Baldessaro(…) considero que há uma regra muito universal, que me parece valer mais do que todas as outras para todas as coisas humanas que se fazem ou que se dizem, a que é necessário fugir, tanto quanto possível, como um escolho muito acerado e perigoso, da afectação e, talvez para utilizar uma palavra nova, dar provas em todas as coisas de uma certa sprezzatura, que esconda a arte e mostre que o que se faz e diz surgiu sem dificuldade e quase sem pensar nisso. É daí, creio, que deriva sobretudo a graça, porque cada uma sabe a dificuldade das coisas raras e bem feitas, ainda que a facilidade nelas cause uma grande admiração; e, pelo contrário, fazer esforços e, como se diz, puxar pelos cabelos, dá muita desgraça, e faz com que uma coisa, por maior que seja, não mereça estima. Por isso, pode dizer-se que a verdadeira arte é a que parece não ser arte; e, acima de tudo, deve-se fazer um esforço para a esconder, porque, se é descoberta, retira totalmente o crédito e faz com que o homem seja pouco estimado (…)
(…) “Vede como um cavaleiro tem má graça quando se esforça por ir muito esticado sobre a sela e, como nós costumamos dizer, à veneziana, em comparação com o outro, que parece nem pensar nisso e que monta a cavalo tão à vontade e seguro como se estivesse a pé. Como o gentil-homem de armas agrada mais e recebe mais elogios quando é modesto, quando fala pouco e pouco se gaba, do que outro que esteja sempre a gabar-se e que, com as suas blasfémias e bravatas, parece ameaçar o mundo! Não há nada mais afectado do que querer parecer galhardo. O mesmo acontece com qualquer exercício, ou melhor, em tudo o que se possa fazer ou dizer.”
In: “O livro do Cortesão”, Baldesar Castiglione

sprezzatura

Isabella, Sir John Everett Millais