V

epicurus5(…) Poucos tempos foram mais trágicos que o de Epicuro. Epicuro é cidadão ateniense, passa a maior parte da sua vida em Atenas. Nasceu em Samos, filho de um colono ateniense, mestre-escola, em 341. Aos catorze anos, o pai mandou-o seguir em Téos as lições de um discípulo de Demócrito, que ensinava, pela via de uma representação do mundo toda atomística, “a ausência do temor”, abrindo assim aos seus discípulos o caminho da felicidade.
Após a morte de Alexandre, em 323, Epicuro viveu alguns anos no exílio e na pobreza: ainda muito novo, foi nesta escola que encontrou, quase sozinho, o segredo dessa felicidade que terá o privilégio de viver e que resolve comunicar aos homens. Mais tarde, juntou-se a seu pai, mas tinha ganho o hábito de viver sozinho, armando-se pela reflexão para as lutas da vida, visando com determinação a conquista da sageza. Aos dezanove anos estava amadurecido.
Doente, também. Dotado da sensibilidade mais delicada e da mais vulnerável sensibilidade, tal como atestam as suas cartas, mas já couraçado contra o sofrimento pela presença no seu corpo de uma doença de estômago e de bexiga a que a ciência do tempo não podia dar remédio, Epicuro toma o partido de viver com ela, acomodando-se a esse sofrimento, já que não podia livrar-se. Mas que importa ter de vomitar duas vezes por dia: sabe que é feito, como todos os homens, para ser feliz! Quer sê-lo e há-de sê-lo. Não quer guardar apenas para si a descoberta de quanto é simples a felicidade. Comunica-a aos homens que encontra, faz que a experimentem consigo, e eles tornam-se seus amigos. Lentamente, forma a sua doutrina. Doze anos de meditação solitária, com a cruel doença de bexiga, doze anos de frugalidade, e Epicuro começa a ensinar. Vive longamente em sofrimento e miséria, mas instala-se também na alegria profunda de ser amado pelos seus amigos e de amá-los, de ser um homem que vive na verdade. É com isto que constrói a sua moral, com a experiência da sua alegria – uma alegria arrancada ao sofrimento quotidiano do corpo. (…)

in “A Civilização Grega”, André Bonnard, Edições 70

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“The Philosopher’s Garden, Athens”, Antal Strohmayer