F. T. Marinetti, Fillia, N. Diulgheroff: Santopalato, Cucina fut

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O Futurismo foi o primeiro movimento artístico vanguardista do séc. XX e aquele que formalmente mais influenciou a arte contemporânea.
Obra desse grande propagandista e agitador que foi o italiano nascido em Alexandria, Filipo Tomaso Marinetti, o Manifesto Futurista foi apresentado ao mundo, pela primeira vez, na página da frente do diário francês Le Figaro, em 1909. A forma, copiada do Manifesto Comunista de K. Marx e F. Engels e a opção pela imprensa como meio difusor, foram só por si uma declaração de intenções que afirmava de forma inédita mas peremptória, o propósito de levar a arte a um público o mais vasto possível e de alastrá-la a todas as manifestações da vida.
A gramática revolucionária do futurismo, que tinha como destinatário privilegiado as grandes multidões, exaltava a guerra, o movimento, a máquina, a electricidade, o ruido e a acção, ao mesmo tempo que jurava arrasar os fundamentos e as mentalidades de uma sociedade, no seu entender, arcaica.
A agitação e a provocação foram as maiores armas do incansável Marinetti a quem alguém um dia chamou “a cafeína da Europa” e do grupo de artistas, maioritariamente italianos, que se reuniu em seu redor.
As performances dos futuristas rompiam com a solenidade dos salões e museus para ir ao encontro do grande público que era, para o grupo, não uma massa estática condicionada ao aplauso, mas antes uma audiência reactiva, constantemente provocada e obrigada a participar mesmo que, muitas vezes, isso implicasse desagrado, tumulto e até violência.
A vida e a arte eram para o Futurismo duas realidades inseparáveis e a sua estética algo para ser levado ao extremo e estar presente nas manifestações mais elementares da actividade humana.
Nesta perspectiva foram publicados múltiplos manifestos que doutrinaram não só as disciplinas clássicas da arte como a poesia, pintura, música ou teatro e as despontantes fotografia e cinema mas também áreas com implicações directas na vida real, como a arquitectura, o urbanismo ou o vestuário e a gastronomia, que não ficaria de fora.

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Assim, em 1930, Marinetti publicava na Gazetta del Popolo de Turim, o primeiro Manifesto da Cozinha Futurista, onde proclamava “a necessidade de um novo programa de renovação total da gastronomia italiana”.
Para além de sugestões como “a abolição do volume e do peso no modo de conceber e valorizar o alimento” ou “a abolição do quotidianismo medíocre nos prazeres do palato” em que convida a química a proporcionar rapidamente ao corpo as calorias necessárias através de nutrientes equivalentes “sob a forma de pó ou pílulas, compostos albuminóides, gorduras sintéticas e vitaminas”. Logo na alínea “a”, Marinetti apresentava aquela que era a sua mais polémica proposta, na qual defendia “a abolição da pastasciutta, essa absurda religião italiana”, que afirmava ser um alimento do passado, antipatriótico, responsável pelo cepticismo, lentidão e pessimismo do povo italiano.
Como alternativa propunha, doravante, o incremento da utilização do arroz, mais conotado com as regiões do norte de Itália e com a produção e o industrialismo, contrariamente à pasta, por norma consumida no sul, sinónimo de pobreza e sub-desenvolvimento. A proposta, uma clara piscadela de olho ao fascismo, gerou grandes e acaloradas discussões e, embora nunca tivesse sido levada às últimas consequências, chegou a ser adoptada em parte pelo governo de Mussolini, que a propagandeou, sobretudo, como tentativa de diminuir a importação de farinha de trigo em cujo cultivo o país era claramente deficitário, contrariamente ao arroz que produzia em excesso.
Como seria de esperar, o sul, particularmente Nápoles, indignou-se com a potencial irradicação da pasta dando início a uma campanha contra Marinetti e a sua proposta.  A reacção teve o seu auge com a publicação de uma foto em que se podia ver o ideólogo do Futurismo, em 1930, no restaurante Biffi, de Milão, devorando avidamente um prato da infame pastasciutta num acto de prevaricação, que este desmentiu algum tempo mais tarde no seu livro “A cozinha Futurista”, afirmando tratar-se de uma montagem fotográfica, divulgada com o único propósito de o desacreditar.
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Para consumarem os seus desideratos gastronómicos, os futuristas desencadearam uma série de eventos e iniciativas, que incluiram a participação na Exposição Colonial de Paris, em 1931, para a qual, o arquitecto Guido Fiorini, desenhou um restaurante/pavilhão futurista, decorado com trabalhos do pintor Enrico Prampolini, no qual foi servido o Primeiro Menu Futurista (Prime Vivande Futuriste). Ainda no mesmo ano, abriu em Turim o restaurante “Taverna Santopalato”, que ficaria para a história como o templo gastronómico do Futurismo. Impulsionado e concebido pelo aeropintor Fillìa e pelo arquitecto e designer Nikolaj Diulgheroff para ser palco da arrojada cozinha que os seus mentores afirmavam pretender “multiplicar infinitamente a alegria de viver, alimentar os olhos e excitar a imaginação antes sequer de tentar os lábios”,  e ao mesmo tempo “ser fonte de surpresa e excitante experiência sensorial, onde o teatro, arte e vida se encontram”.
Embora a declaração de intenções fosse pouco aguerrida e até algo lírica quando comparada com o habitual fraseado futurista, o facto é que as funções que ali tiveram lugar durante o período de tempo relativamente curto em que o restaurante se manteve aberto, eram tudo menos convencionais.
Acompanhados por poesia e ópera de Wagner, os jantares eram generosamente perfumados pelos empregados que se movimentavam por entre as mesas aspergindo pratos e comensais, prontamente “arejados” recorrendo a enormes ventoínhas de avião que faziam circular tempestuosamente o ar pela sala, levando consigo o que solto estivesse.
O espaço mudava constantemente de temperatura e cor e os clientes eram interrompidos e convidados a trocar de lugar rapidamente. E, enquanto se degustava a insólita refeição, era servido vinho azul, leite laranja e água mineral encarnada, tudo no intuito de proporcionar a quem lá ia, aquilo que hoje está muito na moda, mas que, curiosamente, já na altura, os futuristas designavam como “uma completa experiência sensorial”.
Para os futuristas, enquanto durou a novidade, o Santopalato foi um sucesso, mais medido pela curiosidade e polémica suscitada do que propriamente pelo prazer que proporcionava. As reacções eram as mais diversas e iam da admiração à repulsa, sem nunca ficar pela indiferença.

