pilulas

(…) Ao jantar, Afonso anunciara a intenção de ir visitar, para o meado do mês, as velhas árvores de Santa Olávia; e combinara-se logo uma grande romaria de amizade às margens do Douro. Craft e Sequeira acompanhavam Afonso. O marquês prometera uma visita para Agosto “na companhia melodiosa”, dizia, ele do amigo Steinbroken. D. Diogo hesitava, com receio da longa jornada, da humidade da aldeia. E agora tratava-se  de persuadir Ega a ir também, com Carlos – quando Carlos acabasse enfim de reunir esses materiais do seu livro, que o retinham em Lisboa “à banca do labor….”. Mas o Ega resistia. O campo, dizia ele, era bom para os selvagens. O homem, à maneira que se civiliza, afasta-se da Natureza; e a realização do progresso, o Paraíso na terra, que pressagiam os Idealistas, concebia-o ele como uma vasta cidade ocupando totalmente o globo, toda de casas, toda de pedra, e tendo apenas aqui e além um bosquezinho sagrado de roseiras, onde se fossem colher os ramalhetes para perfumar o altar da Justiça…
– E o milho? A bela fruta? A hortaliçazinha? – perguntava Vilaça, rindo com malícia.
Imaginava então o Vilaça, replicava o outro, que daqui a séculos ainda se comeriam hortaliças? O hábito dos vegetais era um resto de rude animalidade do homem.  Com os tempos, o ser civilizado e completo vinha a alimentar-se unicamente de produtos artificiais, em frasquinhos e em pílulas, feitos nos laboratórios do Estado…(…)

In “Os Maias”, Eça de Queirós (1888)