o_senhor_cinco_por_cento_gFoi posta recentemente à venda em Portugal pela Texto Editores, uma biografia de Calouste Gulbenkian escrita por Ralph Hewins com a colaboração do filho Nubar Sarkis, intitulada “O senhor cinco por cento”. Como muitos saberão, Gulbenkian viveu os últimos treze anos da sua vida em Portugal, país que lhe terá sido aconselhado pelo filho por: “ter acesso à América, um clima ideal, comida excelente, um povo hospitaleiro e um governo estável.”

Gulbenkian aceitou a sugestão e instalou-se no Hotel Aviz, tido como um dos melhores do mundo à altura e o único verdadeiramente de luxo em Portugal, onde ocupou a suite 42 com quarto, casa de banho e sala de estar privados e uma varanda no primeiro andar por cima da entrada. Naquela que foi a sua última “casa”, contou-me um amigo que o conheceu pessoalmente, Gulbenkian recebia frequentemente as visitas no restaurante do hotel onde tinha cozinheiro privado e uma mesa permanentemente reservada numa área ligeiramente sobrelevada em relação à restante sala.

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(…)

Embasbacado, assisti à sua altercação com os cozinheiros principais do Ritz e do Savoy sobre os ingredientes correctos para a Poulet Vendome e para a Poulet Rose de Mai – se uma ou outra é recheada com foie gras ou outro ingrediente não tão rico. Ele espera que seja tudo como ele quer.

Há uma etiqueta maravilhosa quando se vai visitá-lo. “Venha ver-me às duas horas e dezassete minutos”, pode ele dizer. “Tenho de receber outra pessoa às três horas, mas poderei falar consigo até às três menos três.”

É trazida uma refeição ligeira num carrinho de chá para a sua suite permanente de 20 libras no Ritz e ele descasca um pêssego com a sua faca de prata, como um cirurgião a fazer uma operação a um olho, começa-o com meia garrafa de champanhe e o almoço está terminado. (…)

(…) O monóculo rígido; a barba brilhante, comprida, azulada; o alfinete de gravata de pérola a prender a gravata no fato formal de riscas finas; as mãos arranjadas, a brincar cuidadosamente com o cálice de brandy aquecido em forma de tulipa; a orquídea fresca na lapela; até as sobrancelhas parecem ter sido arranjadas para ficarem perfeitas; seguramente o homem mais imaculado do mundo e, estranhamente, de forma alguma ridículo, se bem que se assemelhe à versão de um cartoonista soviético de um “Vampiro Capitalista”. (…)

In Calouste Gulbenkian – O Senhor Cinco por Cento, Ralph Hewins