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Do primeiro menu constavam os seguintes pratos, confeccionados de acordo com a técnica futurista, pelos cozinheiros do Santopalato, Piccinelli Ernesto e Burdese Celeste: Antipasto intuitivo; Aerovianda- táctil, com ruido e odor (criação de Fillìa); Caldo solar (criação de Piccinelli Ernesto); Tuttoriso – com vinho e cerveja (criação de Fillìa); Carneplástico (criação de Fillìa); Ultraviril (criação de P. A. Saladin); Paisagem alimentar (criação de Angelo Giachino); Mare d’Itália (criação de Fillìa); Salada mediterrânica (criação de Burdese Celeste); FrangoFiat (criação de Diulgheroff); Equador + Pólo Norte (criação de E. Prampolini); Docelástico (criação de Fillìa); Reticolati do céu (criação de Mino Rosso); Frutos d’Itália (composição simultânea), acompanhado por Vinho Costa, Cerveja Metzger, Espumante Cora, Licor Amaro Cora, Café Mistura Sublime e Perfumes Dory. Um ano depois, Marinetti compilaria todo este receituário no livro que publicou conjuntamente com Fillia intitulado “La Cucina Futurista”. A obra ilustrada, apresentava 172 receitas e “polibibite” (cocktails) a que, basicamente, acrescentava o ideário futurista propalado até à altura. As receitas que podem observar no vídeo embebido, são alguns dos exemplos dos mais emblemáticos produzidos pelo movimento que, na sua ânsia de ruptura, tentou o impossível, separar a pasta do povo italiano, em nome do progresso.
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É indesmentível que a arte nunca mais seria a mesma depois dos futuristas e pese embora o facto dos grandes avanços culinários da altura estarem um pouco mais a norte onde, no outro lado do canal, Escoffier deixava tranquilamente a cozinha sobriamente arrumada para as gerações vindouras, também não deixa de ser verdade que, a faceta científico/industrial da alimentação, de que o futurismo foi arauto, vir-se-ia a cumprir pouco tempo depois e que todo o carácter espectacular, criativo e sensorial com que pretendiam quebrar a monotonia alimentar e atrair a atenção das massas, está mais vivo do que nunca e é bem visível no trabalho de alguns dos grandes chefs da actualidade.