­exploração de base familiar para a fase dos grandes ­conglomerados que obedecem a uma lógica de lucro ­­­ime­diato e progressivo, fez com que esta actividade, por norma, afastada do grande público consumidor, sentisse necessidade de alargar a sua influência comercial ganhando assim ­perversos contornos democráticos.

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Da exclusividade passou-se à fase do luxo aspiracional em que o produto no topo da pirâmide, supostamente o mais refinado, passa a ser uma mera referência ou chamariz para as colecções que efectivamente se vendem e produzem ­lucros inimagináveis como é o caso dos perfumes, ­marroquinaria ou óculos de sol. Sustentados por poderosas campanhas de marketing, estes produtos, na maior parte dos casos de qualidade duvidosa, chegam a um público cada vez maior que quer “viver a experiência” do luxo através da ­ostentação da etiqueta, sem que na realidade chegue a ter sequer a mais vaga ideia do que ele representa.

A voracidade comercial, em grande parte assente na moda, veio criar uma pressão sazonal incompatível com o tempo necessário à perfeição e singularidade que caracterizava os objectos de luxo e, ao mesmo tempo, contribuir para a ­propagação do parasitismo de conceito que o abaixamento de nível inevitavelmente provocou.

Diariamente tropeçamos em contextos totalmente ­despro­positados, com expressões como “fim-de-semana de luxo a preço acessível”, “luxo descontraído” ou “luxo ao seu ­alcance”, que contrariam e pervertem a essência da palavra. Este ­nivelamento provocado pelo marketing, que pretende levar a todos o “sonho”, tornou o luxo numa mera corrida às lojas e outlets substituindo a cultura da excelência pela ­cultura do monograma.

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Por outro lado, as mudanças que têm vindo a ocorrer desde os anos oitenta e acelerado vertiginosamente na última ­década, têm não só destruído a tradicional ideia de luxo mas também contribuído para aquilo que alguns estudiosos da matéria não hesitam em apontar como o inexorável ­princípio do fim.

A crise que atravessamos veio pôr a nu as debilidades de uma indústria que há muito deixou de ser desprezível em ­termos económicos quer pelos postos de trabalho que ­representa quer como gerador de receitas fiscais, ou pelo peso que tem tanto na imagem como na balança comercial de alguns países; e suscitar uma interessante discussão sob quais os caminhos que o luxo deve tomar para que sobreviva enquanto indústria e conceito.

Quanto a mim, modesto apreciador que sou das manifestações do luxo e da beleza que os seus objectos encerram, embora quase sempre ao longe, acredito que o mercado a seu tempo se encarregará de resolver os problemas que ­afinal de contas criou (outro pecado dos tempos que ­correm) e acabará por sair revigorado depois da turbulência que vive. O mais certo será que a indústria de que aqui vos falei deixe de se chamar de luxo e passe apenas a reflectir o bem estar económico e a necessidade do supérfluo sem grandes ­exigências que é apanágio dos nossos dias.

O luxo, o verdadeiro, e tudo o que ele significa depois deste flirt contra-natura com as massas, voltará a ocupar sem ambi­guidades o seu lugar cimeiro, de difícil acesso e ­reservado ­apenas a alguns ainda que esses passem a ser mais.

Artigo originalmente publicado na Revista Anselmo 1910, nº 2

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