BRussel(…) Talvez a melhor forma de compreender o que significa o gosto de viver seja observar as diferentes atitudes dos homens quando estão à mesa. Há aqueles para quem a refeição é simplesmente uma obrigação; por muito boa que a comida possa ser não lhes interessa. Tiveram sempre boa comida, provavelmente em quase todas as refeições que comeram. Nunca souberam o que é viver sem jantar o que é viver sem jantar, até que a fome se torna em paixão furiosa, e consideram as refeições como puras convenções impostas pelos caprichos da sociedade em que vivem. Como todas as outras coisas, as refeições são para eles aborrecidas mas não é razão para dar a isso muita importância, pois tudo o resto é igualçmente aborrecido. Depois, há os doentes que comem por dever, porque o médico lhes disse que era necessário tomarem algum alimento para conservar as forças. Há os epicuristas que começam cheios de esperança e depressa verificam que os pratos não estão bem preparados como esperavam. Há os glutões que se atiram à comida com verdadeira voracidade, comem demasiado e ficam pletóricos e estertorosos. Finalmente, há os que começam a comer com bom apetite, satisfeitos com a sua refeição, comem até terem vontade e param em seguida.

Os que se sentam no banquete da vida têm reacções semelhantes para as boas coisas que lhes oferecem. O homem feliz corresponde ao último dos nossos comedores. O apetite está para a comida como o entusiasmo está para a vida. O homem que se aborrece com as suas refeições, corresponde à vítima da infelicidade byroniana. O doente que come por dever corresponde ao asceta, o glutão ao voluptuoso, o epicurista à pessoa difícil de satisfazer que condena metade dos prazeres da existência como inestéticos. Por estranho que pareça, todos estes tipos, com a possível excepção do glutão, desprezam o homem de apetite são e consideram-se superiores a ele. Afigura-se-lhes vulgar gostar de comida porque se tem fome, ou gostar da vida porque ela oferece grande variedade de espectáculos interessantes e de experiências surpreendentes. (…)

In A Conquista da Felicidade, Bertrand Russel

Magritte - The Magician

O Mágico, René Magritte