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Foto: August Sander


(…) Hans Castorp cresceu num clima miserável, no meio de vento e neblinas, enfiado, por assim dizer, num impermeável amarelo, mas nada disto lhe fazia perder a boa disposição. (…)

(…)  Observava, nos estaleiros cobertos, a construção dos esqueletos dos navios, envoltos por uma névoa brumosa, e os engenheiros que, de planos e tabelas de construção na mão, distribuíam instruções pelos operários – tudo imagens que nele despertavam o sentimento aprazível de pertença àquele ambiente. Este sentimento atingia o seu auge nas manhãs de domingo, no pavilhão do Alter, quando, acompanhado por James Tienappel ou pelo primo Ziemssen – Joachim Ziemssen – , se deliciava com pãezinhos quentes e carne fumada, servidos ao pequeno-almoço com um cálice de vinho velho do Porto, ao que, já reclinado na poltrona, se seguiam longas baforadas de charuto. Era justamente nesses momentos que se revelava a sua natureza mais genuína, o seu gosto pelo bem-estar pois não obstante a sua compleição anémica e refinada, entregava-se com fervor, qual criança agarrada ao seio da mãe, aos prazeres mais intensos da vida.

Transportava sobre os ombros, com ligeireza e não sem alguma dignidade, a civilização apurada que as classes superiores, dominantes na democracia mercantil, legam às gerações seguintes. Cultivava hábitos primorosos de higiene, ao mesmo tempo frequentava o alfaiate com maior reputação entre os jovens da sua esfera social. Schalleen, por sua vez, cuidava com dedicação do pequeno tesouro da roupa interior, com o monograma cuidadosamente bordado, que o guarda-fato inglês abrigava. Quando Hans Castorp deixou Hamburgo e foi estudar para fora, continuava a enviar a roupa regularmente para casa, para lavagem e pequenos arranjos (pois que a sua máxima rezava que Hamburgo era a única cidade do império onde sabiam engomar). Bastava-lhe ver um punho das suas belas camisas de cor ligeiramente puído para ser acometido de extremo desconforto. (…)

In “A Montanha Mágica, Thomas Mann