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mosaique-copie(…) Assim que limpou os dentes com um palito de prata, exclamou:
– Meus amigos, ainda não me apetecia vir para o triclínio, mas, para não me demorar mais tempo longe de vocês, renunciei a todas as minhas comodidades. Permitam-me, contudo, terminar o jogo.
Vinha atrás dele um miúdo com um tabuleiro de terebinto e dados de cristal. Foi então que reparei num pormenor particularmente refinado: é que, em vez de peças brancas e pretas, usava moedas de ouro e de prata. Enquanto no decorrer da partida, Trimalquião gastava tudo quanto eram palavrões de pedreiro, nós íamos saboreando as entradas; entretanto, trouxeram uma bandeja com um cesto, no qual estava uma galinha de pau com as asas muito abertas, como costumam fazer as que estão a chocar ovos. Acto contínuo, acorrem dois escravos que se puseram a revirar a palha, ao som da música, até encontrarem ovos de pavão, que distribuíram pelos convivas. Depois desta encenação, Trimalquião volta para nós o rosto e comenta:
– Meus amigos, mandei botar ovos de pavão nesta galinha e receio, caramba, que já estejam chocos. No entanto, vamos lá confirmar se ainda estarão bons para comer.
Recebemos então umas colheres que não pesavam menos de meia libra e tratámos de quebrar os ovos, que eram feitos de massa de farinha. Quanto a mim ia atirando com a minha parte  pois pareceu-me que o pintainho já ase tinha formado. Foi então que ouvi comentar a um conviva já experimentado: “Deve ter cá dentro qualquer coisa boa!”; continuei a quebrar a casca com a mão e encontrei um papa figos gordo a valer, envolto em gema de ovo apimentada.


Trimalquião, que interrompera entretanto o jogo, já se tinha feito servir de todos os acepipes, ao mesmo tempo que nos havia dado permissão, em voz alta, para beber mais vinho com mel, no caso de algum de nós assim o desejar, quando, subitamente, a música deu o mote e as entradas foram levantadas de uma só vez por um coro de cantores. Sucedeu então que, no meio da azáfama, um prato caiu no chão e logo um escravo o foi apanhar; ao dar-se conta do sucedido, Trimalquião ordenou que o servo fosse castigado com umas bofetadas e que atirassem o prato novamente ao solo. Logo veio o responsável pela sala, que se pôs a varrer com uma vassoura a baixela de prata com o restante lixo. Em seguida, entraram dois escravos etíopes muito guedelhudos, com uns pequenos odres, idênticos aos que se usam para espalhar areia no anfiteatro, e deitaram-nos vinho nas mãos; água no entanto ninguém nos ofereceu.
Ao ser louvado por estes requintes, o senhor da casa comentou:
– Marte aprecia a igualdade. Por isso ordenei que fosse posta uma mesa para cada um. Para mais, estes escravos mal-cheirosos também nos farão menos calor com a sua presença.
Sem demora trazem à nossa presença ânforas de vidro cuidadosamente seladas a gesso, em cujos gargalos estavam colocadas etiquetas com a seguinte referência: “Falerno do consulado de Opímio, com cem anos”.
Estávamos nós a acabar de ler os rótulos, quando Trimalquião bateu as mãos e exclamou:
–Ah, que mais tempo vive o vinho que o pobre do homem! Por isso tratemo-nos de encharcar. O vinho vida é! Opimiano de boa cepa é o que lhes ofereço. Ontem não o servi tão bom e jantava comigo gente de muito mais categoria. (…)

in Satyricon (Festim de Trimalquião),de Petrónio